Definição de Intelectual

Raymond Aron, em “O Ópio dos Intelectuais” (1955), reflete mais sobre os trabalhadores intelectuais.

Em maior número, mais livre, mais prestigiosa, mais próxima do poder é como nos parece, no nosso século, a categoria social que designamos vagamente com a expressão “profissionais da inteligência”. As definições dadas são, de certa maneira, reveladoras e ajudam a delinear os diversos traços da categoria.

A noção mais ampla é a de trabalhador não manual. Na França, ninguém chamará de intelectual o funcionário de escritório, mesmo que ele tenha feito uma faculdade e obtido um diploma. Integrado em uma empresa coletiva, reduzido à tarefa de executante, o diplomado é um trabalhador braçal que tem a máquina de escrever como ferramenta.

A qualificação exigida para merecer o título de intelectual aumenta com o número de trabalhadores não manuais, ou seja, com o desenvolvimento econômico. Em países subdesenvolvidos, qualquer diplomado passa por intelectual; o que não deixa de ter a sua verdade. Um jovem que, vindo de algum país árabe, estudou na França de fato assume, com relação à sua pátria, maneiras típicas dos homens de letras.

Uma segunda noção, menos ampla, englobaria os especialistas e os letrados. A fronteira é incerta entre os escribas e os especialistas: passa-se progressivamente de uma categoria a outra. Alguns especialistas, como os médicos, se mantêm independentes, membros das assim chamadas profissões liberais. A distinção entre “independentes” e “assalariados”, que pode às vezes influenciar as maneiras de pensar, se mantém secundária: os médicos da Previdência Social não deixam de ser intelectuais (se porventura o eram) só por receberem um salário.

A oposição decisiva concerniria à natureza do trabalho não manual? O engenheiro e o médico têm em mãos a natureza inorgânica ou os fenômenos vitais; o escritor e o artista, as palavras, uma matéria que moldam segundo a ideia. Nesse caso, os juristas e dirigentes de organizações, que lidam com palavras e pessoas, pertencem à mesma espécie que os escritores e os artistas, quando, no entanto, estão mais próximos dos especialistas, engenheiros ou médicos.

Essas ambiguidades se devem à conjunção, no conceito de intelectual, de várias características que nem sempre ocorrem simultaneamente. Para tornar mais clara a noção, o melhor método consiste em partir dos casos puros, para depois chegar aos casos duvidosos.

Romancistas, pintores, escultores e filósofos constituem o círculo interno: vivem para e pelo exercício da inteligência. Se o valor da atividade for tomado como critério, pouco a pouco descemos de Balzac a Eugène Sue, de Proust aos autores de romances água com açúcar ou policiais, aos redatores da seção de cachorros atropelados dos matutinos.

Artistas que trabalham sem renovar, sem trazer ideias ou formas novas, professores nas suas cátedras e pesquisadores nos seus laboratórios povoam a comunidade do saber e da cultura. Abaixo deles estariam:

  1. os que trabalham na imprensa e no rádio,
  2. os que divulgam os resultados obtidos,
  3. os que mantêm a comunicação entre os eleitos e o grande público.

Nessa perspectiva, a categoria teria como centro os criadores e como fronteira a zona mal definida em que os vulgarizadores param de traduzir e começam a trair: preocupados com sucesso ou dinheiro, escravos do gosto presumido do público, tornam-se indiferentes aos valores a que deviam servir. [Ayn Rand distinguia os seres humanos entre os criativos e os parasitas.]

Essa análise tem o inconveniente de ignorar duas considerações:

  • a situação social e a origem da renda, de um lado, e
  • o objetivo, teórico ou prático, da atividade profissional, de outro.

É lícito, a posteriori, chamar de intelectuais Pascal e Descartes, um da grande burguesia e de família parlamentar, o outro da pequena nobreza. Não se pensaria, no século XVII, colocá-los naquela categoria, pois não eram “profissionais da inteligência”. Não eram menos intelectuais do que esses profissionais, se considerarmos a qualidade do espírito ou a natureza da atividade, mas não se definiam socialmente por tal atividade [No século XVIII francês, facilmente se reconhece a categoria dos intelectuais. Diderot, os enciclopedistas e os filósofos são intelectuais.]. Nas sociedades modernas, o número de profissionais aumenta e o de amadores diminui.

Um professor de Direito, por outro lado, parece merecer o qualificativo de intelectual mais do que um advogado, e um professor de Economia Política mais do que um jornalista que comenta os movimentos da conjuntura. E isso por ser, este último, em geral, um assalariado a serviço de empresas capitalistas, enquanto aquele é um funcionário público? Aparentemente não, pois no outro exemplo o advogado é membro de uma profissão liberal, enquanto o professor é funcionário público. Este último nos parece mais intelectual, pois não tem outro objetivo além da manutenção, transmissão e ampliação do saber por si só.

[Esses dois critérios não são contraditórios, mas visivelmente divergem. Os profissionais da inteligência foram crescentemente levados ao serviço “da prática administrativa ou industrial. Entre os puros estudiosos ou letrados é que a espécie dos amadores sobreviveu.]

Essas análises não permitem a escolha dogmática de uma definição, mostrando diversas definições possíveis. Pode-se ou considerar o número de especialistas uma das principais marcas das sociedades industriais – e nesse caso chama-se intelligentsia a categoria dos indivíduos que receberam, nas universidades ou nas escolas técnicas, a qualificação necessária ao exercício dessas profissões voltadas para a organização –, ou posicionar escritores, estudiosos e artistas criadores no primeiro escalão, professores e críticos no segundo, vulgarizadores e jornalistas no terceiro, enquanto os que exercem função prática, como juristas e engenheiros, deixam a categoria à medida que se entregam ao desejo de eficácia e perdem a preocupação cultural.

Na União Soviética, tendia-se para a primeira definição: a intelligentsia técnica era considerada representativa, e os próprios escritores eram “engenheiros da alma”. No Ocidente, tende-se em geral para a segunda, que se pode reduzir ainda mais, limitando-a àqueles que têm como “principal atividade escrever, ensinar, pregar, apresentar-se no palco ou praticar artes ou letras”. Estes compõem a casta dos sábios intelectuais, sejam criativos, sejam pregadores.

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