Lições de Texto para Leitura e Redação

José Luiz Fiorin, Doutor em Letras e Professor Livre-Docente do Depto. de Linguística da USP, e Francisco Platão Savioli, Professor-Assistente Doutor do Depto. de Comunicações e Artes da ECA — USP, além de Professor e Coordenador do Curso de Gramática e Interpretação de Texto do Anglo Vestibulares — São Paulo, escreveram um manual com Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo : Ática, 2011). Eu sempre tento me atualizar – e aprender mais, inclusive com o ensinamento para estudantes do Ensino Médio que irão prestar vestibular. Afinal, escrevo praticamente todos os dias. E ainda pretendo (re)escrever meia dúzia de livros…

Eles apresentam os três objetivos centrais perseguidos pelo ensino escolar em qualquer país:

  1. a preparação para o mundo do trabalho,
  2. a preparação para o exercício da cidadania e
  3. a preparação para a autonomia do aprendizado.

Essa última meta da educação formal, da qual dependem em grande parte as duas primeiras, tem estreita relação com o aprendizado da compreensão e da produção de textos.

A capacidade de compreender textos com autonomia é indispensável para acompanhar os constantes e rápidos avanços do conhecimento, sem o que não há possibilidade de exercício competente da profissão. A capacidade de produzir textos é condição necessária para quem deseja ter participação ativa nas diversas esferas de atividade da vida em sociedade.

A força de tais evidências leva à dedução que compete à escola, em qualquer estágio do percurso do aprendizado, empenhar-se para melhorar cada vez mais o desempenho do aluno na compreensão e na produção de textos. A respeito desse objetivo existe unanimidade. As divergências surgem principalmente quando se discutem as competências consideradas necessárias para atingi-lo.

Há quem julgue vão o esforço de oferecer resposta para isso, pois as competências exigidas são tantas que a tentativa de as enumerar não escaparia ao reducionismo que fatalmente obrigaria o texto a comprimir-se para caber em moldes.

Por outro lado, há aqueles que rejeitam a hipótese de uma leitura única, definitiva ou correta, mas não descartam a possibilidade de leituras cada vez mais ricas e abrangentes. Eles não acreditam na redação do texto perfeito, mas incentivam o esforço de aperfeiçoá-lo indefinidamente. É entre estes que se colocam os autores deste livro, que foi escrito para confirmar – e não para negar – a crença de que a compreensão do texto é um processo gradual e ininterrupto e de que a sua redação é sempre passível de melhora.

É preciso ressalvar, no entanto, que o reconhecimento dessa evolução gradual e contínua não implica a aceitação de que essa competência seja mero resultado da ação espontânea do tempo e da conjugação de motivações aleatórias, refratárias a qualquer esforço de sistematização.

Modernos estudos de análise do discurso e do texto descreveram inúmeros procedimentos de construção textual que se repetem com regularidade em qualquer texto. Conhecê-los pode aumentar consideravelmente a possibilidade de explorá-los com mais versatilidade, de aumentar o grau de controle sobre eles. Isso tanto para a compreensão quanto para a produção do texto.

Desse modo, se não é possível definir um conjunto limitado de fórmulas que, aplicadas, produzem automaticamente uma leitura definitiva, ao menos é possível sugerir procedimentos gerais, capazes de evitar desvios ou distorções no trabalho com o texto.

Nunca é possível atingir a leitura ou a construção perfeita de um texto, mas é sempre possível controlar interpretações que não encontram sustentação no texto ou redirecionar redações que se desviam do resultado desejado pelo enunciador. É esse o propósito destas Lições de Texto.

No primeiro capítulo de “Lições de Texto – Leitura e Redação”, os coautores fazem considerações sobre a noção de texto.

Por exemplo, com a quebra de expectativa em relação ao esperado, inicialmente, produz-se um efeito de humor, e o texto, no seu todo, passa a ser uma sátira.

Há dois dados importantíssimos na leitura de um texto:

  1. a) em um texto, o significado de uma parte não é autônomo, mas depende das outras com que se relaciona. Tanto é verdade que, no caso de humor, somos obrigados a reinterpretar o sentido anterior, quando o confrontamos com o que vem depois.
  2. b) o significado global de um texto não é o resultado de mera soma de suas partes, mas de uma certa combinação geradora de sentidos. Não fosse esse dado, o pequeno texto humorístico admitiria dupla leitura com dois sentidos justapostos. Qualquer leitor médio de texto diria que interpretá-lo dessa forma significa não o ter entendido.

Em síntese, em um texto o sentido de cada parte é definido pela relação que mantém com as demais constituintes do todo. O sentido do todo não é mera soma das partes, mas é dado pelas múltiplas relações que se estabelecem entre elas.

Ao explicar o sentido de uma leitura, usamos diversas vezes a palavra texto. Mas o que é um texto? Apesar do uso corrente da palavra, o conceito de texto não é tão simples: mesmo para aquelas pessoas habituadas a empregar esse termo com frequência.

Platão e Fiorin, no manual “Lições de Texto – Leitura e Redação”, começam por definir quais são as propriedades de um texto:

A primeira é que ele tem coerência de sentido. Isso quer dizer que ele não é um amontoado de frases, ou seja, nele, as frases não estão pura e simplesmente dispostas umas após as outras, mas estão relacionadas entre si. É por isso que, nele, o sentido de uma frase depende do sentido das demais com que se relaciona.

O sentido de qualquer passagem de um texto é dado pelo todo. Se não levarmos em conta as relações de uma frase com as outras que compõem o texto, corremos o risco de atribuir a ela um sentido oposto àquele que ela efetivamente tem.

Uma mesma frase pode ter sentidos distintos dependendo do contexto dentro do qual está inserida. Precisemos um pouco melhor o conceito de contexto. É a unidade maior em que uma unidade menor está inserida. Assim, a frase (unidade maior) serve de contexto para a palavra; o texto, para a frase, etc. O contexto pode ser explícito, quando é expresso com palavras, ou implícito, quando está embutido na situação em que o texto é produzido.

Um texto é um todo organizado de sentido. Dizer que ele é um todo organizado de sentido implica afirmar que o texto é um conjunto formado de partes solidárias, ou seja, que o sentido de uma depende das outras.

Que é que faz que um conjunto de frases forme um texto e não um amontoado desorganizado? São vários os fatores. Citemos por enquanto dois.

O primeiro é a coerência, isto é, a harmonia de sentido de modo que não haja nada ilógico, nada contraditório, nada desconexo, que nenhuma parte não se solidarize com as demais. A base da coerência é a continuidade de sentido, ou seja, a ausência de discrepâncias.

A incoerência seria dada pelo fato de que não se percebe a relação de sentido entre as duas frases que compõem o texto. Um outro fator é a ligação das frases por certos elementos que recuperam passagens já ditas ou garantem a concatenação entre as partes.

O termo “portanto” estabelece uma relação de decorrência lógica entre uma e outra frase. Esse segundo fator é menos importante que o primeiro, pois, mesmo sem esses elementos de conexão, um conjunto de frases pode ser coerente e, por conseguinte, um todo organizado de sentido.

Pode faltar elementos de ligação entre as partes de um parágrafo até a última frase, mas vai-se tocando para a frente, produzindo a unidade de sentido. O texto deixa de ser um amontoado aleatório, adquirindo coerência e, dessa forma, mostrando uma determinada mensagem pela repetição.

A segunda característica de um texto é que ele é delimitado por dois brancos. Se o texto é um todo organizado de sentido, ele pode ser verbal (um conto, por exemplo), visual (um quadro), verbal e visual (um filme) etc. Mas, em todos esses casos, será delimitado por dois espaços de não sentido, dois brancos, um antes de começar o texto e outro depois. É o espaço em branco no papel antes do início e depois do fim do texto; é o tempo de espera para que o filme comece e o que está depois da palavra Fim; é o momento antes que o maestro levante a batuta e o momento depois que ele a abaixa, etc.

O texto é produzido por um sujeito em um dado tempo e determinado espaço. Esse sujeito, por pertencer a um grupo social em um tempo e em um espaço, expõe em seus textos as ideias, os anseios, os temores, as expectativas de seu tempo e de seu grupo social.

Todo texto tem um caráter histórico, não no sentido de que narra fatos históricos, mas no de que revela os ideais e as concepções de um grupo social em uma determinada época. Cada período histórico coloca para os homens certos problemas e os textos pronunciam-se sobre eles.

Não há texto que não mostre o seu tempo. Cabe lembrar, no entanto, que uma sociedade não produz uma única forma de ver a realidade, um único modo de analisar os problemas colocados num dado momento. Como ela é dividida em grupos sociais, que têm interesses muitas vezes antagônicos, produz ideias divergentes entre si.

No entanto, algumas ideias, em certas épocas, exercem domínio sobre outras, ganhando o estatuto de concepção quase geral na sociedade. É necessário entender as concepções existentes na época e na sociedade em que o texto foi produzido para não correr o risco de compreendê-lo de maneira distorcida.

Como as ideias só podem ser expressas por meio de textos, analisar a relação do texto com sua época é estudar as relações de um texto com outros.

Poderíamos dizer que um texto é, pois, um todo organizado de sentido, delimitado por dois brancos e produzido por um sujeito num dado espaço e num dado tempo.

Duas conclusões podemos tirar dessa noção:

  1. a) uma leitura não pode basear-se em fragmentos isolados do texto, já que o significado das partes é determinado pelo todo em que estão encaixadas;
  2. b) uma leitura, de um lado, não pode levar em conta o que não está no interior do texto e, de outro, deve levar em consideração a relação, assinalada, de uma forma ou de outra, por marcas textuais, que um texto estabelece com outros.

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