Fundamentalismo Religioso, Guerra Cultural, Perseguição Política: Intolerância e Ódio Político da Direita no Brasil

Helena Celestino (Valor, 12/01/18) denuncia que, auando a professora de Psicologia da Universidade de Brasília, Tatiana Lionço, se deu conta, já tinha 300 mil visualizações e 4 mil compartilhamentos do vídeo em que o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) a associava à pedofilia nas redes sociais. Era mais um ato da campanha contra ela, iniciada em 2012, após sua palestra no Congresso ser editada de forma arbitrária em um vídeo de Jair Bolsonaro (PSC-RJ), com um violento ataque à tese da professora de que “diversidade se aprende na infância”. A ofensiva continuou com novas imagens divulgadas pelo também deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF), nas quais as palavras de Tatiana eram consideradas sinal “da chegada do anticristo“.

“Foi uma perseguição política, não só difamação, recusei-me a fazer um processo só cível”, diz a professora, que no momento escreve um livro sobre fundamentalismo religioso. Ela enfrentou cinco anos de assédio moral articulado por associações de “defesa dos heterossexuais” ou de “mulheres contra o feminismo”, iniciado antes mesmo de a expressão “ideologia de gênero” fazer entrada fulgurante na lista dos demônios a serem exorcizados pelas bancadas religiosas no Congresso unidas à ultradireita.

Entre a palestra de Tatiana sobre educação de meninos e meninas até o fim de 2017, o patrulhamento moral e a batalha ideológica: 

  1. invadiram os campi das universidades,
  2. alastraram-se em campanhas contra as bandeiras dos movimentos identitários — negros, mulheres, gays, trans –,
  3. impuseram censura a manifestações intelectuais e artísticas,
  4. desmereceram a cultura popular e as religiões com matriz africana.

“O ano de 2017 foi aquele em que a intelligentsia esteve sob ataque”, diz Jorge Chaloub, professor de Ciência Política atento aos movimentos da direita.

Como ocorreu nas universidades americanas depois da chegada de Donald Trump à Casa Branca, a guerra cultural ganhou espaço na vida acadêmica brasileira, com batalhas travadas por uma nova direita saída de organizações como o Movimento Brasil Livre e amplificadas nas redes sociais por polemistas apoiados por institutos de corte mais liberal.

“Foi de repente. Os professores passaram a ter as aulas interrompidas, a serem gravados, confrontados e difamados por grupos organizados e próximos do MBL“, diz Esther Solano Gallego, pesquisadora de movimentos sociais e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

As ações de intimidação nas universidades se espalharam pelo país, com ameaças, ataques, tentativas de censura aos professores e linchamento dos opositores nas redes sociais. O clima de intolerância e ódio político no Brasil passou a se reproduzir na academia e a cercear o debate de ideias. “Nas salas de aula, é enorme a tensão”, diz Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo (USP), psicanalista e escritor.

Exemplos? Na Universidade Nacional da Bahia, uma aluna precisou de segurança para garantir a defesa de sua dissertação de mestrado sobre educação infantil e sexualidade; uma segunda foi ameaçada de morte por fazer um paralelo entre brincadeiras infantis e desigualdade no mercado de trabalho.

No início de dezembro, um aluno da USP mandou um e-mail dizendo que ia entrar atirando “para matar o maior número de v…, travestis, esquerdistas e feministas”.

Na mesma Universidade de Brasília onde Tatiana dá aulas, em 2016 foram lançadas bombas caseiras em protesto contra “os esquerdopatas e maconheiros”.

Surpreendidas pela violência dos ataques, as universidades limitam-se a dar notas de apoio a professores ou repúdio ao cerceamento do debate. “É uma coisa tão nova e espalhou-se tão rapidamente que a universidade ficou perdida”, diz Solano.

A ideia de que o professor dissemina pensamentos perigosos levou a “Gazeta do Povo”, jornal de Curitiba, a propor a seus leitores que mandassem gravações e denúncias de atitudes desviantes em salas de aula para abastecer o Monitor da Doutrinação. Dois dias depois, o projeto saiu do ar, diante da forte reação de parte de leitores, advogados, empresários e sindicato dos professores do Paraná. Em nota, a “Gazeta” anunciou que concordava com parte substancial das críticas: “Embora nem de longe fosse essa nossa intenção, a ferramenta acabava por incitar, na escola, o clima de denuncismo e perseguição“.

Por todo país, há relatos dessa pressão contra a liberdade de cátedra. “O aluno pode ser um denunciador, estar na aula para enquadrá-la em uma situação jurídica. Os conteúdos envolvem uma hipersensibilidade aos contornos políticos”, afirma Dunker.

“Estamos vivendo um novo irracionalismo cultural“, diz ele, em uma referência ao livro de Sérgio Paulo Rouanet, em que o acadêmico discutia se as escolas deveriam oferecer ao aluno uma cultura erudita ou simplesmente dar-lhe um ensino mais pasteurizado ou regional, mantendo-o numa semiexclusão. “Levou tempo, mas agora que as cotas raciais funcionaram e a academia tornou-se mais sensível à diversidade, começa uma demonização da universidade, porque lá estaria entrincheirada a esquerda”, diz.

É a chamada guerra cultural que chega ao Brasil com grande intensidade. Teorizada e vivida pelos americanos desde os anos 90, os combates culturais deslocam o eixo do confronto entre esquerda e direita da economia para a questão dos costumes. Em vez de áridas discussões sobre o tamanho do Estado ou austeridade fiscal, o debate agora mobiliza emoções ao girar em torno dos conflitos que atravessam a sociedade.

De um lado, está a defesa pelo campo progressista de

  1. aborto livre,
  2. direitos LGBT,
  3. igualdade de gêneros e
  4. combate ao racismo

De outro lado, está a pauta conservadora de

  1. valorização da tradição, família, e propriedade,
  2. (falsa) moralidade, e
  3. valores cristãos-evangélicos para pagamento de dízimos e enriquecimento das Igrejas.

Nos Estados Unidos, na campanha eleitoral de 1992, o ultraconservador republicano Pat Buchanan já percebera a existência de uma guerra cultural, considerada por ele tão fundamental para construir a nação quanto fora a Guerra Fria. “É uma disputa pela alma americana“, disse em um discurso tornado célebre.

Naquele ano, o embate em torno de valores culturais foi vencido pelo democrata Bill Clinton, impondo uma derrota ao então candidato republicano George H. W. Bush. Agora, uma geração depois, com a vitória de Donald Trump, é tempo de “backlash” ou, numa tradução livre, de andar para trás: a nova administração já:

  1. cortou as verbas para fundações de defesa do aborto,
  2. explicitou a intenção de reduzir direitos dos transgêneros – com o anúncio do presidente de proibi-los de entrar nas Forças Armadas – e
  3. mudou regras para reforçar a proteção aos portadores de armas.

É uma ideia de país que está em jogo nos EUA e no Brasil, onde as diferenças e a diversidade são vistas como ameaça. Barack Obama, muito antes de Trump ser eleito, falava da amargura dos perdedores com a globalização: “Eles se agarram à religião ou às armas de fogo ou à antipatia contra os que não são iguais a eles ou a um sentimento anti-imigrante ou contra o livre comércio”, disse, desenhando sem saber o perfil dos eleitores do atual inquilino da Casa Branca.

No Brasil, a guerra cultural explode em 2015, com o crescimento de um populismo de direita, personificado por Bolsonaro e o MBL, financiado do exterior pela direita conservadora, com o enfraquecimento do PT. Chega no pós-impeachment, com um certo esgotamento da retórica antipetista e da luta contra a corrupção.

Na análise de muitos teóricos, o processo começou pouco antes da chegada do lulismo ao poder, com a redefinição do papel da esquerda. Sem intenção de mudar a relação capital/trabalho, o PT focou o combate à desigualdade, criando políticas afirmativas, das quais são exemplo o Fome Zero e as cotas para negros nas universidades.

Na análise de Dunker, fechou-se uma espécie de pacto, em que a direita ficou com a pauta econômica, mas aplicou um neoliberalismo mitigado, e a esquerda assumiu o social e as políticas de identidade. Só que o trato não resistiu ao aumento do populismo e à incapacidade de o PT de se reinventar: o acordo foi rompido e a direita entrou também nas questões comportamentais, revivendo a pauta religiosa e a defesa do branco, macho, heterossexual.

“É uma reação natural”, diz Bruno Garschagen, autor de “Pare de Acreditar no Governo“, livro lançado pela Record em 2015. “Durante anos a esquerda politizou as diversas esferas da vida em sociedade. Falava sozinha, agora as pessoas de outras correntes estão se manifestando, é saudável”, diz o cientista político, que se autoidentifica como conservador.

Virou a luta do bem contra o mal. O grande discurso da guerra cultural, movido pela direita, tem como centro o conceito de família, ligado a um passado perdido em que a família organizava e dava sentido à vida. [Fernando Nogueira da Costa: é ligado ao clã, à defesa da herança patrimonial, à dinastia política da oligarquia, etc.]

Do outro lado dessa trincheira, acontecia na vida real a “primavera das mulheres” com a defesa do direito ao corpo, desdobrada em campanha contra o assédio sexual e a luta contra as restrições ainda maiores ao aborto aprovadas pela bancada da Bíblia em uma comissão no Congresso. Juntos e misturados às feministas fortaleciam-se também o movimento negro e a defesa dos direitos LGBT, todos articulando as questões de gênero, os problemas de raça e de classe.

A discussão sobre gênero torna-se especialmente maldita para a realidade brasileira porque traz a política para a sala de jantar, a cozinha, a cama. Isto o brasileiro não está acostumado a fazer e pensar.

É a política do cotidiano – dizem os teóricos – expressa na maneira como as pessoas se vestem, tratam os empregados, alunos e filhos. A questão da identidade de gênero e raça é mais presente na casa das famílias, se não for trazida pelo comportamento de filhos ou filhas, chegará pelos amigos deles.

Chega assim à agenda da nova direita o combate à ideologia de gênero, ideia introduzida pelo cardeal Joseph Ratzinger, antes de ele se tornar o papa Bento XVI. Na tradução para o popular, a teoria de gênero virou uma caricatura e foi transformada em um perigo moral a ameaçar as famílias, pois negaria as diferenças biológicas entre os dois sexos e defenderia a sexualidade fora de qualquer norma.

Por causa disso, a filósofa Judith Butler, etiquetada como a autora dessa teoria, foi hostilizada, ameaçada e teve uma boneca com seu rosto queimada por manifestantes, como as bruxas na Idade Média. Aos gritos de “pedófila”, pessoas tentavam fechar o seminário acadêmico em que falaria sobre os “fins da democracia”.

É um irracionalismo transformado em plataforma política. Mas consegue captar a emoção de pessoas mais simples que se sentem excluídas do debate político e pretendem se manifestar.

“Essa reação é estúpida, mas muita gente está descobrindo ideias conservadoras, liberais e libertárias agora, daí vem o radicalismo e uma certa intolerância. É uma transição”, afirma Garschagen. Transição para que?! Para uma Era de Trevas?!

Quem ficou na linha de tiro? Artistas, intelectuais, feministas, trans, gays e ativistas negros são os alvos preferenciais dos ataques dessa guerra cultural. Eles se chamam Chico Buarque, Caetano Veloso, Fernanda Montenegro, Judith Butler, Tatiana Lionço e muitos outros cujas obras foram retiradas ou desprogramadas de museus ou tiveram aulas, livros, palestras boicotados e direitos cerceados.

A partir do golpismo e antipetismo, com Temer, Trump, Bolsonaro, MBL, e coisas conservadoras e estúpidas como tais, entramos em uma Era de Obscurantismo, um estado de espírito refratário à razão e ao progresso. Está emergindo a doutrina daqueles que não desejam que a instrução penetre na massa do povo. É uma doutrina contrária ao progresso intelectual e material. O resultado de sua vitória será um estado completo de ignorância.

5 thoughts on “Fundamentalismo Religioso, Guerra Cultural, Perseguição Política: Intolerância e Ódio Político da Direita no Brasil

  1. Prezado Fernando,

    o brasileiro parece estar cada vez mais – como afirmou o biólogo Richard Dawkins em seu livro o Gene Egoísta – ativando os genes da idade média, isso segue na contramão do progresso humano e planetário, estamos prestes a conviver com inteligências superiores às nossas tanto aqui no planeta – as futuras IAs – quanto às civilizações que vivem nos planetas nas estrelas vizinhas na galáxia; é precisa abrir a mente para que o conhecimento possa entrar.

    O povo não recebeu educação suficiente para pensar a realidade planetária e viver no futuro que já está presente. Está na hora de ensinarmos os espaços de Hibert para as crianças, porque o adultos demonstram que voltaram para a idade das trevas, lamentável e vergonhoso. Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      essa é também a minha perplexidade: estamos em regressão histórica em relação aos costumes e à democracia.

      Parece que avançamos um passo à frente e, em seguida, estamos dando dois passos atrás…

      Imagine caso o Lula seja descartado e o Bolsonaro ganhe com uma grande bancada BBB de evangelistas, ruralistas e guerreiros. O último a sair apague a luz do aeroporto!
      😦

  2. Prezado Fernando,

    outra vez o link ficou indisponível, compilei dezenas de links, não adianta tentar censurar o incensurável. Segue novo link:

    O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro Completo HD – Brazilian People (subtitles in English)

    Abs.

  3. Prezado Fernando,

    tanto o livro quanto o filme postado no Youtube sobre o Povo Brasileiro, deveria ser obrigatório em todos os anos escolares, nosso povo precisa saber que fomos canibais no passado – comíamos a carne do inimigo. É o processo civilizatório que não pode ser ocultado, porque senão o tabu (por baixo dos panos) fica instalado e prejudica o debate público. Isso ocorreu com o racismo que se tornou tabu e hoje continua sendo ocultado.

    O mesmo ocorre com as crenças, em todas as constituições dos povos do planeta, deveria ser obrigatório a afirmação de que as descobertas científicas sobre as leis da física, como sendo 100% verdadeiras e livres de interpretações que invalidam o debate, apoiam a crença em inexistentes e toram os povos atrasados em seu processo civilizatório.

    Leis da física nasceram com nosso universo e não estão sujeitas às interpretações errôneas. Abs. 😉

    Em que devemos acreditar? A resposta correta é: no grau de probabilidade dos existenciais!

    https://rcristo.com.br/2022/01/21/em-que-devemos-acreditar-a-resposta-correta-e-no-grau-de-probabilidade-dos-existenciais/

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