Como Ler Um Livro

Claudio Moura Castro, em seu livro “Você sabe estudar?”, ensina Como Ler Um Livro.  Reproduzo abaixo seu texto, parcialmente, de forma mais sintética.

Durante sua vida estudantil, você tem duas formas principais de aprender:

  1. assistindo às aulas e
  2. lendo livros.

[No meu curso Economia no Cinema e na Música: Cidadania e Cultura Brasileira acrescento outros instrumentos didáticos: assistindo e debatendo filmes, pesquisando certos temas em letras de músicas; no outro curso — Métodos de Análise Econômica 2017 — somo o uso de planilhas de cálculo Excel ou Tableau e a apresentação profissional com PowerPoint e/ou Prezi.]

Depois de formado, é possível continuar aprendendo por observação, mas acabam-se as aulas. Para assuntos mais abstratos, é preciso recorrer aos livros por conta própria.

É bem provável que sua vida profissional seja muito mais interessante e tenha riqueza intelectual se você tiver o hábito de ler bons livros. Isso porque grande parte do conhecimento que adquirimos ao longo da vida chega pela via da palavra escrita, seja ou não impressa em papel.

Já se disse que ler é aprender com um professor ausente. Na leitura há segredos, há uma arte de ler. Portanto, faz sentido dominar essa arte.

De fato, se você não for um bom leitor, perderá tempo, aprenderá pouco e a leitura será um sofrimento. Se esse raciocínio estiver correto, um dos bons investimentos para assegurar o seu futuro é saber ler com competência. Ler um livro não é um processo intuitivo. É preciso aprender como se faz.

A maioria dos alunos universitários não sabe achar a ideia central em um texto bem escrito.

Obviamente, há bem escritos e mal escritos. Muitos são carentes de ideias centrais, ou, se as têm, são tortuosas ou estão mal desenvolvidas. Mas não é deles que falamos. Aliás, por que ler livros irrelevantes, havendo tantos bons?

Para nos ensinar a ler, aprendamos com o filósofo Mortimer Adler, por muitos anos redator chefe da Enciclopédia Britânica. E, também, autor de uma obra conhecida, Como ler livros, escrita na década de 1940. É um livro recordista de vendas e que continua sendo reeditado até os dias de hoje. A reputação do autor e o mero fato do livro ter uma sobrevida de meio século sugerem ser uma boa escolha.

Inicialmente, é preciso entender que há duas maneiras de ler: ativa e passiva. Aliás, essa é a mesma diferença entre estudo ativo e passivo.

Na leitura passiva, as palavras vão sendo decifradas e as informações empilhadas na nossa memória. Para leituras mais simples ou puramente informativas, nada errado com isso. É assim mesmo. A dificuldade não está na leitura – que não requer muito esforço mental. Basta a memória.

Vai se registrando as informações na memória, sem que haja algum desafio de entender ou decifrar. Não é muito diferente de ler uma lista qualquer. Nada a entender, nenhum obstáculo maior.

Aliás, se você ler um livro e, facilmente entender tudo, isso significa que não oferece mais do que informação. Do ponto de vista de ideias, é um livro pobre. Pode ser supremamente útil, mas não se embrenha no desafio de decifrar o entendimento das ideias. Sua leitura é inevitavelmente passiva. De fato, a leitura passiva não promove uma real compreensão do assunto, se é que há alguma ideia a ser dominada.

Contudo, se um livro lida com ideias, uma leitura ativa praticamente se impõe. Nesta você tem empatia com o autor, pensando conjuntamente com ele na organização lógica das ideias.

É da natureza de uma leitura ativa colocar o leitor na posição de alguém que examina criticamente o que está escrito, tentando encontrar falhas. A lógica está certa? Os fatos reunidos em defesa do argumento estão a favor das ideias defendidas? O quadro que ele descreve corresponde com a sua experiência vivida?

Frequentemente, jornalistas e escritores devem comentar livros e artigos, a pedido de jornais ou de revistas. Para redigir suas resenhas, devem lidar com perguntas do tipo:

  1. Qual a mensagem principal do autor?
  2. Isso está certo?
  3. Concordo com esse argumento?
  4. As fontes usadas para as informações são boas?

Tais profissionais, ao receberem suas incumbências, necessariamente, entram em um modo ativo de ler. Se não tiverem nada de interessante a dizer, mais cedo ou mais tarde vão perder o emprego. Pesquisadores também respondem a perguntas semelhantes, comentando os trabalhos de seus colegas. Mal comparando, é assim que se lê um livro, coletando críticas ou concordâncias, diz Claudio Moura Castro.

Isso tudo requer bem mais do que depositar fatos e datas na memória. A leitura ativa requer iniciativa, requer atenção. É o esforço de pensar. É um diálogo imaginário com o autor. Obviamente, dá mais trabalho, porém, gera um nível de compreensão muito mais profundo. Assim, quando falamos de leituras com substância, o convite à leitura ativa não é para ser rejeitado.

Em certas situações, o objetivo de ler um livro pode ser conseguir informações sobre esse ou aquele assunto. Mas não é disso que estamos falando.

Aliás, não estamos falando de leituras de contos, romances ou ficção em geral. Nesse tipo de livro, a maneira de ler é drasticamente distinta. Neles, o processo é para ser linear e tem que ser assim, para acompanhar a narrativa. Página por página, somos conduzidos pelo autor nos meandros de seu enredo. Ele precisa criar o clima, descrever o mundo no qual seus personagens atuam. Além disso, um bom romance tem elementos surpresa. Não sabemos o que vai acontecer e isso é parte da graça de um romance. Se saltarmos as páginas para ver o desenlace, o livro perde o interesse.

Mas é diferente no caso de um livro de Biologia, Física, Economia ou Psicologia. Nele, a melhor leitura não é linear, começando da primeira página. Afinal, esse tipo de livro não deve conter surpresas ao longo da leitura.

Quando nos deparamos com alguma ideia importante, nossa mente já deve estar minimamente preparada para encontrá-la e entendê-la. Como, muitas vezes, o livro lida com ideias complicadas, essa preparação prévia é fundamental.

Um bom livro tem um fio-condutor com uma ou mais ideias, em torno das quais seu argumento se desenvolve. Por exemplo, a Evolução das Espécies, de Charles Darwin, apresenta a hipótese de que, na luta pela sobrevivência, algumas espécies desaparecem e outras evoluem. Para demonstrar essa ideia central, centenas de considerações são apresentadas, bem como uma enxurrada de exemplos. Mas cada peça dessas só faz sentido se entendermos a ideia central da evolução.

Para que uma leitura desse tipo faça sentido, há o desafio de identificar as ideias em torno das quais se estrutura a narrativa do autor. Se não conseguirmos pôr em relevo as grandes ideias, o livro não nos trará mais do que um amontoado de fatos e informações desconexas. E achar esse fio da meada nem sempre é fácil.

Daí as estratégias para ler um livro, apresentadas a seguir por Claudio Moura Castro no livro “Você sabe estudar?”.

A principal estratégia consiste, exatamente, em não fazer como habitualmente, ou seja, começar na página um e ir até a última. Em vez disso, o livro deve ser “conquistado” em três etapas:

  1. primeiro, uma leitura por inspeção;
  2. depois, uma leitura analítica;
  3. finalmente, a comparação das ideias apresentadas com outras que flutuam no mundo das teorias e interpretações.

São níveis crescentes de profundidade de leitura.

Segundo Francis Bacon, o grande ensaísta inglês, um livro é para ser provado, engolido ou mastigado e, depois, digerido. Começamos “experimentando” o livro. Nessa prova inicial, começamos a entender o seu assunto e a perceber quais são suas principais ideias. Somente depois é que passamos a mergulhar plenamente na sua leitura.

Na fase inicial, enfrentamos o desafio de descobrir quais são suas grandes ideias e assuntos, mesmo que não cheguemos a entendê-los. Sem isso, a leitura linear avançaria às cegas, sem saber o que virá na próxima página ou no próximo capítulo. Iríamos aos trambolhões, com nossa mente vagando como em um romance policial de suspense.

Em um livro de ideias, faz todo sentido dar uma olhada nas conclusões, antes de enfrentar a leitura sistemática. Em contraste, não vamos à última página de um romance policial para ver quem foi o assassino. Nos livros de ideias, queremos exatamente o oposto. A não-ficção exige mapear o caminho, previamente, para não nos perdermos.

Na fase de inspeção, há outro lado muito prático. Essa primeira exploração visa também decidir se vale a pena ler o livro. Com tanta coisa boa para ler, por que gastar tempo com obras menores e de pouco interesse? Se tem pouco valor ou originalidade em relação ao já conhecido? Nesses casos, uma pré-leitura pode ser o suficiente para dar uma ideia do que trata o livro e, se for o caso, parar por aí.

[Este é um grande problema da literatura acadêmica contemporânea, composta por artigos-resenha de autores muito conhecidos sem nada acrescentar de original. Não os supera com uma análise crítica, mantendo o que ainda se sustenta, mas avançando com novas ideias dedutivas. Pelo contrário, na ânsia do publish or perish, o que se faz em geral é uma mera apologia dos gurus teóricos de cada corrente de pensamento. Por isso, deixou-me de interessar a leitura de autores, por exemplo, “louvadores de Marx, Keynes, Schumpeter”, entre outros grandes mestres, cujas ideias básicas já conheço.]

Igualmente útil é mapear as partes do livro que vão nos interessar mais. Na maioria das vezes, ler todas as páginas não é uma boa ideia, pois há muito material que não nos interessa.

No fundo, essa leitura inicial consiste em folhear o livro da frente para trás, de trás para frente, lendo alguma coisa aqui, outra acolá. Se há gráficos e tabelas, esses costumam oferecer o miolo do argumento.

[Eu logo os busco para ver o grau de atualidade da narrativa se é o caso de análise da conjuntura.]

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