Vozes Mostradas e Demarcadas no Texto

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua terceira lição, tratam de vozes mostradas e demarcadas no texto. Afirmam que a negação, tanto a indicada pelo prefixo des, quanto a feita pelo advérbio não, implica a presença de duas vozes, dois pontos de vista a respeito do objeto do discurso:

  • um que a vê como uma fonte e um repositório de sentimentos, de mitos e de metáforas;
  • outro que a vê em sua realidade nua e crua.

Um diz “o que deveria ser”, outro diz “o que é”. Ambos pontos de vista são válidos – e necessários. Temos é que entender ambos: o normativo e o positivo.

Uma negação implica duas perspectivas distintas sobre uma dada questão, pois ela se opõe a uma afirmação anterior, refuta a posição afirmativa correspondente. Diferentemente do caso em que não há marcas linguísticas a delimitar as duas concepções implicadas no texto, mas elas são percebidas apenas pelo nosso conhecimento a respeito das diferentes opiniões que circulavam em uma determinada sociedade sobre uma dada questão. Em texto com os operadores linguísticos da negação, o prefixo des e o advérbio não demarcam os dois pontos de vista, as duas vozes mostradas no texto.

Apesar de duas perspectivas estarem delimitadas pela negação, precisamos ainda nos valer de nossa memória discursiva, de nosso conhecimento dos textos literários, para entender bem o que o autor está refutando. Em outras palavras, valer de nossa cultura…

Há diversos mecanismos linguísticos que servem para mostrar diferentes vozes no interior de um texto, demarcando nitidamente esses distintos pontos de vista.

O primeiro desses mecanismos é a negação, pois, como se disse, nela estão implicadas duas vozes:

  1. uma que afirma e
  2. outra que refuta a afirmação anterior.

Assim, quando Brás Cubas diz, através de Machado de Assis, no final de suas Memórias Póstumas de Brás Cubas, “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”, temos dois tipos de negação:

  • a primeira (Não tive filhos), chamada negação descritiva, é aquela que aparentemente nega um dado da realidade, mas na verdade rejeita o que poderia ser a visão de alguém sobre ela (no caso, teve filhos);
  • a segunda é denominada negação polêmica, pois expressa claramente uma oposição a um dado ponto de vista presente na sociedade (no caso, ter filhos é transmitir a uma criatura tudo o que existe de bom), afirmando uma concepção contrária (no texto, a de que ter filhos é transmitir a alguma criatura o legado da miséria da humanidade).

Outro expediente linguístico para mostrar diferentes vozes bem demarcadas no texto são o discurso direto e o discurso indireto. Em um texto, as personagens falam, conversam entre si, expõem suas ideias. Quando o narrador conta o que elas disseram, insere na narrativa uma fala que não é de sua autoria, cita o discurso alheio. O discurso direto e o indireto são procedimentos de reprodução do discurso das personagens.

Por via indireta, isto é, quando se fala por meio das palavras do narrador, esse expediente chama-se discurso indireto.

As principais marcas do discurso indireto são:

  1. o que a personagem disse vem também introduzido por um verbo de dizer;
  2. o que a personagem disse constitui uma oração subordinada substantiva objetiva direta do verbo de dizer e, portanto, é separada da fala do narrador por uma partícula introdutória, que pode ser uma conjunção como o que ou o se (Ele disse que não sabe), um advérbio (Não disse onde estará) ou um pronome interrogativo (Pergunto por que ele não veio);
  3. como apenas o narrador toma a palavra, apenas ele diz eu; somente a pessoa com quem ele fala é designada por tu; só o lugar onde ele está é chamado aqui e, a partir dele, os demais espaços são organizados; apenas o tempo em que ele fala é marcado como agora e em função dele são ordenados os outros tempos.

No discurso indireto, eu passa a ele, porque indica não mais quem fala, mas alguém a respeito de quem o narrador diz alguma coisa. Por exemplo, estaria é futuro do pretérito, que é um tempo que indica posterioridade em relação a um momento pretérito, indicado por disse, e não posterioridade ao momento presente em que a personagem está falando, como o faz estarei. é o espaço em que está a personagem — distinto do aqui em que se acha o narrador. No dia seguinte é o dia posterior ao momento pretérito em que se deu a fala da personagem.

Na passagem do discurso direto para o indireto, deve-se observar o seguinte:

  1. as frases que, no discurso direto, têm a forma interrogativa, exclamativa ou imperativa convertem-se, no discurso indireto, em orações declarativas;
  2. as interjeições e os vocativos do discurso direto desaparecem no discurso indireto ou seu valor semântico é explicitado, isto é, traduz-se o significado que eles expressam;
  3. se o discurso citado (fala da personagem) comporta um eu ou um tu que não se encontram entre as pessoas do discurso citante (fala do narrador), eles são convertidos em um ele; se os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele) e os advérbios de espaço (aqui, aí, lá) do discurso citado não corresponderem aos do discurso citante devem ajustar-se a estes.

O discurso direto é uma espécie de teatralização da fala dos outros. Por isso, produz um efeito de sentido de verdade. O leitor ou o ouvinte tem a impressão de que quem cita preservou a integridade do discurso citado e de que, portanto, é autêntico o que ele reproduziu. É como se ouvisse a pessoa citada falar com suas próprias palavras e com a mesma carga de subjetividade.

Como há dois tipos de discurso indireto (o que analisa o conteúdo e o que analisa a expressão), esse procedimento de citação do discurso alheio pode criar diferentes espécies de efeitos de sentido. Dado que o primeiro tipo elimina os elementos emocionais ou afetivos presentes no discurso direto (por exemplo, as interrogações, as exclamações, as formas imperativas, as interjeições), produz um efeito de sentido de objetividade analítica.

Nele o narrador revela somente o conteúdo do discurso da personagem e não o modo como ela o disse. Com isso, o narrador estabelece uma distância entre sua posição e a da personagem, abrindo caminho para a réplica e o comentário. Esse tipo de discurso indireto despersonaliza o discurso citado em nome da objetividade. Cria, assim, a impressão de que o narrador analisa o discurso citado de maneira racional e isenta de envolvimento emocional.

O discurso indireto, nesse caso, não se interessa pela individualidade do falante revelada no modo como ele diz as coisas. Por isso, é a forma preferida nos textos de natureza filosófica, científica e política com a finalidade de criticar, rejeitar ou acolher as posições expressas pelos outros.

O segundo tipo de discurso indireto serve para analisar as palavras, o modo de dizer dos outros e não o conteúdo do que dizem. Ao usar o discurso indireto para analisar o modo de falar de uma personagem, o narrador o faz para dar relevo a uma típica expressão dela e, assim, manifestar uma particularidade dela. Nesse caso, o discurso indireto revela peculiaridades por meio de formas de falar. Além disso, mostra a posição do narrador em relação a elas (ironia, condescendência, desagrado, desdém etc.).

Outro recurso linguístico para demarcar a voz alheia no texto é o uso das aspas. Nesse caso, o produtor do texto coloca entre aspas palavras ou expressões:

  1. que ele não quer assumir como suas,
  2. que ele não julga muito apropriadas ao seu texto,
  3. que ele considera apenas aproximativas em relação ao que pretende dizer,
  4. que não pertencem à língua em que o texto está sendo escrito nem ao nível de linguagem que se está utilizando.

Por exemplo, uso de um termo chulo em um discurso elaborado em outro nível de linguagem. Pôr aspas significa manter certas palavras ou expressões a distância.

O uso ou não de aspas em certas expressões cria uma imagem do locutor. Suponhamos a seguinte frase “Acessou” as informações no computador, mas aí ele se atrapalhou e “deletou” tudo o que estava arquivado. Se o locutor usa acessou e deletou entre aspas cria a imagem de alguém que conhece bem o português, que sabe que essas palavras são neologismos criados pela Informática e que ainda não são acolhidos pela norma culta. Se não as usa entre aspas pode criar a imagem de alguém que está sempre pronto a acolher todas as novidades que aparecem.

O último recurso de demarcação da voz do outro são as glosas do locutor, ou seja, comentários e explicações sobre o seu dizer. Elas são usadas para:

  1. marcar uma inadequação dos termos (por exemplo, se se pode dizer, digo metaforicamente),
  2. se autocorrigir (por exemplo, ou antes, deveria ter dito),
  3. confirmar (por exemplo, é exatamente o que estou querendo dizer),
  4. pedir permissão para empregar certos termos (por exemplo, se me permitem dizer),
  5. corrigir antecipadamente um possível erro de interpretação (por exemplo, isso nos dois sentidos da palavra, no sentido próprio, no sentido figurado),
  6. marcar palavras e expressões que pertencem a outro discurso (por exemplo, como diz o outro),
  7. assinalar hesitações na busca do termo exato (por exemplo, como eu diria?, creio que é melhor dizer, não acho a palavra, essa é a palavra exata).

O falante usa as glosas:

  • seja para prevenir a manifestação de um ponto de vista distinto da pessoa com quem fala (por exemplo, quando se usa se me permite dizer),
  • seja para evitar que ela compreenda diferentemente uma dada posição (por exemplo, quando se utiliza você notou a palavra, entende o que eu quero dizer),
  • seja para mostrar que certas palavras e expressões não pertencem ao discurso que está sendo produzido ou não são adequadas a ele.

Cada glosa é um debate com as palavras, mostrando que elas podem dar margem a duas interpretações, manifestar dois pontos de vista, revelar duas vozes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s