Narração

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima quinta lição, dizem que um texto figurativo se constrói preponderantemente com termos concretos. O texto fala de uma personagem bem determinada, que, em um tempo e em um espaço bem demarcados, realiza uma série de ações.

A segunda característica é que o texto figurativo e narrativo comporta uma série de mudanças de situação, de transformações de estado. Essas mudanças de estado são ações realizadas por um dado sujeito.

A terceira característica é que as mudanças relatadas estão organizadas de maneira tal que entre elas existe sempre uma relação de anterioridade, posterioridade ou concomitância.

A quarta característica é que só aparecem no texto os tempos verbais do subsistema do passado:

  1. o pretérito perfeito (foi, tomou, despertaram, afastou-se etc.),
  2. o pretérito mais-que-perfeito (ouvira) e
  3. o pretérito imperfeito (acompanhavam, gingavam, gritavam etc.).

Não ocorre no texto nenhum caso de uso do futuro do pretérito, que pertence também ao subsistema do passado. Observe-se, além disso, que os imperfeitos, que indicam uma duratividade, estão sempre correlacionados a perfeitos, que mostram uma ação acabada.

Ao longo de nossa vida, tomamos contato com os mais variados tipos de texto: literários e jornalísticos, em verso ou em prosa, políticos, religiosos e muitos outros.

Há uma classificação que, por revelar-se útil tanto para a produção quanto para a leitura, enraizou-se na tradição escolar. Trata-se do agrupamento dos textos em:

  1. narrativos,
  2. descritivos e
  3. dissertativos.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que frequentemente esses tipos não são encontrados em estado puro. Narração, descrição e dissertação podem alternar-se em um mesmo texto. Isso não impede que, por razões didáticas, estudemos cada uma dessas classes separadamente.

É preciso em primeiro lugar distinguir narrativa e narração. O que define o componente narrativo do texto é a mudança de situação, a transformação. Narrativa é, pois, uma mudança de estado operada pela ação de uma personagem. Mesmo que essa personagem não apareça no texto, está logicamente implícita.

dois tipos de mudança:

  1. o primeiro é aquele em que alguém passa a ter alguma coisa que não tinha (lembre-se de que podemos falar não só de objetos materiais, mas de cargos, posições, estados de alma, como o ciúme, o amor etc.);
  2. o segundo tipo é aquele em que alguém deixa de ter alguma coisa que tinha, por exemplo, quando uma pessoa fica pobre deixa de ter riqueza.

Assim, temos dois tipos básicos de narrativa:

  1. de aquisição (por exemplo, as que relatam casos em que alguém enriquece, adquire um conhecimento, se apaixona, se torna ressentido, ganha uma eleição etc.) e
  2. de perda (por exemplo, as que narram eventos de término de um amor, de demissão de um posto, de enlouquecimento etc.).

Quem realiza a transformação pode ser ou não a mesma personagem que adquire ou perde o objeto. Por exemplo:

  1. quando se conta a história de alguém que herdou uma enorme fortuna, quem realiza a transformação é a personagem que legou a fortuna e quem adquire essa riqueza é o beneficiário da herança;
  2. quando se narra que alguém roubou setenta e dois lingotes de ouro de uma seguradora, quem realiza a ação e quem passa a ter a riqueza são a mesma personagem.

Um texto narrativo não tem uma mudança apenas. São várias transformações. A narrativa típica apresenta, implícita ou explicitamente, quatro mudanças de situação, sejam elas mudanças de aquisição ou de perda:

  1. uma em que uma personagem passa a ter um querer ou um dever, um desejo ou uma necessidade de fazer algo: quando alguém diz me deu uma vontade enorme de tomar uma cerveja, temos a primeira transformação, pois passou de um não querer a um querer;
  2. uma em que ela adquire um saber e um poder, isto é, a competência necessária para fazer algo: se quem passou a ter vontade de tomar uma cerveja vai pegar dinheiro para comprá-la, passou de um estado de não poder tomar a cerveja para o de poder tomá-la;
  3. uma que é a mudança principal da narrativa, a realização daquilo que se quer ou se deve fazer: quando quem quer tomar a cerveja a compra e a bebe, passamos da situação de não ter o prazer gustativo proporcionado pela bebida para a situação de tê-lo;
  4. uma em que se constata que a transformação principal ocorreu e em que se podem atribuir prêmios ou castigos às personagens: suponhamos que a personagem que tomou a cerveja seja uma criança e que o pai, tendo constatado que ela bebeu uma bebida alcoólica, ou seja, tendo passado da situação de não saber para a de saber, aplique um castigo a ela; teremos uma transformação do estado de não castigado para o de castigado. Geralmente, os prêmios são para os bons, e os castigos, para os maus, mas há narrativas em que o bem é castigado, e o mal, premiado.

Toda narrativa tem essas quatro mudanças mesmo que elas não sejam explicitamente mencionadas, pois elas se pressupõem logicamente. Com efeito, quando se constata a realização de uma mudança principal é porque ela se verificou e ela se efetua porque quem a realiza sabe e pode, quer ou deve fazê-la.

Tomemos, por exemplo, o ato de compra de um apartamento: quando se assina a escritura realiza-se o ato de compra. Mesmo que não se narre, é necessário poder (ter dinheiro) e querer ou dever comprar, por exemplo, respectivamente, querer deixar de pagar aluguel ou ter necessidade de mudar, por ter sido despejado.

Algumas mudanças são, então, necessárias, para que outras ocorram. Assim, para apanhar uma fruta é preciso, por exemplo, pegar um bambu para derrubá-la. Para ter um carro, é necessário antes conseguir dinheiro para comprá-lo.

Os exemplos que estão sendo dados são sobre tomar cerveja, comprar um apartamento, adquirir um carro, apanhar uma fruta. Alguém poderia, então, dizer: isso não são narrativas, mas ações que todos realizam. Exatamente:

  • uma narrativa é um simulacro das ações do homem no mundo, e
  • um estudo da narrativa é uma teoria da ação realizada em relação às coisas ou aos seres humanos.

Uma narrativa longa não tem uma única sequência das quatro transformações descritas acima. Tem várias:

  1. essas sequências coordenam-se umas às outras (em uma novela, por exemplo, é comum haver casos de desencontro amoroso: entre duas personagens ricas e entre duas pobres, ou entre uma rica e uma pobre);
  2. essas narrativas não se entrelaçam, mas correm paralelas (uma está coordenada à outra);
  3. implicam umas às outras (por exemplo, uma narrativa de vingança está implicada pelo relato do mal que se fez a quem se vinga, uma vez que só há vingança se houver ofensa anterior);
  4. subordinam-se umas às outras (por exemplo, quando um homem narra seu casamento e conta o que fez para conquistar sua esposa, a segunda narrativa está subordinada à primeira, pois a conquista amorosa é meio para chegar ao casamento.).

Até agora, Platão e Fiorin estão falando em narrativa, embora a lição seja sobre narração. Existe alguma diferença entre as duas? Sim.

  • A narratividade é um componente que pode existir em textos que não são narrações.
  • A narratividade é a transformação de situações.

Por exemplo, quando se diz que “a abertura da economia brasileira é necessária, pois só a concorrência pode tornar as empresas competitivas”, temos um texto tipicamente dissertativo, que, no entanto, apresenta um componente narrativo, pois contém duas mudanças de situação:

  1. passagem do fechamento à abertura e
  2. passagem da não competitividade para a competitividade.

Se a narratividade está presente, de uma forma ou de outra, em todos os tipos de texto, o que é uma narração?

É um tipo de narrativa. Tem ela quatro características básicas:

1) é um conjunto de transformação de situações referentes a personagens determinadas, mesmo que sejam coletivas (por exemplo, o povo brasileiro), ou a coisas particulares, em um tempo preciso e em um espaço bem configurado;

2) como a narração opera com personagens, situações, tempos e espaços bem determinados, trabalha predominantemente com termos concretos, sendo, portanto, um texto figurativo;

3) no interior do texto narrativo, há sempre uma progressão temporal entre os acontecimentos relatados, isto é, conta ele eventos concomitantes, anteriores ou posteriores uns aos outros (observe, no entanto, que o narrador pode dispor os acontecimentos no texto na ordem em que quiser, desde que deixe claro qual é o anterior, o concomitante e o posterior; pode começar a contar uma história e, depois de dizer, por exemplo, antes disso, narrar eventos que sucederam antes. Por exemplo, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de autoria de Machado de Assis, começa-se a narração pelo óbito do narrador e, depois, vêm seu nascimento, sua infância, a vida adulta etc.);

4) já que o ato de narrar ocorre, por definição, no presente, dado que, como vimos, o presente indica uma concomitância em relação ao momento da fala (no caso, fala do narrador), ele é posterior à história contada, que, por conseguinte, é anterior a ele; por isso, o subsistema do pretérito (pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito mais-que-perfeito e futuro do pretérito) é o conjunto de tempos por excelência da narração.

No entanto, o narrador pode criar uma narração em que haja uma concomitância entre o tempo da narração e o dos acontecimentos narrados, para simular que eles estão acontecendo no mesmo momento em que estão sendo contados.

Por exemplo, é a narrativa oral de um jogo de futebol por um locutor. No entanto, isso é uma simulação, dado que o narrador narra depois de o lance ter acontecido, quando já é passado, embora muito recente. Nesse caso, usam-se os tempos do sistema do presente (presente, pretérito perfeito e futuro do presente).

Existe também, embora muito rara, a chamada narrativa profética, em que os acontecimentos narrados são vistos como posteriores à narração. É o que pode acontecer em horóscopos, previsões meteorológicas e profecias. Nesse caso, usa-se o subsistema do futuro (presente do futuro, futuro anterior e futuro do futuro).

Cabe lembrar que, mesmo nesses textos chamados proféticos, muitas vezes usa-se o sistema do presente com valor de futuro ou, então, imagina-se o acontecimento futuro como algo já passado e faz-se uso do subsistema do passado.

Na narração, as quatro características explicadas acima (1. transformação de situações concretas, 2. figuratividade, 3. relações de posterioridade, concomitância e anterioridade entre os episódios relatados e 4. utilização preferencial do subsistema temporal do passado) devem estar conjuntamente presentes. Um texto que tenha só uma dessas características ou duas delas não é uma narração.

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