Autobiografia do Tostão

Estudei no Colégio Estadual de Minas Gerais (na época era o único existente sem a necessidade da localização “Central”) entre 1963 e 1970, desde o Ginásio (Ensino Fundamental) até o Colegial Científico (Ensino Médio). Era um dos colégios mais tradicionais de Minas, símbolo da vanguarda da arquitetura nacional e famoso por contribuir com a formação educacional de jovens que se transformaram em personalidades notáveis da literatura, música, política, esporte e várias outras áreas profissionais e artísticas.

Como na minha infância eu era morador na quadra vizinha, sempre me chamou a atenção o projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer. Ele deu ao prédio principal, com salas de aula, laboratórios, biblioteca e administração, a forma de régua T, ao teatro a de mata-borrão, à caixa-d’água a de um giz e ao anexo isolado (cantina) a forma de borracha.

O Colégio Estadual era vanguarda do ensino e esporte em Minas Gerais. Das suas salas saíram várias personalidades, como a primeira Presidenta da República, Dilma Rousseff (minha ex-aluna no doutorado do IE-UNICAMP), o governador Fernando Pimentel (PT), o médico, cronista esportivo e tricampeão mundial de futebol, Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, entre tantos outros nomes conhecidos ou não.

Sendo quatro anos mais velho (nasceu em 25 de janeiro de 1947), ele foi meu ídolo adolescente. Contava-se entre os alunos do Colégio Estadual a estória que o Tostão chegou atrasado, porque estava treinando no Cruzeiro, em jogo decisivo do campeonato de futebol de salão entre as turmas. Já estava no segundo tempo e sua turma perdia de 4 X 0. Ele entrou, e virou o jogo para 5 X 4, inclusive com o último gol chutando sem ângulo entre o goleiro e a trave!

Desde que inaugurou o Mineirão em 5 de setembro de 1965, ocasião em que estive presente (e voltei a pé da Pampulha até o Centro da cidade por carência de transporte), assisti todos os jogos do Cruzeiro, presencialmente, no Estádio, até que me mudei de BH em 1975. Aliás, até hoje assisto pela TV todos os jogos do meu time – e do Tostão. Paixão de infância não se abandona

Sendo assim, li com satisfação as memórias do Tostão, vulgo Dr. Eduardo, “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol”. Sim, ele, assim como o Afonsinho e o Sócrates, se formou em Medicina e se tornou professor na Faculdade de Ciências Médicas. Depõe, no livro, que caso tivesse ingressado como docente na UFMG, provavelmente, seguiria na carreira universitária. O País perdeu um formador de médicos e a indústria de entretenimento do futebol ganhou seu melhor cronista. O que a massa de brasileiros preferiria: mais médicos ou mais um cronista diferenciado?

Curiosamente, ele passou da casta dos guerreiros-atletas, cujos valores morais são fama, glória, coragem e honra, para a casta dos sábios-criativos, cujos valores morais são especialização, educação, autonomia, auto expressão, liberalismo cultural ou de costumes. Os professores, profissionais da mídia e escritores possuem este último Ethos cultural. Já os praticantes de esporte, em geral, têm o primeiro.

Como segui tanto a carreira de atleta quanto a de cronista do Tostão, passo-a-passo, suas memórias futebolísticas não tiveram muitas novidades para mim. Eu as compartilho. O que achei mais interessantes foram suas análises do futebol atual.

Resumo-as em seguida, em uma série de posts no dia de hoje, 22 de janeiro de 2018, comemorando oito anos de aniversário deste modesto blog pessoal!

“Os grandes jogadores reúnem, em proporções variáveis para cada um, muita técnica, habilidade e criatividade, além de ótimas condições físicas e emocionais.

A habilidade é a intimidade com a bola diante do adversário, a capacidade de criar efeitos especiais.

A técnica é a execução dos fundamentos da posição, além da lucidez para tomar decisões certas.

A criatividade é a antevisão da jogada, a capacidade de inovar, de surpreender.

O talento é a síntese de tudo isso.

Muitos confundem habilidade e criatividade com talento. Existem craques com pouca habilidade, mas não há craques sem excepcional técnica. Pelé foi o melhor de todos porque tinha, no mais alto nível, todas essas qualidades. Pelé foi tão espetacular que atingiu o máximo, a total simplicidade para jogar.

Existem jogadores que executam muito bem os fundamentos técnicos da posição, possuem bons níveis estatísticos, mas não conseguem juntar as partes, formar um todo, uma personalidade. São divididos, esquizofrênicos do ponto de vista futebolístico.”

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