Descrição

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima sexta lição, analisam o texto descritivo.

Descrição é o tipo de texto em que se expõem características de seres concretos (pessoas, objetos, situações etc.) consideradas fora da relação de anterioridade e de posterioridade.

As características do texto descritivo são:

  1. como o texto narrativo, é figurativo;
  2. ao contrário do texto narrativo, não relata propriamente mudanças de situação, mas propriedades e aspectos simultâneos dos elementos descritos, considerados, pois, numa única situação;
  3. como o que se descreve é visto como simultâneo, não existe relação de anterioridade e posterioridade entre seus enunciados;
  4. como a simultaneidade é a característica central da descrição, os tempos verbais básicos nela utilizados são o presente ou o pretérito imperfeito (às vezes, ambos), pois o primeiro expressa concomitância em relação ao momento da fala, e o segundo, em relação a um marco temporal pretérito instalado no enunciado;
  5. como não se organiza o texto em uma progressão temporal, como na narrativa, com muita frequência, sua organização é espacial, descreve-se de cima para baixo, da esquerda para a direita, de dentro para fora, do conteúdo para o continente, etc.

Fiorin e Platão insistem no fato de que a característica fundamental de um texto descritivo é a inexistência de progressão temporal. Tudo o que é descrito é considerado como simultâneo, não podendo, portanto, um enunciado ser considerado anterior ou posterior a outro.

Pode-se apresentar em uma descrição até mesmo ações ou movimentos, desde que eles sejam sempre simultâneos, não indicando uma progressão de uma situação anterior para uma posterior.

Para transformar uma descrição em uma narração, bastaria introduzir um enunciado que indicasse a passagem de um estado anterior para um posterior. A simples mudança do presente para o perfeito indica que não se está considerando a ação em sua continuidade, mas como algo acabado e, por conseguinte, o que se está levando em conta é a mudança de estado.

Pelo fato de a descrição apresentar um estado, que sofrerá mudanças, é muito comum que os textos comecem com uma descrição e, depois, convertam-se em uma narração. A descrição serve para apresentar personagens, lugares, estados, que, no curso da ação, sofrerão transformações. Por isso, o texto descritivo não relata mudanças de situação. Nele, ações e qualidades são vistas como um estado único.

Pode-se ter a passagem do não estar para o estar e a transformação do não examinar para o examiná-lo. Ter a mudança do não ter para o ter. Isso confirma o que os autores disseram antes: em um texto descritivo, narrativo ou dissertativo puro ocorre muito raramente. No entanto, a dominância de elementos descritivos leva a classificar um texto como uma descrição.

Como os enunciados indicam propriedades ou ações simultâneas, não existe relação de posterioridade e de anterioridade entre eles. Com efeito, poderíamos inverter os enunciados sem que isso produzisse qualquer alteração do ponto de vista cronológico, mesmo porque a cronologia está ausente do texto descritivo.

Pode ser que, com exceção de trechinhos considerados narrativos, em que aparecem pretéritos mais-que-perfeitos (havia chegado, haviam espetado) e um pretérito perfeito (mediu), os verbos do texto descritivo estão no pretérito imperfeito para indicar concomitância em relação a um marco temporal pretérito instalado no texto.

Se a ordenação do texto é feita espacialmente, os elementos são dispostos com os termos espaciais aqui, ali, de um lado, de outro, mais adiante etc. O texto é, pois, descritivo.

Uma descrição não é algo supérfluo ou ornamental em um texto, mas tem uma funcionalidade, pois fixa caracteres, dá qualificações para personagens, espaços, tempos. Esses elementos presentes na descrição terão um papel no desenvolvimento da trama narrativa. Uma descrição não é algo neutro, pois, a partir dos elementos selecionados e da forma como são apresentados, revela uma visão de mundo.

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