Papel dos Técnicos no Futebol

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

Os técnicos são importantes. Há treinadores ótimos e treinadores fracos, no Brasil e em todo o mundo. Uma grave deficiência de nosso futebol é a falta de continuidade, a troca excessiva no comando dos times, o que dificulta a formação de um bom conjunto. Paradoxalmente, uma das razões disso é a supervalorização dos técnicos, que se tornaram os maiores responsáveis pelas vitórias e pelas derrotas.

As análises dos resultados e das equipes passaram a ser feitas a partir da conduta dos treinadores. Os dirigentes se iludem com o fato de que a única solução para melhorar é mudar o comando. Os técnicos, quando contratados, são tratados como salvadores e gênios, e depois, quando demitidos, são tidos como burros. Há ainda os burros com sorte — título de um livro escrito por Levir Culpi — e os gênios com azar.

Os técnicos não são os únicos responsáveis pela queda de qualidade do futebol brasileiro nos últimos tempos, mas não se pode eximi-los de suas responsabilidades. O grande erro dos treinadores brasileiros, mesmo entre os mais estudiosos, foi seguir um caminho ineficiente e medíocre:

  1. de utilizar, durante muito tempo, a marcação individual, que já tinha sido abandonada pelos europeus;
  2. de privilegiar os chutões e os lançamentos longos, como se isso fosse moderno; de trocar poucos passes, como se isso fosse lentidão; e
  3. de muitos outros detalhes que empobreceram o futebol, com aplausos de parte da imprensa.

Esse período, paradoxalmente, foi o de maior valorização dos treinadores.

Por muito tempo, houve também um grande apreço pelos técnicos paizões, com pouco conhecimento científico, amigos dos jogadores e que gostam de discursos de autoajuda e de frases feitas. Felizmente, isso tem diminuído. O mesmo ocorre com os treinadores autoritários, muito valorizados por um longo tempo.

Durante as Copas do Mundo que acompanhei de perto, vendo todos os treinos da seleção brasileira, percebi que se perde muito tempo com treinamentos fora da realidade do jogo, como cruzar e finalizar sem a participação de defensores. Todos os treinadores fazem diariamente treinos de dois toques em campos reduzidos. Sei que a intenção é fazer com que os atletas troquem passes em pequenos espaços, o que é bom, mas penso que os jogadores acabam ficando viciados em tentar atuar com dois toques e perdem a capacidade de, durante as partidas, decidir se vai dar um, dois ou três toques ou driblar o adversário. Essa lucidez é essencial para se formar um grande jogador.

O futebol caminha para ter goleiros que saibam jogar com os pés e fora do gol, zagueiros que marquem e que tenham bom passe, meio-campistas que atuem de uma intermediária à outra, laterais que sejam defensores e apoiadores, formando duplas com os meias pelos lados, e centroavantes que, além de finalizar bem, se movimentem e deem bons passes.

Como os jogadores correm cada vez mais e, em uma mesma partida, ocupam várias posições e executam mais de uma função, não há mais sentido em definir a maneira de jogar de uma equipe pelo sistema tático. Os sistemas mudam a cada instante, e isso, algumas vezes, independe das determinações do técnico.

Cada vez mais os atletas se destacam pela concentração mental, pelo preparo físico e pela participação coletiva. Os psicólogos deveriam fazer parte da rotina das comissões técnicas, em vez de serem chamados apenas para ajudar nos momentos decisivos.

Uma das funções dos treinadores e dos sistemas táticos é reprimir e controlar os devaneios individualistas e valorizar mais o coletivo. Por outro lado, um dos sentimentos mais presentes na busca do craque pelo sucesso é a ambição de ser o melhor.

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