Violência, Troca de Favores, Jogo de Interesses, Torcidas Organizadas, Avanço Tecnológico: Sociedade do Espetáculo do Futebol

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“A violência nos gramados tem a ver com a violência presente na sociedade, que se espalha pelo futebol, nas brigas entre torcedores pelas ruas. Os jogadores e treinadores, pressionados e ameaçados para ganhar de qualquer jeito, perdem o controle, dão pontapés, carrinhos, brigam, discutem e agridem, para mostrar que têm raça.

Os técnicos são geralmente omissos. Passam o jogo reclamando do árbitro e gritando, para mostrar que “jogam com o time” — um dos milhares de chavões do futebol. Em vez de advertirem e punirem os atletas violentos, os técnicos colocam a culpa nos árbitros. Estes, fracos tecnicamente, ficam perdidos com tanto tumulto criado pelos treinadores e jogadores.

Outro fator importante para a queda de nosso futebol é a relação promíscua que existe entre empresários, investidores, clubes, federações estaduais e a CBF. É a troca de favores, uma das pragas da cultura brasileira. É comum um treinador e um jogador, das categorias de base ou do time principal, serem agenciados pelo mesmo empresário. Dizer que isso não pode gerar conflito de interesses é desconhecer a desmedida ambição humana.

Nem sempre os atletas que podem gerar lucros aos clubes são os que os técnicos querem colocar em campo. Os clubes, por comodismo e interesses escusos, são reféns desses empresários, que agenciam jogadores e técnicos e participam ativamente das contratações e das negociações para a saída de jogadores.

A primeira conduta de um dirigente ou de um treinador, quando assume o comando de uma seleção, deveria ser abolir todos os vínculos com empresários. Com frequência, um técnico convoca um jogador pela primeira vez, que então passa a ser valorizado, é transferido para um grande clube da Europa e nunca mais é chamado. Fica a suspeita de mutreta, ainda mais se o empresário do jogador for o mesmo do treinador. Melhor ainda é não escolher um dirigente da CBF que já tenha sido empresário de técnicos e de jogadores. Mesmo que ele interrompa formalmente todos os contratos anteriores, há sempre o perigo da permanência de vínculos afetivos.

Empresários costumam fabricar notícias, e jornalistas, por ingenuidade ou sem perceber, dão destaque e acabam se tornando participantes de um jogo de interesses. O marketing, importante em qualquer atividade, passou também a dominar o futebol, com a promoção de jogadores medíocres a bons e de excelentes a craques. O torcedor, consumidor, fica perdido, confuso, muitas vezes sem saber que está sendo enganado.

Outra relação promíscua no futebol brasileiro é a dos clubes com as torcidas organizadas, que chantageiam os dirigentes e até mesmo os jogadores. Além disso, costumam desrespeitar as leis. Se as torcidas organizadas se limitassem a torcer, a embelezar e promover o espetáculo, seriam ótimas, essenciais. Apesar de a maioria absoluta dos integrantes das torcidas organizadas não participar de arruaças, a minoria marginal é a principal causa da diminuição de público nos estádios, segundo pesquisas. A solução é manter as torcidas organizadas e acabar com os arruaceiros, prendê-los ou proibi-los de frequentar os estádios.

É preciso separar a Seleção do resto do futebol que se joga no país. Pela tradição, pelo enorme tamanho do território nacional, por ter muitos jogadores nas principais equipes do mundo e por ter milhares de crianças correndo atrás de uma bola, sonhando em ser craques, em vez de estarem em escolas públicas em período integral, o Brasil tem condições de ter uma seleção melhor do que a atual, mesmo com apenas um grande craque, Neymar. Já com relação ao futebol que se joga no Brasil como um todo, por causa da desorganização e da impossibilidade financeira de manter os principais atletas nos clubes, o nível é de segunda divisão, em comparação com os melhores times do mundo.

Nos anos 1960 e 1970, os melhores jogadores e times brasileiros eram melhores do que os melhores jogadores e times da Europa. Toda a Seleção de 1970 atuava no Brasil. O confronto entre Santos e Botafogo era tão espetacular quanto o atual Barcelona e Real Madrid. Isso mudou. Não podemos nos iludir e achar que um jogador de destaque nos campeonatos nacionais seja uma maravilha.

A ciência esportiva, a estatística e o desenvolvimento tecnológico contribuíram muito para melhorar e entender o futebol. É preciso, o mais rápido possível, adotar o uso da tecnologia na decisão de lances importantes e decisivos, impossíveis de serem vistos pelos árbitros e auxiliares.

O futebol vive um período marcante, de altíssimo desenvolvimento da ciência esportiva, especialmente da estatística. Hoje em dia, as grandes equipes do mundo e também as grandes do Brasil possuem equipes de informática, os chamados analistas técnicos e táticos, que dão todas as informações sobre os jogadores e os adversários. Isso ajuda os treinadores nas decisões e nas contratações de atletas pelos dirigentes. Por outro lado, há um exagero, uma adoração pelos números. Existem muitos técnicos muito bem informados, mas que têm pouca capacidade de observar os detalhes subjetivos. Nenhum aparelho é capaz de medir a lucidez, as emoções e os encantos dos atletas.

Os jogadores brasileiros, em comparação com os estrangeiros, são mais dependentes dos aplausos, do reconhecimento público e do que determinam seus técnicos. Têm menos consciência de suas virtudes e deficiências e mais dificuldades de assumir as responsabilidades e os riscos durante as partidas. O grande prestígio e as conquistas de nosso futebol são também enormes pesos para os jovens atletas.

Desde o passado, os jogadores brasileiros usam a esperteza, as simulações e as violações das regras e da ética para levar vantagem. O mesmo ocorre em outras atividades humanas. O jogador poderia argumentar que, no instante do lance, na emoção do jogo, na busca do sucesso, ele, sem pensar e sem racionalizar, age mais por impulsos e por desejos diabólicos, presentes nas profundezas da alma. Nada disso justifica ele não ser punido. Somos todos responsáveis por nossos atos.

A maneira de ver e de analisar o futebol também mudou. Ao mesmo tempo que aumentou bastante o número de jornalistas esportivos que se interessam por detalhes técnicos e táticos, existe também hoje pouca valorização e entendimento do jogo coletivo. Estamos na época do futebol midiático, dos melhores momentos, da repetição e da supervalorização de lances isolados, da construção de heróis e de vilões a cada jogo, como se lances individuais representassem o todo, a realidade. Após as partidas, durante dias, as imagens de lances isolados e as decisões dos árbitros são repetidas e discutidas um milhão de vezes.

A sociedade do espetáculo não gosta necessariamente de futebol. Gosta mais de consumir, festejar, descartar e trocar seus ídolos rapidamente.”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s