Dissertação

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima sétima lição, apontam como primeira característica de um texto dissertativo o fato de que ele é temático, pois analisa e interpreta a realidade com termos abstratos (método, prudência, corrupção, discreto, vontade, paixões etc.). Quando se vale de termos concretos (homem, mulher), toma-os em seu valor genérico. Não fala de um homem particular e do que faz para chegar a ser “vitorioso ou perdedor”, como seria em uma narração, mas do homem em geral e, por exemplo, dos métodos que qualquer homem utiliza para chegar ao poder.

A segunda característica é que existe transformação de situação no texto. Por exemplo, a mudança de atitude dos que clamam contra a corrupção no governo, que, quando chegam ao poder, tornam-se corruptos.

A progressão dos enunciados obedece a uma relação lógica e não cronológica. Um enunciado é anterior a outro não por causa de uma progressão temporal, mas por causa de uma concatenação lógica.

Como o texto pretende falar de algo que ele apresenta como uma verdade válida para todos os homens, em todos os tempos e lugares, constrói-se com o presente em seu valor atemporal. Todos os verbos do texto estão nesse tempo.

Dissertação é o tipo de texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade.

As características do texto dissertativo são:

  1. ao contrário do texto narrativo e do descritivo, ele é temático, ou seja, não trata de episódios ou seres concretos e particularizados, mas de análises e interpretações genéricas válidas para muitos casos concretos e particulares; opera predominantemente com termos abstratos;
  2. como o texto narrativo, mostra ele mudanças de situação;
  3. ao contrário do texto narrativo, cuja ordenação é cronológica, ele tem uma ordenação que obedece às relações lógicas: analogia, pertinência, causalidade, coexistência, correspondência, implicação etc.;
  4. já que a dissertação pretende expor verdades gerais válidas para muitos fatos particulares, o tempo por excelência da dissertação é o presente no seu valor atemporal; admite-se nela ainda o uso de outros tempos do sistema do presente, a saber, o presente com valor temporal, o pretérito perfeito e o futuro do presente.

Fiorin e Platão se perguntam por que existem estes três tipos básicos de texto, a narração, a descrição e a dissertação. Cada um deles tem uma função distinta. Os textos narrativos e descritivos são figurativos. Eles representam o mundo, simulam-no.

A narração mostra mudanças de situação de um ser particular, com os enunciados dispostos numa progressão temporal, em uma relação de anterioridade e de posterioridade. A narração capta o mundo em sua mudança, no dinamismo de suas transformações.

A descrição expõe propriedades e aspectos de um ser particular em uma relação de simultaneidade; nela não há mudanças. Ela apresenta, então, um ser tal como é visto em um dado momento, fora do dinamismo da mudança.

O texto dissertativo é temático. Explica, analisa, classifica, avalia os seres concretos. Por isso, sua referência ao mundo faz-se por conceitos amplos, modelos genéricos, muitas vezes abstraídos do tempo e do espaço. Embora apareçam nele mudanças de situação, não têm maior importância as relações de posterioridade e de anterioridade entre os enunciados, mas as relações lógicas entre eles.

O texto dissertativo é mais abstrato que os outros dois – narrativo e descritivo –, ele explica os dados concretos da realidade. Por isso, em uma dissertação, as referências a casos concretos e particulares, ou seja, narrações ou descrições que aparecem em seu interior, ocorrem apenas para ilustrar afirmações gerais ou para argumentar a favor delas ou contra elas.

A dissertação fala também de mudanças de estado, mas aborda essas transformações de maneira diferente da narração. Enquanto a finalidade central desta é relatar mudanças, a daquela é explicar e interpretar as transformações relatadas. O discurso dissertativo típico é o da ciência, o da filosofia, o dos editoriais dos jornais etc.

Geralmente se pensa que é só na dissertação que o produtor do texto expressa seu ponto de vista sobre o objeto posto em discussão. Isso não é verdade. Também na narração e na descrição estão presentes os pontos de vista de quem elabora o texto.

O que é diferente em cada tipo de texto é o modo como o produtor apresenta seus pontos de vista. Como a dissertação é um texto temático, os pontos de vista, nela, são explícitos.

Na descrição, o ponto de vista é manifestado, entre outros, pelos aspectos selecionados para serem descritos e pelos termos escolhidos. Nela, o produtor do texto transmite, por exemplo, uma visão positiva ou negativa do que está sendo descrito.

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