Texto Literário e Texto Não Literário

 

   

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), comentam que “ouvimos muito falar em literatura. Cabe, então, perguntar o que é que distingue o texto literário do não literário”.

Esse assunto já foi objeto de muita discussão e, apesar disso, não há respostas definitivas para ele. Os autores, no entanto, apresentam os critérios mais usados atualmente para caracterizar o texto literário.

Antes de mais nada, é preciso descartar qualquer critério que se fundamente no tema abordado pelo texto. Não há conteúdos exclusivos da literatura nem avessos a seu domínio.

Nesse aspecto, a única coisa que se pode afirmar é que, em certas épocas, os textos literários privilegiam certos temas e uma determinada maneira de figurativizá-los, por exemplo:

  • no barroco, aparece muito nítido o tema da transitoriedade da vida e da inevitabilidade da morte;
  • no simbolismo, não aparecem paisagens com luz chapada, ensolaradas, mas lugares enluarados, com figuras imateriais e etéreas.

Se o conteúdo é questão de preferência de época, não serve de critério para estabelecer a diferença entre texto literário e não literário.

Alguns autores dizem que essa distinção se faz com base no caráter ficcional ou não ficcional dos textos. O literário é ficção; o não literário apresenta a realidade efetivamente existente.  Esses autores, ao fazerem essa afirmação, não estão pensando que o texto literário não interprete aspectos da realidade, mas que o faz de maneira indireta, recriando o real em um plano imaginário.

Esse critério põe em evidência aspectos importantes da obra literária, mas esbarra num problema de difícil solução: como diferençar o real do fictício em certas situações concretas?

Por exemplo, a história de uma aparição da Virgem Maria ou da intervenção de um espírito provocam sorriso em um ateu cético, mas são ouvidas com respeito por um crente. Este crê, aquele não; este julga reais, aquele, fictícias estas histórias.

Em função de tudo o que se disse, a demarcação deve ser buscada em outro lugar. Modernamente, diz-se que a diferença está no fato de que o texto literário tem uma função estética, enquanto o texto não literário tem uma função utilitária (informar, convencer, explicar, responder, ordenar etc.).

Platão e Fiorin podem então enunciar a primeira característica do texto literário: a relevância do plano da expressão, que, nele, serve não apenas para veicular conteúdos, mas para recriá-los em sua organização.

Fruir um texto literário é perceber as recriações do conteúdo na expressão e não só compreender os significados.

Quem escreve um texto literário não quer apenas dizer o mundo, mas recriá-lo nas palavras, de forma que, nele, importa não só o que se diz, mas também o modo como se diz.

A mensagem literária é autocentrada, isto é, o autor procura recriar certos conteúdos na organização da expressão. Múltiplos recursos são usados para isso: ritmos, sonoridades, distribuição de sequências por oposições e simetrias, repetição de palavras ou de sons (rimas) etc.

Outra característica do texto literário é sua intangibilidade, isto é, sua intocabilidade. O poeta francês Valéry, falando do texto literário, diz que o que o distingue do não literário é que, quando se resume este, apanha-se o essencial; quando se resume aquele, perde-se o essencial.

De fato, por causa da relevância do plano da expressão, quando se resume um poema ou um romance, perdem eles todo o encanto. No texto literário, não se pode mudar palavras de lugar, suprimir ou acrescentar termos, mudar vocábulos por sinônimos.

Outra característica é que o texto literário é conotativo, isto é, cria novos significados. Enquanto o texto não literário aspira à denotação, o texto com função estética busca a conotação. Por isso, usa largamente os mecanismos da metáfora e da metonímia.

Outra característica é que, no uso estético da linguagem, procura-se desautomatizá-la, criar novas relações entre as palavras, estabelecer associações inesperadas e insólitas entre elas, para tornar singular sua combinatória e, assim, revelar novas maneiras de ver o mundo.

O texto com função utilitária busca ter um único significado, enquanto a linguagem em função estética é plurissignificativa. Um poema apresenta, pelo menos, dois planos de leitura:

  1. o da construção do objeto artístico e
  2. o da construção do ser humano.

A linguagem em função estética, que caracteriza o texto literário, apresenta, em síntese, os seguintes traços:

  1. relevância do plano da expressão,
  2. intangibilidade da organização linguística,
  3. criação de conotações,
  4. desautomatização,
  5. plurissignificação.

No texto literário, o modo de dizer é tão (ou mais) importante do que o que se diz.

Não é só na literatura que se usa a linguagem em função estética. Ela é apenas o lugar privilegiado de sua utilização. Mas na publicidade, nos trocadilhos, nos jogos de palavras, nas brincadeiras infantis, o homem encanta-se com ritmos e sons.

Além disso, cabe destacar que a poesia é o lugar em que a função estética se manifesta no mais alto grau.

No texto não literário, a ligação, a relação, a conexão entre as palavras, expressões ou frases do texto chama-se coesão textual. Ela é manifestada por elementos formais, que assinalam o vínculo entre os componentes do texto.

A conexão entre as partes é um fenômeno de coesão. Há dois tipos principais de mecanismos de coesão:

  • a retomada de termos, expressões ou frases já ditos ou sua antecipação;
  • o encadeamento de segmentos do texto.

Aqui, neste modesto blog pessoal, tenta-se postar textos não literários. O desafio do autor é transpô-los para a literatura, reescrevendo-os, para os transformar em um livro coeso e prazeroso de se ler, ou seja, dotado de uma estética admirável.

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