Conhecimento e Verdade

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, afirma que a essência do conhecimento está estreitamente ligada ao conceito de verdade. Só o conhecimento verdadeiro é conhecimento efetivo. “Conhecimento não-verdadeiro” não é propriamente conhecimento, mas erro e engano.

Em que consiste, então, a verdade do conhecimento? A verdade deve consistir na concordância da “figura” com o objeto. Um conhecimento é verdadeiro na medida em que seu conteúdo concorda com o objeto intencionado.

Consequentemente, o conceito de verdade é um conceito relacional. Ele expressa um relacionamento, a saber, o relacionamento do conteúdo do pensamento, da “figura”, com o objeto.

O próprio objeto, ao contrário, não pode ser nem verdadeiro nem falso. De certo modo, ele está para além da verdade e da inverdade. Uma representação inadequada, por sua vez, pode ser verdadeira, pois apesar de incompleta pode ser correta, se as características que contém existirem efetivamente no objeto.

O conceito de verdade que obtivemos a partir da consideração fenomenológica do conhecimento pode ser chamado conceito transcendente de verdade, vale dizer, ele tem a transcendência do objeto como pressuposto. É esse o conceito de verdade da consciência ingênua e também o da consciência científica. Ambos visam, com a verdade, a concordância do conteúdo do pensamento com o objeto.

Em que posso reconhecer um conhecimento como verdadeiro? Essa é a questão-chave acerca do critério da verdade.

O fenômeno do conhecimento humando faz fronteira com três esferas distintas, possuindo três elementos principais:

  1. sujeito, pelo qual o fenômeno do conhecimento confina com a esfera psicológica;
  2. imagem, pela qual confina com a esfera lógica;
  3. objeto, pelo qual confina com a esfera ontológica.

Enquanto processo psicológico em um sujeito, o conhecimento é objeto da Psicologia. Vê-se de imediato que a Psicologia não pode solucionar as questões referentes à essência do conhecimento humano.

Como a investigação fenomenológica mostrou, o conhecimento consiste na apreensão espiritual de um objeto. Ora, a Psicologia se abstém, em sua investigação dos processos de pensamento, dessa referência objetal.

A Psicologia dirige sua atenção para a gênese e para o curso dos processos psicológicos. Ela pergunta como o pensamento se dá e não se o pensamento é verdadeiro, isto é, se concorda com seu objeto. A pergunta sobre o conteúdo de verdade do conhecimento está fora, portanto, de seu domínio.

Se, não obstante, ela tentasse responder a essa questão, ocorreria uma passagem para outra ordem. É aqui exatamente que reside o erro de base do psicologismo.

Com seu segundo elemento, a imagem, o conhecimento ascende à esfera lógica. A “imagem” do objeto no sujeito é uma estrutura lógica e, enquanto tal, objeto da Lógica.

Mas, também aqui, imediatamente se vê que a Lógica não é capaz de resolver o problema do conhecimento. Ela investiga as estruturas lógicas enquanto tais, sua constituição interna e suas relações mútuas. Ela pergunta sobre a concordância do pensamento consigo mesmo, não sobre sua concordância com o objeto.

O questionamento epistemológico também se situa, portanto, fora da esfera lógica. Desconhecer esse fato é cair no logicismo.

Com seu terceiro elemento, o objeto, o conhecimento humano toca a esfera ontológica. O objeto defronta-se com a consciência cognoscente enquanto algo que é, quer se trate de um ser real ou ideal. O ser, porém, é objeto da ontologia.

Também aqui, deve-se reconhecer que a ontologia não pode resolver o problema do conhecimento, pois, assim como não podemos eliminar o objeto no conhecimento, também não podemos eliminar o sujeito.

Conforme o exame fenomenológico já mostrou, ambos pertencem ao conteúdo essencial do conhecimento humano. Quando se ignora isso e se encara o problema do conhecimento, de forma unilateral, a partir do objeto, o resultado é o ponto de vista do ontologismo.

Nem a Psicologia, nem a Lógica, nem a Ontologia são capazes, portanto, de resolver o problema do conhecimento, que é algo completamente peculiar e independente. Se quisermos rotulá-lo com um nome específico, poderemos falar de um fato gnosiológico.

O que queremos dizer com isso é que a referência objetal de nosso pensamento, a relação entre sujeito e objeto, não cabe em nenhuma das três disciplinas mencionadas e funda, portanto, uma nova disciplina: a Teoria do Conhecimento. Sendo assim, o exame fenomenológico também conduz ao reconhecimento da Teoria do Conhecimento como uma disciplina filosófica autônoma.

Poder-se-ia pensar que a tarefa da Teoria do Conhecimento estaria cumprida, no essencial, com a descrição do fenômeno do conhecimento. Mas não é assim. A descrição do fenômeno ainda não é uma interpretação e uma explicação filosóficas.

O método fenomenológico só pode oferecer uma descrição do fenômeno do conhecimento. Com base nessa descrição fenomenológica, deve-se buscar uma explicação e uma interpretação filosóficas, uma Teoria do Conhecimento. Essa é a verdadeira tarefa da Teoria do Conhecimento, segundo Johannes Hessen.

A fenomenologia é um método, mas não é uma Teoria do Conhecimento.

Há, sobretudo cinco problemas principais contidos nos achados fenomenológicos. Vimos que o conhecimento significa uma relação entre sujeito e objeto. Por assim dizer, ambos entram em contato um com o outro: o sujeito apreende o objeto.

A pergunta que imediatamente se faz é se essa concepção da consciência natural é justificada, se ocorre realmente esse contato entre sujeito e objeto. Será o sujeito realmente capaz de apreender o objeto? Essa é a questão sobre a possibilidade do conhecimento humano.

Deparamos com outro problema quando consideramos mais de perto a estrutura do sujeito cognoscente. Essa estrutura é dualista. O homem é um ser espiritual e sensível. Distinguimos correspondentemente um conhecimento espiritual e um conhecimento sensível. A fonte do primeiro é a razão; a do segundo, a experiência.

Pergunta-se, então, qual é a principal fonte em que a consciência cognoscente vai buscar seus conteúdos. A fonte e o fundamento do conhecimento humano é a razão ou a experiência? Essa é a questão sobre a origem do conhecimento.

Somos conduzidos ao problema verdadeiramente central da Teoria do Conhecimento quando fixamos o olhar sobre a relação entre sujeito e objeto. Na descrição fenomenológica caracterizamos essa relação como uma determinação do sujeito pelo objeto. Agora, porém, também perguntamos se essa concepção da consciência natural é a correta.

Numerosos e importantes teóricos do conhecimento definiram a relação em um sentido diametralmente oposto. Segundo eles, a situação real é exatamente inversa: não é o objeto que determina o sujeito, mas o sujeito que determina o objeto. A consciência cognoscente não se comporta receptivamente frente a seu objeto, mas ativa e espontaneamente.

Pergunta-se qual das duas interpretações do conhecimento humano é a correta. De forma abreviada, podemos chamar esse problema de questão sobre a essência do conhecimento humano.

Até agora, quando falamos em conhecimento, sempre pensamos apenas numa apreensão racional do objeto. O que se pergunta é se, além desse conhecimento racional, existe um outro, de outro tipo, um conhecimento que, por oposição ao conhecimento racional-discursivo, poderíamos chamar de intuitivo. Essa é a questão sobre os tipos de conhecimento humano.

Existe ainda um último problema: a questão sobre o critério da verdade. Se existe conhecimento verdadeiro, como posso reconhecer sua verdade? Qual é o critério que me diz em cada caso se um conhecimento é verdadeiro ou não?

O problema do conhecimento divide-se, assim, em cinco problemas parciais. No restante do livro de Johannes Hessen, intitulado “Teoria Do Conhecimento”, eles serão discutidos um após o outro. Mostrará, em cada caso, as principais soluções dadas ao problema no curso da história da Filosofia, e assumindo então uma posição crítica, indicará a direção na qual ele mesmo busca uma solução.

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