Crise Financeira: Quando Será A Próxima?

Gente de O Mercado já apoiou os golpes na democracia eleitoral brasileira — contra a Presidenta reeleita e o Presidente que seria reeleito novamente –, agora a sequestra, colocando os eleitores sob ameaça. Veja o ultimato de um típico represente de O Mercado, Sérgio Goldenstein, sócio-gestor da Flag Asset e ex-chefe do Departamento de Operações do Mercado Aberto (Demab) do Banco Central do Brasil (Valor, 08/02/17):

“O que se pode esperar para o rumo da política monetária depois das eleições depende basicamente do resultado das urnas. Se um candidato reformista [neoliberal de direita] vencer, a apreciação do real fruto da melhora de expectativa vai ajudar na queda das expectativas para o IPCA. E isso daria espaço para o BC manter o juro na mínima histórica por mais tempo, eventualmente até cortando mais. Num cenário oposto – de vitória de um candidato populista [desenvolvimentista de esquerda] -, o BC correria o risco de ter de subir os juros antecipadamente, num quadro em que o dólar estaria acima de R$ 3,60″.

Não é um verdadeiro “democrata” (sic)?! Ou os eleitores votam no candidato de O Mercado, o governador tucano, que faz “olhar-de-paisagem” quanto ao que ocorreu no Rodoanel e no metrô paulista, beneficia os que o julgariam e corta salários conquistados em carreiras meritocráticas, ou virá uma catástrofe econômica! Já vimos esse filme, em 2002, e aconteceu o contrário do que ameaçava O Mercado.

O índice de volatilidade CBOE VIX, conhecido como “termômetro do medo” em Wall Street, disparou no dia 5 de fevereiro de 2018, que ganhou o apelido de “segunda-feira negra“. O indicador mede a oscilação esperada no curto prazo ao acompanhar os preços das opções de 30 dias do S&P 500.

O VIX subiu 116% em um dia, no maior salto percentual da história. Desde então, o indicador passou a oscilar com força: fechou em 37,32 em 5 de fevereiro, caiu para 29,98 no dia seguinte, recuou para 27,73 na quarta-feira, teve repique para 33,46 na quinta e fechou a semana passada em 29,06. Na segunda, dia 12, o índice se retraiu para 25,61 e no dia 13 terminou em 24,97.

Em 2017, a máxima de fechamento do VIX foi 15,96 em 13 de abril. O índice chegou a atingir o menor nível da história em 3 de novembro, a 9,14. O aumento das apostas na manutenção da baixa volatilidade nos últimos dois anos, por meio de produtos como os Exchange Traded Notes (ETN) negociados em bolsas, contribuiu para sustentar o VIX perto das mínimas.

Christian Gattiker é estrategista-chefe do Julius Baer. Publicou artigo (Valor, 09/02/2018) intitulado “Cinco lições para detectar a próxima crise financeira“. Por seu didatismo, reproduzo-o abaixo.

“A economia não foi feita para ser usada em previsões, e é por isso que, sempre que você pergunta aos economistas sobre a próxima crise financeira, eles abrem seus livros de histórico financeiro.

Enquanto alguns especialistas já começam a prever a próxima crise, gostaríamos de definir sua natureza histórica e linha do tempo. Crises financeiras ocorrerão exatamente como aconteceram no passado, mas é improvável que enfrentemos em breve uma situação pior ou igual à de 2008.

Quando a rainha Elisabeth perguntou “Por que ninguém percebeu?”, referindo-se à crise financeira de 2008, um economista respondeu que as crises financeiras são tão difíceis de prever quanto os terremotos e as pandemias da gripe. Eles apenas acontecem.

[Fernando Nogueira da Costa: Ora, mentira, todos os bons economistas sabiam da bolha imobiliária norte-americana e discutiam quando ela estouraria. Em abril de 2005, fui a um congresso internacional de banqueiros em Madri-Espanha. Essa era a discussão lá porque, de maneira inédita, todas as economias tinham crescido em 2004 de maneira sincronizada. Ninguém, i.é, nenhum banco central queria colocar “um alfinete para estourar a bolha inflada”, justamente, porque todos os países ganhavam com aquele equilíbrio instável e precário: os norte-americanos consumiam e o resto do mundo os financiava…]

Claro que sismólogos sabem onde estão as zonas ativas e médicos podem conhecer a natureza do próximo tipo de vírus. Mas saber se um desses fatores crescerá a ponto de se destacar é difícil. O mesmo vale para os mercados financeiros.

Para medir a gravidade e a duração das crises, utilizamos as flutuações de preços do S&P 500. A “curva de febre” do gráfico [acima] dá uma indicação de volatilidade. A mãe de todas as crises financeiras foi o colapso de 1929. E nada chegou perto dessas experiências traumáticas iniciais. Ainda assim, em seus momentos, algumas pequenas crises pareciam ser o fim do mundo.

Lição 1: Mesmo crises pequenas para padrões históricos parecem ser o fim do mundo quando ocorrem. Parece haver um padrão para a frequência das crises. No gráfico, são 27 picos nos últimos 90 anos, o que faz o intervalo médio entre duas crises ser de cerca de três anos e quatro meses, mas mais da metade foram pequenas crises e choques. A alta dos juros nos Estados Unidos em 1994 e os subsequentes choques nos emergente (crise mexicana em 1995, asiática em 1997 e russa em 1998) são exemplos. Em termos de frequência, podemos notar outra lição.

Lição 2: Investidores devem esperar crises financeiras com levemente mais frequência do que a cada três anos e meio. Juntando as piores crises, adicionamos três eventos aos dois que ocorreram na Grande Depressão:

  1. os choques de petróleo de 1970,
  2. o crash de 1987 e
  3. a grande crise financeira de 2008.

Esses são icônicos e prevalecem na memória coletiva. Uma crise de tal gravidade ocorre aproximadamente a cada 20 anos, ou seja, cerca de uma vez em uma geração. Isso nos dá a nossa terceira lição.

Lição 3: Toda geração passa por uma “grande” turbulência, ou seja, uma crise que molda sua memória coletiva. O que é o oposto de uma crise?

Em 2017, a volatilidade atingiu as mínimas históricas do gráfico. Pessimistas poderiam apostar que “o único caminho seria para cima”. “Não tão rápido”, eu diria. Todo ponto de baixa volatilidade no passado foi seguido por um intervalo de dois anos antes do início da próxima crise. Assim, a menos que haja um forte choque inesperado, a probabilidade de irmos direto ao “modo crise” no início de 2018 parece bastante limitada. Assim:

Lição 4: Mercados calmos tendem historicamente a demorar algum tempo antes de virar para o “modo crise”.

Padrões à parte, é claro que existem razões fundamentalistas para a maioria das crises. No livro “This Time is Different” (Dessa vez é diferente), Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff identificam quatro fatores comuns subjacentes a todas as crises:

  1. bonanças de fluxo de capital,
  2. inovação financeira,
  3. booms de habitação e
  4. liberalização financeira.

Lição 5: Os quatro ingredientes acima são fundamentais para crises financeiras. Então, onde estamos hoje e quando chega a próxima crise?

A próxima crise financeira não deve chegar antes de 2019 (cerca de quatro anos após a crise das commodities em 2015 e 2016) e um choque geracional não deve ocorrer antes de 2025 (cerca de 18 anos após a grande crise financeira).

Olhando para os quatro fatores identificados por Reinhart e Rogoff, vemos que apenas um deles se aplica (e apenas parcialmente). Você poderia realmente afirmar que vimos uma bonança de fluxo de capital, particularmente, em renda fixa. Mais extravagantemente, o surgimento das criptomoedas, com as bitcoins, aponta para excessos semelhantes. Quanto aos outros três fatores, lutamos para encontrá-los.

Um olhar mais atento sobre padrões históricos e razões fundamentais [ligadas aos fundamentos da economia] não sugere um aumento nas chances de outra crise financeira. Isso não significa, é claro:

  1. que os mercados de ações não verão uma correção de (digamos) 5% este ano, ou
  2. que um choque externo sem precedentes não pode desencadear uma grande crise.

Tudo o que queremos transmitir aos investidores é que os pessimistas habituais não têm um caso forte no momento e que suas afirmações chocantes devem ser tomadas com uma “pedra” de sal. A próxima crise financeira atingirá os mercados em algum momento — é o que a história nos diz. Mas é altamente duvidoso que isso ocorra nos próximos 12 a 24 meses.”

 

Sérgio Tauhata e Adriana Cotias (Valor, 19/02/18) informam que uma reversão de rumo nos mercados americanos pode até estar no radar de investidores, mas é pouco provável no médio prazo. Pelo menos, é assim que analistas técnicos interpretam os gráficos dos índices Dow Jones e S&P 500 da bolsa de Nova York. Os grafistas afirmam também que, mesmo se um cenário negativo se consolidar lá fora, as repercussões no Brasil vão se mostrar restritas ao curto prazo. Será?!

Na visão da análise técnica ou grafista, que examina tendências para ativos ou índices por meio das oscilações de preços estampadas no gráfico, as turbulências apresentadas pelas bolsas de Nova York no início do mês seriam pontuais. A perda do Dow Jones de 1,1 mil pontos no dia 2 e o recuo de outros 1,6 mil pontos no dia 5, após a divulgação dos dados do mercado de trabalho nos EUA, apesar de terem sido pesadas, tecnicamente não mudaram a tendência de alta de longo prazo do índice americano.

Do ponto de vista gráfico, por enquanto, as quedas recentes em Nova York] representam apenas uma correção. Conforme o grafista, no caso do índice Dow Jones, uma reversão poderia se consolidar apenas se houver uma queda abaixo dos 22 mil pontos.

O caminho seria longo. O indicador teria de recuar quase 13%, em relação ao fechamento do último pregão da semana passada (25.219,38 pontos), para começar a sinalizar uma reversão. Por isso, acha que a leitura básica das últimas quedas é de correção, não tem inversão aí.

No gráfico semanal do Dow Jones, a média móvel de 200 períodos situa-se perto dos 24 mil pontos. Esse seria o suporte mais relevante a ser observado nas próximas semanas. Só após o rompimento desse piso, o referencial americano poderia, eventualmente, testar a casa dos 22 mil

Não por acaso, muitos algoritmos incorporam um gatilho de interrupção de perdas, conhecido como “stop loss“, no jargão do mercado, a partir dos 24 mil pontos. Tal mecanismo potencializou as quedas no início de fevereiro.

Lá fora, os estragos podem ser deflagrados pelos fluxos dos gigantescos fundos de pensão. Esses investidores institucionais, depois de ganharem muito dinheiro com a alocação em renda variável nos últimos anos, agora redirecionam os recursos para o porto seguro da renda fixa.

Outro sinal de reversão nos EUA ocorreria quando o S&P 500 caísse abaixo da sua média móvel de 200 períodos, em torno de 2.542 pontos. Enquanto o preço permanece acima dessa média móvel, o gráfico do S&P 500 reforça a percepção de otimismo no médio prazo. O caminho até o indicador encontrar o piso representa um recuo de quase 7% em relação ao nível de fechamento da sexta-feira (2.732,22 pontos).

E as consequências para o Brasil? Os gráficos revelam que, mesmo no caso de uma virada das bolsas americanas em direção a um período de quedas, ou “bear market“, no jargão dos investidores, o Ibovespa tende a sustentar uma apreciação. Ora, e maus os fundamentos macroeconômicos no Brasil? Pouco importam?!

No médio e longo prazos, os grafistas, que são indiferentes à análise fundamentalista, não veem uma correlação forte entre os índices Dow Jones ou S&P 500 com o Ibovespa.

“Desde 2003 e 2004, quando a bolsa brasileira teve uma pernada de alta, que não vemos gráficos tão bonitos como o que a gente vê agora. Entendo que é bem provável chegar no fim do ano [com o Ibovespa] entre 90 mil e 95 mil pontos”, diz um analista técnico da Clear Corretora, cujo interesse é vender otimismo e ganhar corretagem.

Conforme o analista, outro sinal de que as ações no Brasil passam por uma fase mais estável e otimista do que no exterior vem dos gráficos de setores e empresas com grande peso no principal índice da bolsa do país. Bancos, Vale, Ambev e Petrobras têm gráficos muito bons, com indicação de subida até para posições mais longas no fim do ano. É o País das Maravilhas para os especuladores! E o povo, oh!

Um indício de reversão do Ibovespa só ocorreria se o índice caísse abaixo de 70.824 pontos, ou seja, um tombo de mais de 16% em relação ao fechamento da do dia 16/02/18 (84.525). Outro “técnico” diz outra coisa: o índice da bolsa brasileira poderia perder a tendência de alta ao fechar abaixo de 73 mil pontos.

Mas o índice, afirma o vendedor de ilusões, “tem condições de fechar o ano na casa dos 100 mil pontos”. Enquanto outro “técnico” diz que, “na inclinação em que está, o Ibovespa pode alcançar de 87 mil a 90 mil pontos já no fim de março”. Ambos dão meros chutes sem fundamentos científicos, baseados apenas na extrapolação de tendência dos preços sem nenhum evento aleatório ou inesperado para a contrariar…

Adriana Cotias (Valor, 19/02/18), no mesmo dia, informa que a calmaria aparente que dominou as bolsas mundiais após as correções lideradas por Wall Street no começo do mês está longe de livrar o investidor de novas turbulências. Apesar de o Ibovespa ter ficado mais próximo das suas máximas recentes ao superar os 84 mil pontos na semana passada, pela análise dos sinaistécnica habitualmente usada por diversas áreas de engenharia para filtrar imagens e pela sismologia na análise e alertas de terremotos –, o mercado de ações local está às vésperas de um colapso.

É o que o pesquisador e professor do Insper Marco Antônio Leonel Caetano enxerga no índice de “crash” – o Índice de Mudanças Abruptas (IMA). Criado em conjunto com Takashi Yoneyama, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), o indicador é o primeiro no Brasil a analisar o grau de estresse das bolsas em períodos que antecedem crises utilizando a técnica das “wavelets”, ou ondaletas, como se convencionou em português. É usado por gestores de recursos e corretoras como apoio a decisões de investimentos.

Conforme explica, a técnica consiste em avaliar graficamente ondas pequenas, adaptadas aos sinais reais, para medir a frequência com que as oscilações mudam com o passar do tempo. Quanto mais as ondas vão ficando próximas umas das outras, é sinal de que a tendência vai mudar. Se a bolsa tiver subindo, muda para queda. Se tiver caindo, muda para alta.

O índice de crash, que varia entre zero e 1, mede o risco de reversão. Quanto mais próximo de 1, maior a chance de queda brusca da bolsa. Na medição de longo prazo mais recente, estava em 0,93. Isso mostra que o mercado está superarriscado. A despeito do forte rali que atingiu as bolsas do mundo em janeiro, incluindo a B3, ele observa que desde o ano passado o IMA aponta para a possibilidade de um forte “crash”.

Os pesquisadores brasileiros se basearam no trabalho do geofísico francês Didier Sornette, do Departamento de Ciências Terrestres e Espaciais da Universidade da Califórnia, que em 2005 já previa o estouro da bolha imobiliária nos EUA e os efeitos adversos sobre o mercado acionário. Foi Sornette quem adaptou o modelo de terremotos para as bolsas, incorporando alguns ciclos periódicos.

Autor dos livros “Mudanças Abruptas no Mercado Financeiro” (na lista dos 10 melhores do prêmio Jabuti em 2014) e “Análise de Risco em Aplicações Financeiras”, Caetano expôs num artigo em 1o de fevereiro que nenhum terremoto forte acontece sem aviso. “Os tremores de terra vão começando bem devagar, bem lentamente, por volta de 2 a 4 na escala Richter e muitas vezes tem-se uma enorme pausa com pequenos tremores de 2 pontos. E então, de repente, um tremor de 7 ou 8 pontos acontece”.

No mercado financeiro, ocorre o mesmo fenômeno, diz. As bolsas vão lentamente ganhando energia e acumulando tensão com notícias e aportes monumentais de dinheiro.

 

Ao verificar que o índice de crash brasileiro ficou próximo do modelo de Sornette (chamado de log-periódico) e ajustar os parâmetros para o conjunto de dados do Ibovespa, Caetano chegou a um prazo de 183 dias úteis, a partir de 1o de fevereiro, para a bolsa engatilhar um período de sérias e perigosas turbulências. O estudo aponta para 19 de outubro, que coincide com o período eleitoral no Brasil.

Vale lembra que quando Caetano fez tal exercício, o Ibovespa chegou a bater a máxima de 86.028 pontos no dia 1o. e entre as correntes tradicionais do mercado, fundamentalista ou técnica, ninguém parecia suspeitar o que viria logo depois, com o principal termômetro de ações locais caindo à mínima de 79.690 pontos em 9 de fevereiro, arrastado pelas desvalorizações de Wall Street e discussões sobre os rumos da política monetária americana.

O modelo simulado numericamente apontava que a primeira baixa no Ibovespa diário seria da ordem de 10%. Então começaria uma nova fase de alta expressiva, que, entre pequenas quedas e valorizações, chegaria a uma alta de 22%. Por fim viria um tombo mais acentuado, perto de 15%.

Para além das abstrações matemáticas, é no mundo real que o pesquisador do Insper encontra argumentos para as potenciais correções nos mercados de ações. No exterior, ele cita que muitos investidores se alavancaram a tal ponto durante o ciclo de alta que, na hora do ajuste, não conseguem parar em pé. Cita os casos de dois fundos, um do Nomura e outro do Credit Suisse, que decidiram liquidar aplicações atreladas a índice (exchange traded note, ou ETN) após perdas de mais de 90%.

No Brasil, apesar do corte significativo da Selic, de 14,25% para 6,75% ao ano, ele considera que estruturalmente o país ainda não mudou. A taxa de desemprego segue elevada e o crédito não chega às mãos de quem precisa.

Não é curioso como os “técnicos” dizem coisas opostas sobre o mesmo objeto de análise?

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