Candidatos a-narcocapitalistas no Rio: Estado Mínimo e Intervenção Militar

O destaque dado no caderno Eu&Fim-de-Semana por Malu Delgado (Valor, 16/02/18) à formação doutrinária dos jovens conservadores de direita na pós-graduação [extensão?] em Escola Austríaca do Instituto Mises, em São Paulo, presta um serviço de utilidade pública: a luz do sol é o melhor desinfetante.

Quem ler a quantidade de asneiras que, durante um fim de semana, um grupo de “novos liberais” brasileiros fala, por certo, não se tornará outro crente ou fiel seguidor da doutrina direitista de Von Mises. A maioria se intitula “ancap“, sigla de anarcocapitalista, menos por acharem que “ser anarquista é ser contra o Estado”, mais por defenderem O Livre Mercado também para os “narcos“.  São a favor da liberalização de drogas, nesse caso, sem nenhuma preocupação de gradualismo: de leves a pesadas, O Livre Mercado cuidará do extermínio dos drogados!

Eles têm dificuldade em definir o que é dinheiro? Mas, apesar disso, defendem a criptomoeda fora do controle dos Bancos Centrais dos Estados nacionais? Bitcoin é um tema que move paixões dos alunos candidatos a-narcocapitalistasNão à toa, o bitcoin é uma moeda usada na rota do dinheiro sujo do tráfego internacional de drogas sob domínio de cartéis dos narcos.

Um aluno deixa escapar em voz alta sua inquietação por não ter compreendido bem a diferença entre moeda e dinheiro. Em vez de lhe explicarem que “todo dinheiro é moeda, mas nem todas as moedas são dinheiro por não cumprirem suas três funções básicas: reserva de valor, unidade de conta e meio de pagamento”, eles optam pela piadinha que só tem graça para direitistas obtusos. “A gente sabe, você fez Unicamp. Tá tudo certo. Tinha que ser o sindicalista”, dispara um colega. Quando li isso, pensei: “confirma que nós da Unicamp estamos no caminho certo, dando um ensino plural, já que incomoda tanto à direita intolerante com o pluralismo”

O dito cujo egresso da Unicamp, “uma universidade com viés muito de esquerda”, é um físico de 34 anos. Por esse pecado — ninguém é perfeito –, é o “Sindicalista”.

A Universidade Estadual de Campinas é vista pelos anarcos como no prólogo de todas as edições dos livros de Asterix, o gaulês: “Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos…”

Eu resisto com meus amigos em uma pequena aldeia paulista situada em um distrito de Campinas, Barão Geraldo, a 100 km de O Mercado em São Paulo. Para resistir ao pleno domínio da casta dos mercadores, a casta dos sábios conta com a ajuda de uma poção mágica – muito estudo de todas as correntes de pensamento econômico, político e social – que lhe dá uma força sobre-humana, preparada pelo druida Pluralix. A exceção é o Marxix, que caiu dentro de um caldeirão cheio da poção marxista, quando ainda era um bebê, e daí adquiriu permanentemente a superforça que espanta direitistas. 🙂

Foi esse curso do Instituto von Mises que atraiu em 2016, em sua primeira turma, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, principal cabo eleitoral do pai, Jair Bolsonaro, pré- candidato à Presidência pelo PSL.

Para a turma atual, a segunda, que tem em seus quadros o “Sindicalista”, quem está bem na fita dos liberais “ancap” é um fulano do Partido Novo [o que é isso?!]. Mesmo assim, há várias restrições ao pré-candidato e muitos jovens reduziram o entusiasmo pela eventual candidatura depois que ele declarou ser contrário à liberalização das drogas.

O mundo da política e as eleições de 2018 invadem as discussões dos estudantes da Escola Austríaca concebida pelo filósofo Ludwig von Mises (1881-1973), ainda que o foco da pós-graduação multidisciplinar não seja esse. Aqueles que se interessam pelo liberalismo e pelo libertarianismo se encaixam em um segmento da direita brasileira em que há a antipatia generalizada por políticas da esquerda, em especial pelos governos do PT.

Eles não se preocupam com a adoção de políticas sociais ativas para enfrentar a miséria brasileira. Só enxergam no estatismo e na lógica intervencionista da esquerda brasileira atitudes irracionais. Não dizem, porém, como o Livre Mercado superará o atraso econômico do País.

Surge na aula outro comentário, em meio a longas risadas: “Se for a Caixa Econômica Federal, é só usar o saldo do FGTS que resolve”. Os alunos deveriam ser enviados para um estágio no Rio de Janeiro, fazendo um estudo de caso in loco, ou seja, em uma favela com Estado mínimo e intervenção militar. Os idiotas, que não têm consciência do mal que fazem a si e aos outros, sentiriam então, na pele, a importância de política habitacional com FGTS para a urbanização das favelas.

Governos socialistas também são execrados e criticados sem piedade pela turma anticomunista com pensamento adequado à antiga Era da Guerra Fria. A birra com o socialismo, mais especificamente com Karl Marx (1818-1883), é fruto de um debate ideológico que está escancarado no site do instituto, onde se pode ler artigos de colaboradores com os títulos “Acreditar em Ideias Socialistas Pode Tornar Você uma Pessoa Infeliz”, “Por que o Socialismo Sempre Irá Fracassar”, “Por que o Nazismo Era Socialismo e por que o Socialismo É Totalitário”, “Karl Marx e a Diferença entre Comunismo e Socialismo – A Teoria Comunista É Ainda Mais Bizarra que a Socialista”.

É sabido que tanto interessou à direita da casta dos guerreiros, na época do regime militar ditatorial (1964-1984), quanto hoje interessa aos seus descendentes ignorantes em relação ao que ela fez, seja em temas econômicos, seja em termos de direitos humanos, a reativação desse clima anticomunista demodê. Entre seus valores morais se destaca a vingança contra os esquerdistas que os combateram para redemocratizar o País.

O físico egresso da Unicamp afirma (sem pudor pelo oportunismo tipo “Maria vai com as outras”): “Enquanto eu era da Unicamp, eu era de esquerda”. Sem justificar com conhecimento profundo das ideologias, simplesmente, diz que não gosta da divisão esquerda/direita. “Me considero anarcocapitalista, palavra que soa muito forte, mas que vai além de ser liberal.” Em vez de direita/esquerda, ele prefere uma divisão autoritários/liberais. “Nós, libertários, temos algumas pautas que batem com a esquerda, como a liberação de drogas, o respeito a minorias e aos direitos individuais, sem nenhuma forma de discriminação.”

O ex-simpatizante da esquerda tem hoje horror ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se houver segundo turno entre Lula e Bolsonaro, seu voto iria para o ex-militar. Por que? Razão pessoal? Razão moralista? Razão social? Razão econômica? Mas a economia brasileira hoje está muito pior, ao contrário do seu desenvolvimento entre 2003 e 2010!

“Estamos num momento tão difícil no Brasil que a gente não pode ter mais um governo de esquerda. Se tivermos, a nossa economia vai ruir. Isso é um consenso.” Entre seus “sábios” coleguinhas?

Veja a ignorância comparativa. Bastava ele comparar todos os indicadores econômicos e sociais para constatar que, em todos, a Era Social-Desenvolvimentista foi muito superior em bem-estar social e econômico do que as duas Eras do Neoliberalismo. Tanto é assim que Lula tem 37% da preferência dos eleitores antes do debate eleitoral começar! Por que, hein, ele preserva essa boa memória popular?

O direitista diz que Bolsonaro não lhe agrada, mas se for a única maneira de evitar um “governo canhoto”, ele encara. “Acho Bolsonaro arrogante, preconceituoso. E também acredito que ele é muito fraco economicamente. Só acho que está mais aberto a discussões. Economicamente, seria um governo mais liberal.” Basta esse (falso) discurso liberalizante para a justificativa “me engana que eu gosto”…

Mas ele enfatiza que não tem político nem partido de estimação. Reducionistas, verdadeiramente, o anticomunismo é a ideologia que, de fato, mais importa para os discípulos de von Mises. Paradoxalmente, von Mises atuou como conselheiro econômico do governo austrofascista de Engelbert Dollfus. Mas, como judeu, Mises passou a temer pela sua integridade física diante do avanço Nazi na Europa, tendo fugido da Áustria em 1934.

O movimento liberal recebe financiamento internacional, inclusive há conexão entre os irmãos Koch, do norte-americano Charles Koch Institute, que apoiam o Tea Party republicano, e os “Estudantes pela Liberdade” e o “Movimento Brasil Livre”, um dos principais promotores do golpe contra a Presidenta eleita. É possível que se estenda a outras entidades, como sugere, por exemplo, o currículo de Fabio Ostermann, cofundador dos “Estudantes pela Liberdade”, diretor do libertário (sic) Instituto Ordem Livre, “mentor intelectual do Movimento Brasil Livre”, segundo a revista Veja, e com cargos em organizações como o Instituto Liberal Von Mises e o Instituto Liberdade.

A reportagem segue a patacoada de jovens ex-esquerdistas que se confessam arrependidos após receberem “a luz à direita”, i.é, o credo oposto ao migrarem para a atuação política golpista. “Hoje eu sou anarcocapitalista, sou contra o Estado per si, apesar de não ser revolucionário e de não achar que ele deve acabar de uma hora para a outra. Sou gradualista.” O ingênuo estudante almeja o oportunismo de encarar uma disputa eleitoral em breve, como candidato a-narcocapitalista para deputado federal ou estadual.

Filiado ao Partido Novo, outro diz que escolhas dos indivíduos, sejam quais forem, devem sempre ser respeitadas. Inclusive aquelas escolhas individuais de usar a liberdade de expressão pregando uma ideologia que acabará com essa?! Basta ver o boicote da mídia impressa, televisa e radiofônica às ideias da esquerda. Dá palanque para minúsculos grupos de direita. Não apresenta um debate plural para esclarecer a opinião pública a respeito das diferenças entre a esquerda e a direita.

Também esse estudante tem um plano de carreira de se tornar político profissional: quer ser candidato a-narcotráfico para deputado federal, mas só vai encarar a disputa em 2022. Admite que precisa de mais tempo de preparação.

“Não quero correr o risco de gaguejar na frente daquele bando de velhos no quarto mandato, um bando de estatistas mamando. Quero estar muito bem preparado. Preciso conhecer a política velha antes de estar lá dentro.” Para isso, frequenta a Assembleia Legislativa de São Paulo e a Câmara Municipal como parte de sua rotina de imersão política. “Às vezes sou obrigado a aturar a imagem de um [Eduardo] Suplicy da vida na minha frente.” É incrível o desrespeito pela biografia política do ex-senador paulista por parte de um Zé Ninguém com nenhuma contribuição à democracia brasileira, muito antes pelo contrário...

Ingenuamente, os jovens doutrinados pela direita nutrem a expectativa de renovação de 70% dos quadros do Congresso, com crescimento de candidatos com visão liberal. “O povo está cada dia mais cansado de Estado. Há uma velha política adotando o discurso liberal só porque está na moda.” Ora, façam um estudo de caso com pesquisa de opinião em uma favela sob o domínio do crime organizado para ver se a maioria não preferiria políticas públicas democráticas — e não intervenção policial-militar — para sua transformação em um bairro popular.

Os mais radicais da turma defendem, por exemplo, o porte de armas a la republicano norte-americano. “Liberação total das armas sem registro para todo mundo. Quanto mais o cidadão de bem estiver armado, menos violência tem.” São burros, né? Sequer comentam o que fazer se aqui ocorressem os seguidos massacres em escolas, como nos EUA, por adolescentes armados que, em crise de identidade, buscam a autoafirmação no credo neonazista da “Supremacia Branca”.

Sem grandes expectativas para o quadro eleitoral de 2018, os estudantes direitistas querem apenas que as ideias liberais ganhem espaço no Brasil. “E estão ganhando.” Um chega a dizer que depois de entrar para o ramo de Finanças que começou a se interessar por Economia e Política. Por recomendação de seu chefe, passou a ler textos e artigos dos jornalistas Ricardo Boechat, Reinaldo Azevedo e Leandro Narloch. “Eu queria entender, até para debater com as pessoas, o que era capitalismo, o que era socialismo, o que era inflação, o que foi o Plano Real.”

Tivesse ele estudado em um centro de excelência, como a Unicamp, e já teria lido, debatido, e entendido tudo isso. Leria os originais e não reles divulgadores de direita. Lá, na pós-graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises, o que tem é tipo estudante graduada em relações internacionais pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec).

Kux [epa!] é um dos críticos mais ácidos à família Bolsonaro. Diz que o filho do deputado parece não ter aprendido nada no instituto. “O Eduardo Bolsonaro fala muito sobre o governo tomar papel ativo e de liderança no desenvolvimento econômico. É o contrário do que a Escola Austríaca prega”, diz. “Sei que o Jair Bolsonaro fala em protecionismo, nacionalismo, tópicos que a Escola Austríaca não concorda. Economicamente, a família Bolsonaro está muito distante de uma política liberal. Com relação às liberdades individuais, essa distância é ainda maior.”

“Somos uma turma que adora falar de Economia e Política. Eu diria que a maioria tem uma visão um pouco mais à direita“, diz uma estudante. A direita, porém, não pode ser encarada como um espectro homogêneo, afirma a estudante. “Não temos ninguém estritamente esquerdista fazendo a pós.” Há muitas posições divergentes no grupo, mas a convivência é tolerante, segundo a aluna, que foi à aula com uma camiseta estampada com um X no rosto do revolucionário Che Guevara (1928-1967).

“O que seria a melhor opção que eu enxergo hoje: um Estado que não atrapalha a vida das pessoas, ou até mesmo a não existência do Estado. Mas não vamos conseguir acabar com o Estado de um dia para o outro. Então qual é a segunda melhor opção? O Estado mínimo.”

Se pudesse, a jovem gostaria de “apertar o botão vermelho e acabar com o Estado de uma vez”. “Vermelho não!”, grita uma amiga da turma. Se fosse conselheira de presidente da República, a estudante começaria “com a privatização de várias estatais”, sugeriria cortar as cadeiras do Congresso “pela metade” e também uma drástica revisão nas políticas do BNDES. Mexer no Bolsa Família não estaria entre suas prioridades, pelo baixo impacto fiscal. .

“Não são apenas adeptos da direita que se interessam pela Escola Austríaca”, afirma o fundador-presidente do Instituto Mises e ex-executivo do Banco Garantia. Porém, entre os alunos, há antipatia generalizada por políticas da esquerda, em especial pelo PT, como o estatismo e o intervencionismo.

Sobre a participação de Eduardo Bolsonaro na primeira turma e as consequências para a imagem do Instituto, o presidente do Mises reage com naturalidade. “Rejeitar aluno não faz parte da minha religião. Vejo com bons olhos que gente que não tenha visões que coincidam com a Escola Austríaca queiram estudar, principalmente um deputado federal. São todos parlamentares muito bem-vindos, do PSOL, do PT.” Ah, é? Imagina doutrinar os quadros adversários?!

Para ele, há muita confusão de conceitos sobre a direita e sobre a diferença entre conservadores e libertários. Há conservadores de visão britânica [chic] e os conservadores à moda brasileira [disgusting]. Ele, por exemplo, conta que quando se assume como libertário (ao estilo britânico), defensor do casamento gay, da descriminalização das drogas e da ideia de que nem sempre propriedade intelectual é compatível com propriedade privada, acaba confundindo quem é de direita.

Contra todas as evidências apresentadas na reportagem, o diretor diz: “A pessoa que vem para o curso tem essa visão, isso não tem nada a ver com ‘eu quero ser contra essa esquerda que está aí’. Não é nada disso.”

Outro docente também rejeita vinculações simplistas entre direita e liberalismo. “Vejo muitas lacunas e falhas tanto em gente de esquerda quanto em gente que se diz de direita. Eu não me considero nem de direita, nem de esquerda. Como estão hoje concebidos, nenhum dos dois lados responde aos problemas que temos hoje na sociedade.”

Ele pode não se considerar de direita. Mas, ora, quem o escuta ou o lê, sem dúvida, o classifica como de direita! Diga com quem andas que eu direi quem és

A maioria dos estudantes, observa um docente, pode até politicamente não se declarar liberal ou de direita, mas são pessoas simpáticas ou adeptas daquele liberalismo brasileiro que tem vergonha ou não acha de bom tom um membro da elite econômica esnobe se assumir como pertencente à pobre direita troglodita. Alerta, para preservar sua elegante auto imagem: “A direita brasileira não é uma coisa só. Há grupos bastante distintos dentro deste grande círculo“.

Faltou justamente isso: medição deste “grande círculo”. Qual é o tamanho da direita brasileira? Quem sabe? Ela mesmo não se assume por causa do seu passado vergonhoso de apoio ao regime ditatorial torturador — e censor de ideias plurais.

Leia mais:

Pensamento Ultraliberal da Escola Austríaca: Capitalismo de Livre Mercado

Neoliberalismo Nu ou Hayek Nu(a)

Hayek: Guru dos Conservadores

2 thoughts on “Candidatos a-narcocapitalistas no Rio: Estado Mínimo e Intervenção Militar

  1. Agora falando sério. O Students for Liberty treinou, em 2016, 1.012 agentes brasileiros (“lideranças”, segundo eles), ao custo de mais de 630 mil dólares. No resto do mundo, treinou 904 agentes. Mais agitadores no Brasil do que em todo o resto do mundo.

    Os dados são do próprio “Instituto” nos EUA, porque o braço brasileiro do SFL não presta contas. E pasmem: as doações à ONG são dedutíveis do imposto de renda. Ou seja: é dinheiro público dos EUA patrocinando operações de desestabilização de países estrangeiros. Para isso, o Estado é bom…

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