Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história” (tradução Ana Maria Mandim. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016), acha que vale a pena reafirmar, à luz daqueles que hoje em dia – tais como os jovens crentes do Instituto Mises – continuam a descrever Keynes e os keynesianos como socialistas velados, que, enquanto Hayek foi socialdemocrata por algum tempo, Keynes nunca foi socialista de espécie alguma, nem flertou com o socialismo, sequer com sua anêmica versão britânica, o fabianismo.

Keynes era um membro muito antigo dos liberais que estavam envolvidos em uma batalha pela sobrevivência com os socialdemocratas do Trabalhismo. Acreditava em um “meio caminho” entre capitalismo e socialismo, entre o conservadorismo e a socialdemocracia e entre o que acreditava serem dogmatismos primitivos de ambos os lados. Inevitavelmente, talvez, foi repudiado por um dos lados como apologista do capitalismo que ressuscitou a prosperidade de um sistema falido e, pelo outro lado, como socialista rasteiro que, por trás da fala macia, silenciosamente fazia entrar o marxismo pela porta dos fundos.

É um dos aspectos menos edificantes da luta de ideias entre conservadores e liberais evocada pela controvérsia entre Keynes e Hayek que termos políticos com frequência tenham sido arbitrariamente mal-usados para confundir a discussão. Para alguns, a linha que separa o capitalismo do socialismo começa com governo de qualquer espécie; para outros, começa com qualquer ato social, do tipo das amáveis ações do Bom Samaritano ou até da democracia representativa.

Keynes saiu do roteiro em sua palestra em Sidney Ball para afirmar que, “de minha parte, acho que o capitalismo, sabiamente administrado, pode, provavelmente, tornar-se mais eficiente para atingir fins econômicos que qualquer sistema alternativo já existente”, embora admitisse que, “em si mesmo [o capitalismo] é, de muitas maneiras, extremamente censurável.” Ou, como escreveu para Sir Charles Addis, um diretor do Banco da Inglaterra: “Busco melhorar o maquinário da sociedade, não subvertê-lo.

Na palestra, Keynes, por suas ideias, matara o dragão do laissez-faire, mas ainda não havia encontrado uma estrutura teórica para pôr em seu lugar. Depois de uma colorida diatribe, suas conclusões foram pouco mais que pensar em voz alta. Suas ideias alternativas não eram nem revolucionárias, nem alarmantes. Fez a sugestão tentativa de que mais poderia ser feito por agências não estatais, que poderiam proporcionar resultados mais eficientes e equitativos, como as universidades e o Banco da Inglaterra.

Para membros da Escola Austríaca que leram o discurso na Sidney Ball, Keynes havia maculado seu princípio-guia, de que o livre mercado era bom e que todas as tentativas para subjugá-lo eram más ou fúteis, ou ambas. Snif, snif…

Era opinião de Keynes que, na base do ciclo econômico, existia uma escassez crônica de demanda que causava a redução da atividade econômica, que resultava em desemprego desnecessário. Ele argumentava que, em caso de ausência da empresa privada que assegurasse a demanda adequada, os governos deveriam proporcionar demanda eles próprios por meio de obras públicas. (Ele ainda teria de conceber uma justificativa intelectual pela qual deveriam fazer isso.)

Mises, no entanto, expandindo teorias postuladas pelo economista sueco Knut Wicksell, abordava a intervenção no ciclo de negócios de uma maneira diferente. Ele afirmava que, quando um banco central reduzisse a taxa de juros, interferiria no equilíbrio natural entre a poupança dos indivíduos e os investimentos em bens de capital (maquinaria usada para fazer produtos). Mais bens de capital eram comprados com dinheiro mais barato do que o que poderia ser sustentado pelo nível genuíno de poupança, o que levava ao desequilíbrio.

Com o tempo, o banco central ficava com um dilema:

  1. ou continuar a reduzir as taxas de juros para proporcionar ainda mais investimento, o que novamente injetaria demasiado dinheiro em um sistema em busca de muitos poucos bens, provocando inflação;
  2. ou aumentar as taxas de juros, o que levava o investimento a diminuir e depois interromper-se, ocasionando uma recessão pior do que aquela que o Banco Central estava tentando evitar originalmente.

Hayek levou a análise de Mises um passo adiante ao examinar o que acontece exatamente quando crédito barato é usado para investir em bens de capital. Ele acreditava que a baixa deliberada das taxas de juros e a provisão de dinheiro para investimento em desequilíbrio com a poupança estendiam anormalmente o “período de produção” (a extensão de tempo necessária para produzir os bens). O período de produção era tão longo, de fato, que uma boa parte do desenvolvimento de bens de capital, em particular “bens de ordem superior” (maquinaria para fazer bens que estão mais distantes dos bens que o consumidor compra), teriam de ser abandonados porque não havia demanda (desejo dos consumidores de comprá-los) no tempo em que eram completados.

O nó da questão, de acordo com Hayek, era que, ao reduzir as taxas de juros, o Banco Central interferia com a relação entre poupança e investimento. Ele e a Escola Austríaca acreditavam que todos os mercados ao longo do tempo, incluindo o mercado monetário, chegariam a um estado de equilíbrio em que a oferta de bens pelos fabricantes e a demanda iriam se igualar. Mantinham a fé (cega) na Lei de Say.

Hayek sugeria que o mecanismo de preço refletia a tendência para o equilíbrio [ordem espontânea segundo a Fábula de Abelhas de Bernard Mandeville, inspiradora de Adam Smith, quando a Lei da Gravidade de Isaac Newton dominava os espíritos antropocêntricos iluministas na Inglaterra do século XVIII], e qualquer tentativa de alterar artificialmente os preços teria consequências terríveis. Em sua opinião, mexer indevidamente com os preços era meramente desorganizar os sintomas do impulso em direção ao equilíbrio. Reduzir artificialmente as taxas de juros, ou o preço do crédito, meramente levavam a valorizar a inflação, enquanto elevar as taxas de juros artificialmente significava estimular uma contração da atividade econômica (recessão).

Por trás desses pensamentos estavam os postulados de Wicksell sobre a diferença entre:

  1. a “taxa de juros natural”, onde a poupança individual iguala o investimento, e
  2. a “taxa de juros de mercado”, ou o preço do crédito fixado pelos bancos.

Para os membros da Escola Austríaca, o ciclo de negócios deveria ser posto em movimento pela diferença entre a taxa de juros natural e a taxa de mercado. Era impossível para os bancos centrais determinar exatamente qual a taxa de juros natural, então eles, inevitavelmente, fixavam a taxa de juros de mercado em um nível desapropriado, abrindo caminho para os booms e colapsos do ciclo de negócios.

Hayek acreditava que, ao se manter fiel à taxa de juros natural:

  1. a moeda em uma economia se tornaria “neutra”, e
  2. as flutuações do ciclo de negócios nessas circunstâncias seriam causadas por mudanças em outros fatores, como o desenvolvimento de novos produtos e as novas descobertas.

As linhas de batalha entre Keynes e Hayek estavam assim traçadas.

  • Keynes acreditava que era dever do governo fazer o que pudesse para tornar a vida mais fácil, particularmente para os desempregados.
  • Hayek acreditava ser inútil os governos interferirem com forças que eram, a seu modo, tão imutáveis quanto as forças naturais.
  • Keynes rejeitava a adesão ao livre mercado como uma aplicação inapropriada do darwinismo às atividades econômicas e argumentava que um entendimento melhor do funcionamento de uma economia permitiria aos governos responsáveis tomar medidas que poderiam eliminar os piores efeitos da base do ciclo de negócios.
  • Hayek, finalmente, chegou à conclusão de que o conhecimento sobre como exatamente uma economia funcionava era difícil, senão impossível, de descobrir, e que as tentativas de formar a política econômica com base em tal evidência era, como um barbeiro praticando cirurgia primitiva, fazer mais mal que bem.
  • Keynes acreditava que o homem era senhor de seu destino.
  • Hayek, com alguma relutância, acreditava ser o homem destinado a viver pelas leis naturais da economia como era obrigado a viver segundo todas as outras leis naturais.

Assim, os dois homens vieram a representar dois pontos de vista alternativos de vida e governo, com:

  • Keynes adotando uma visão otimista de que a vida não precisava ser tão dura se apenas os que estavam em posições de poder tomassem as decisões certas, e
  • Hayek subscrevendo a noção pessimista de que:
  1. havia limites estreitos colocados para o esforço humano e
  2. as tentativas de alterar as leis da natureza, por mais bem-intencionadas que fossem, estavam fadadas a levar, no melhor dos casos, a consequências não desejadas.

Enquanto o mundo se dirigia ao memorável ano de 1929, os dois homens estavam bem adiantados rumo ao aguçamento de suas opiniões divergentes.

Até então, os saltos de imaginação de Keynes haviam esbarrado grandemente com a incompreensão, mas com pouca oposição articulada. Os que rejeitavam suas prescrições não constituíam desafio intelectual às suas ideias e, em lugar disso, se agarravam a certezas ortodoxas e se abrigavam atrás da inércia intelectual.

Hayek trabalhava amplamente com noções existentes, e suas contribuições para refinar a teoria do capital da Escola Austríaca eram pouco notadas fora de um pequeno círculo de Viena. Como na fábula moral de Esopo da Lebre e a Tartaruga, o energético Keynes partira a toda velocidade, deixando Hayek no ponto de partida.

O crash do mercado de ações de outubro de 1929 mudaria tudo. Quando o mundo foi lançado no tumulto financeiro, governantes e governados exigiram uma explicação para o que estava acontecendo e um caminho rápido para sair da confusão. Os hedonistas e frenéticos anos 1920 haviam se precipitado em uma depressão e caído de cabeça no que seria uma década de recessão. O mundo estava à beira da ruína, sem fim à vista para as aflições gêmeas do desemprego em massa e pobreza opressiva.

No novo e terrível clima de desesperança e desespero, Keynes, o otimista, estava apto para oferecer uma saída nova e clara do atoleiro, enquanto Hayek, o pessimista, deveria construir um argumento para justificar por que todas as tentativas de arrumar o sistema eram inúteis.

Keynes teve suas ideias amplamente bem recebidas ao oferecer um pouco de esperança em meio à tristeza. Hayek descobriria logo que suas sombrias avaliações, por mais acuradas que fossem, encontrariam poucos entusiastas, porque trouxera uma mensagem sóbria que desculpava a inação pouco atraente.

A revolução keynesiana estava a ponto de decolar no meio da incerteza e do horror da Idade dos Ditadores, e nenhum volume de pessimismo, por mais lógico, desanimaria o clamor dos políticos para encontrar um meio de sair do pântano econômico. Antes que muito tempo se passasse, as profundas diferenças intelectuais entre Keynes e Hayek se tornariam amplamente evidentes à medida que os dois homens viessem a se desafiar.

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