Origem do Conhecimento: Racionalismo

Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, diz que se chama de racionalismo (de ratio, razão) o ponto de vista epistemológico que enxerga no pensamento, na razão, a principal fonte do conhecimento humano.

Segundo o racionalismo, um conhecimento só merece realmente esse nome se for necessário e tiver validade universal. Se minha razão julga que deve ser assim, que não pode ser de outro modo e que, por isso, deve ser assim sempre e em toda parte, então (e só então), segundo o modo de ver do racionalismo, estamos lidando com um conhecimento autêntico.

Ocorre algo assim quando, por exemplo, eu expresso o juízo “o todo é maior do que a parte” ou “todos os corpos são extensos”. Em ambos os casos, percebo que deve ser assim e que a razão estaria se contradizendo se quisesse afirmar o contrário. E porque tem que ser assim é assim sempre e em toda parte. Esses juízos, portanto, possuem necessidade lógica e validade universal.

Esse juízo não está baseado, portanto, em uma experiência qualquer, mas no pensamento. Daí resulta que os juízos baseados no pensamento, provindos da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os outros, não.

Assim, prossegue o racionalista, todo conhecimento genuíno depende do pensamento. É o pensamento, portanto, a verdadeira fonte e fundamento do conhecimento humano.

É óbvio que um determinado tipo de conhecimento serviu de modelo à interpretação racionalista do conhecimento. E não é difícil dizer qual seja: é o conhecimento matemático. Ele é predominantemente dedutivo e conceitual.

Na geometria, por exemplo, todos os conhecimentos são derivados de conceitos superiores e axiomas. Nela, o pensamento impera com completa independência da experiência, na medida em que segue apenas suas próprias leis. Por isso, todos os juízos que formula distinguem-se pelas notas características da necessidade lógica e da validade universal.

Se todo o conhecimento humano for concebido e interpretado segundo esse tipo de conhecimento, teremos o racionalismo em sua forma mais imediata. Se considerarmos mais de perto a história do racionalismo, encontraremos aí uma explicação importante para sua origem. É da matemática, mostra-nos a história, que vêm quase todos os representantes do racionalismo.

Platão chama o mundo suprassensível de mundo das ideias. Esse mundo não é simplesmente uma ordem lógica, mas também uma ordem metafísica, um reino de entidades ideais.

Ele está em relação, primeiramente, com a realidade empírica. As ideias são os arquétipos das coisas da experiência. Essas coisas obtêm seu ser-assim, sua essência peculiar, por “participação” nas ideias.

Em segundo lugar, porém, o mundo das ideias está em relação também com a consciência cognitiva. Não apenas as coisas, como também os conceitos por intermédio dos quais nós as conhecemos, são derivados do mundo das ideias.

Mas como isso é possível? É a essa questão que a doutrina platônica da reminiscência vem responder. Ela afirma que todo conhecimento é rememoração. A alma viu as ideias num ser-aí pré-terreno e, agora, recorda-se delas por ocasião da experiência sensível.

Esta experiência sensível, portanto, em relação ao conhecimento espiritual, não tem significação fundamentadora, mas apenas estimuladora. A parte central desse racionalismo é a teoria da contemplação das ideias. Podemos chamar essa forma de racionalismo de racionalismo transcendente.

No século XIX, deparamos com uma última forma de racionalismo. As formas mencionadas antes fazem um amálgama de questionamentos lógicos e psicológicos. Segundo elas, tudo que tem validade independentemente da experiência deve também surgir independentemente da experiência.

Ao contrário delas, a forma de racionalismo do século XIX distingue nitidamente a questão sobre a origem psicológica da questão sobre a validade lógica e restringe-se rigorosamente a uma fundamentação desta última. Faz isso com a ajuda da ideia de “consciência em geral”.

Esta é diferente tanto da consciência concreta, individual, à qual o racionalismo moderno atribui as ideias inatas, quanto do sujeito absoluto, do qual o racionalismo antigo derivava os conteúdos do conhecimento. É algo puramente lógico, um Abstrato, e não significa nada senão a personificação dos mais altos pressupostos e princípios do conhecimento.

Também aqui, portanto, o pensamento é fonte exclusiva do conhecimento. O conteúdo completo do conhecimento é deduzido daqueles princípios superiores de maneira rigorosamente lógica.

Os conteúdos da experiência não fornecem nenhum indício que auxilie o sujeito pensante em sua atividade determinante. Pelo contrário, muito mais semelhantes ao x da igualdade matemática, eles são a grandeza a ser determinada. Pode-se caracterizar essa forma de racionalismo como um racionalismo estritamente lógico.

É mérito do racionalismo ter visto e sublinhado insistentemente a importância dos fatores racionais no conhecimento humano. No entanto, ele é unilateral ao fazer do pensamento a única ou a verdadeira fonte do conhecimento.

Isso está ligado a seu ideal de conhecimento, pelo qual todo conhecimento legítimo possui necessidade lógica e validade universal. Justamente esse ideal de conhecimento, no entanto, é unilateral, pois foi obtido de um tipo determinado de conhecimento, a saber, o matemático.

Outro defeito do racionalismo é reacender o espírito do dogmatismo. Ele acredita poder forçar a entrada no domínio metafísico pela via do pensamento puramente conceitual. Infere proposições materiais de princípios formais, deduz conhecimentos a partir de meros conceitos. Justamente esse espírito dogmático do racionalismo tem continuamente chamado à liça seu antípoda, o empirismo.

3 thoughts on “Origem do Conhecimento: Racionalismo

  1. Prezado Fernando,

    nossos pensamentos emergem do fluxo posicional da consciência e esta, por conseguinte, é o pilar de sustentação de nossa representatividade individual e existencial. O conhecimento só pode ser adquirido pelo pensamento que dá forma e sentido ao que é percebido ou não.

    A realidade na qual estamos inseridos é constituída por diversas camadas imperceptíveis ao pensamento não normalizado, isto é, aquele cujo indivíduo não obteve ou não tenha atingido o que chamamos de grau de liberdade de análise que pode ser representado por:

    F = ℜ = {x | x ∈ [-∞, + ∞]}

    A leitura dessa equação é fácil:

    F é uma função de nosso grau de liberdade de análise;
    ℜ é a realidade física objetivada;
    {x | x ∈ [-∞, + ∞]} é o conjunto de x tal que x pertence a um grau de liberdade que opera de forma infinita em ambas as direções.

    Para que o pensamento possa penetrar nas camadas da realidade, precisamos normaliza-lo com a aquisição do conhecimento o suficiente para essa tarefa produzir resultados válidos. A lógica e matemática são imprescindíveis neste caso.

    Mas, se ocorrer falta ou escassez de conhecimento, o pensamento não poderá ser normalizado e não importa quão inteligente seja o ser pensante, jamais conseguirá chegar no nível epistêmico (científico prático) de modo a desvendar as sutilezas de nossa posicionalidade.

    A falta de conhecimento produz:

    O fantasma no cérebro – a mente que não existe! M = {}
    O fantasma no corpo – o espírito que não existe! E = {}
    O fantasma no cosmos – o deus que não existe! D = {null}

    Isso coloca a consciência no limbo (lugar nenhum = sem posicionamento definido); neste caso, o cidadão acaba por se fechar numa redoma invisível e constrói fantasias (espelhos de si mesmo) com valores e ideais arbitrários por não estar em sintonia com outras camadas mais profundas da realidade, isso provoca as Gaps (lacunas) { } que surgirão pelo caminho.

    Para concluir esse pensamento:

    Quem procura o Além {} inexistente, resgata sempre um vazio {} existente. Abs. 😀

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