O Paradoxo da Poupança segundo Hayek

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que em 19281 quando Hayek foi convidado a um encontro do London and Cambridge Economic Service, fundado cinco anos antes por Keynes como empreendimento conjunto entre a London School of Economics (LSE) e a Universidade de Cambridge, no fim de uma das sessões, os dois se encontraram pela primeira vez.

Desde o início de sua espinhosa amizade, que durou até Keynes morrer, vinte anos depois, Hayek sentiu que Keynes, embora discordasse das opiniões da Escola Austríaca, estava interessado no que ele tinha a dizer. “No momento em que me opus com argumentos sérios, ele me levou a sério e, desde então, sempre me respeitou”, lembrou Hayek. “Sei de seu jeito de falar de mim em geral: ‘Claro que ele é louco, mas suas ideias também são muito interessantes.’”

The ‘Paradox’ of Saving” foi uma tentativa de Hayek argumentar que, na economia real, a poupança não está disponível para ser investida em nova produção a não ser que existam boas razões para acreditar que os novos produtos a serem disponibilizados pelo novo investimento serão prontamente vendidos. A circunstância em que as poupanças dos consumidores eram investidas na fabricação de bens não desejados, em lugar de ser usadas para adquirir bens, não se aplicava, portanto.

Hayek argumentava que a produção não era um processo único com um único preço e produto final. Era provável que houvesse economias de escala em qualquer produção estimulada por investimento novo que reduziria o preço dos bens, tornando-os disponíveis, então não haveria excesso.

Hayek lembrou que Böhm-Bawerk mostrara que os estágios da produção de capital eram muitos e de duração variada, o que Böhm-Bawerk chamou de produção “indireta”. Além das fábricas que produziam bens, havia fábricas fazendo elementos que eram montados para fazer bens e fábricas de máquinas-ferramenta que faziam máquinas que faziam bens, ou parte de bens. Em cada estágio do processo indireto, os investidores eram remunerados de tal forma que tinham dinheiro suficiente para pagar pelos bens que resultavam do estágio final de produção.

Hayek admitia que, “se administrado com extraordinária precaução e habilidade sobre-humana”, o plano de ter uma infusão de dinheiro no sistema para provocar demanda “poderia… talvez, ser executado para prevenir crises”. Entretanto, mais provavelmente “a longo prazo”, tal manipulação da economia “causaria graves distúrbios e desorganização do sistema econômico como um todo”. Concluiu que “toda a experiência de tais tentativas para aliviar o desemprego com obras de socorro e, assim por diante, é, à luz de sua análise, altamente questionável”.

Na época em que Hayek e Keynes se encontraram pela primeira vez e discutiram, “The ‘Paradox’ of Saving” só estava disponível em alemão, em pequena edição de um jornal de economia vienense, e Keynes pode ser desculpado por não a ter lido. Mas, mesmo que tivesse recebido uma tradução inglesa, não é certo que Keynes tenha captado muito da contra-argumentação de Hayek.

Rigorosamente pensado em prosa densa, com longos períodos em alemão contendo orações subordinadas uma atrás da outra, “The ‘Paradox’” não é leitura fácil. Contém numerosas equações e gráficos para demonstrar que os estágios de produção envolvidos na fabricação de um bem de consumo aumentam o custo final.

Hayek admite como corretas as lições de Böhm-Bawerk e admoesta os que não estão familiarizados com os principais trabalhos da Escola Austríaca, mesmo se, por confissão de Hayek, apenas uma, a primeira edição de Positive Theory of Capital, de Böhm-Bawerk, estivesse disponível em inglês, publicada em Londres quarenta anos antes.”

The ‘Paradox’” foi traduzido para o inglês e publicado na edição de maio de 1931 de Economica, o jornal da LSE que Lionel Robbins editava. Ao apresentar Hayek à Grã-Bretanha, Robbins instigou o grande debate entre Hayek e Keynes.

A pergunta que se coloca é: por que Robbins não convidou Mises para replicar Keynes? Mises era mais conhecido do que Hayek e já construíra uma formidável obra que desafiava muitas afirmações de Keynes. Dois fatores parecem ter influído na decisão de Robbins. Para ser eficiente no contra-ataque a Keynes, Robbins precisava de alguém que pudesse ser rapidamente entendido.

O inglês de Mises tinha falhas, e seu sotaque austríaco era tão pesado que ele tinha dificuldade para se fazer entender. “Ele, certamente, não estava à vontade em francês ou inglês”, explicou seu biógrafo Jörg Guido Hülsmann. “Quando dava palestras em línguas estrangeiras, a destreza o abandonava.” Ao contrário, a curta temporada de Hayek em Nova York o equipara com um inglês rudimentar “alado, embora de natureza falha.

A comparativa juventude de Hayek também era um fator contribuinte. Robbins era jovem e talvez se sentisse mais à vontade trabalhando com alguém de idade similar. Mises não apenas era mais velho, como também tinha velhos hábitos que não mudavam com facilidade. Tinha uma bem merecida reputação de taciturno e irritadiço.

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