Economia e Conhecimento por Hayek

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, avalia que, apesar de Robbins e Hayek poderem estar ansiosos para não parecer que estavam promovendo uma campanha contra The General Theory, fica claro por troca de cartas entre eles que havia, realmente, uma trama em progresso envolvendo Hayek, Robbins, Pigou, John Hicks e outros para esvaziar o ascendente Keynes.

Hayek, pela primeira vez, quando discutindo a importância dos preços, descobriu uma nova abordagem que não apenas o distanciou ainda mais de Keynes, como também o situou como pensador original em lugar de mero seguidor da Escola Austríaca.

A noção de uma economia chegar a um estado de equilíbrio é lugar comum na teoria econômica, sendo o melhor exemplo no debate entre Keynes e Hayek a suposição, defendida por economistas (neo)clássicos, de que, com o tempo, quando poupança e investimento se alinhassem perfeitamente, uma economia poderia estabilizar-se em um estado de pleno emprego.

Keynes rejeitou a existência de tal equilíbrio porque os fatos da economia real na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos durante os anos 1920 e 1930 estavam demonstravelmente em desacordo com a noção. Ela se estabilizou em estado de desemprego em massa e não de pleno emprego.

Hayek examinou novamente a noção de equilíbrio e, contrariamente à sua convicção anterior, convenceu-se de que raramente existe, se é que jamais acontece, um tempo em que uma economia entra em repouso. Para facilitar a compreensão de seu argumento em “Economics and Knowledge”, Hayek apresentou o exemplo de um grupo que trabalha em um projeto de construção. “Oleiros, encanadores e outros estarão todos produzindo materiais que, em cada caso, vão corresponder a certa quantidade de casas para a qual apenas essa quantidade do material em particular será requerida”, disse à sua audiência. “Similarmente, podemos conceber compradores potenciais acumulando poupanças que os capacitarão em certas datas a comprar certo número de casas… Podemos dizer que existe equilíbrio entre eles.”

Mas Hayek indicou rapidamente que não é necessário ser assim, “porque outras circunstâncias que não fazem parte de seu plano de ação podem suceder de forma diferente da que eles esperavam. Parte dos materiais pode ser destruída por um acidente, condições climáticas podem tornar a construção impossível, ou uma invenção pode alterar as proporções em que os diferentes fatores são requeridos. Isto é o que chamamos uma mudança nos dados externos, que perturba o equilíbrio que existia.

Mas, se os planos diferentes eram desde o início incompatíveis, é inevitável, aconteça o que acontecer, que os planos de alguém serão perturbados e terão de ser alterados e que, em consequência, todo o complexo de ações no período não mostrará aquelas características que se aplicam se todas as ações de cada indivíduo puderem ser entendidas como parte de um único plano individual”.

Se o equilíbrio era invariavelmente elusivo no mundo real, Hayek argumentava, então as suposições a priori que economistas teóricos fazem sobre a operação de uma economia, ou de um mercado, tendendo para um equilíbrio, sempre seriam insuficientes. Um equilíbrio pode ser previsto apenas se as intenções de cada um dos participantes forem conhecidas, e isso é impossível, tanto na teoria quanto na prática.

Isso pode ser um ponto de pouca importância, como ele realmente admitiu, mas, ao negar a existência de um equilíbrio previsível e ao negar a validade de suposições a priori sobre as muitas escolhas humanas corretas e não corretas que constituem até as decisões mais simples em um mercado, Hayek descobriu novas possibilidades. No processo, distanciou-se de Mises e seus colegas vienenses, bem como de outros deuses do universo da Escola Austríaca, para quem o equilíbrio era uma suposição central.

Embora Hayek, naquela época, não tivesse dado o salto final de lógica pelo qual se tornaria famoso, em “Economics and Knowledge” atingiu o limiar de uma importante descoberta. Suposições a priori sobre comportamento econômico de massa dependem de um conjunto ideal de condições em que cada indivíduo possui conhecimento perfeito tanto das condições existentes quanto das futuras, necessárias para tomar uma decisão em um mercado perfeito.

Mas, Hayek relembrou à sua audiência que o mercado perfeito não existe. Decisões econômicas na vida real são tomadas por indivíduos baseados em um conhecimento parcial das condições correntes, combinadas com seu melhor palpite sobre o que pode acontecer. Cada indivíduo chega a um conhecimento diferente (e, com frequência, contrário) sobre quais seriam aquelas condições. Alguns tomam as decisões corretas; outros, as erradas. Mas, juntas, as decisões se combinam para formar um quadro que se move continuamente no mercado em operação.

Desta linha de raciocínio Hayek chegou a duas conclusões importantes para uma nova direção em seu pensamento, ou seja, seu “momento eureka”:

  1. que é por meio dos preços que se reflete a sabedoria comum do que acontece em um mercado, e
  2. que, quando forças externas, como os governos, interferem na fixação de preços, nem mesmo um “ditador onisciente”, pode conhecer as mentes, desejos e esperanças de todos os indivíduos que compõem uma economia.

Os reguladores, inevitavelmente, frustrariam os desejos, limitariam a felicidade e restringiriam as liberdades dos indivíduos em cujo interesse alegavam agir. Hayek introduziu uma noção nova, a divisão do conhecimento, que acreditava ser tão importante quanto a noção econômica da divisão do trabalho.

Ele sustentava que era impossível entender ou medir todo o peso das incontáveis decisões econômicas individuais feitas pelo vasto número de indivíduos que compõem uma economia, mas que suas intenções se refletiam nos preços sempre flutuantes. O preço de um bem era um ponto em que, ao menos, dois indivíduos concordam.

Qualquer tentativa de alterar ou interferir com os preços seria basicamente fútil, porque o comportamento das pessoas, cuja vontade combinada contribui para a sua determinação, sempre irá contornar as suposições sobre as quais os preços são fixados. Justamente por isso, a inflação dos preços, se deliberada ou involuntariamente alimentada pela ação do governo, era um meio pelo qual aqueles que comandam a economia podiam desconsiderar as vontades daqueles obrigados a pagar o preço, rejeitando, dessa forma, a vontade de seus cidadãos.

The Pure Theory of Capital” de autoria de Hayek foi finalmente completado, em junho de 1940, e publicado no ano seguinte. Como colocou Milton Friedman, discípulo do pensamento hayekiano, “sou um enorme admirador de Hayek, mas não por sua economia. Acho que Prices and Production foi um livro muito falho. Acho que seu livro da Teoria do Capital é ilegível”.

Nele, Hayek reduz o ponto principal de The General Theory a uma opinião casuística que nega a duradoura preocupação dos economistas, confrontar o problema da escassez. “O que [Keynes] nos deu é realmente aquela economia da abundância pela qual clamam há tanto tempo”, escreveu. Ao negar a operação do livre mercado, Keynes redefiniu a escassez como um estado de coisas “artificial”, “criado pela determinação das pessoas de não vender seus serviços e produtos abaixo de certos preços arbitrariamente fixados”. Keynes ignorou os preços de mercado e sugeriu que eles entram em jogo apenas “em raros intervalos, quando o ‘pleno emprego’ é atingido e os diferentes bens começam sucessivamente a tornar-se escassos e a subir de preço”.

A crença de Hayek de que os preços são a chave para compreender o processo de produção — realmente a base para a compreensão do funcionamento de uma economia como um todo — e que os preços estão baseados na escassez dos bens, mais do que na relação entre o que Keynes descrevia como desequilíbrio entre poupança e investimento e o “custo real” de produção, o leva a desconsiderar sem explicação todo o conjunto de contra-argumentação de Keynes.

Na conclusão de seu Pure Theory, Hayek repreende Keynes por concentrar-se nos efeitos de curto prazo dos problemas e soluções econômicas “não apenas como um erro intelectual sério e perigoso, mas como uma traição do principal dever do economista e uma grave ameaça à nossa civilização”. Queixa-se que a explicação sistemática das forças que, no longo prazo, determinam preços e produção foi substituída pela “filosofia limitada do homem de negócios elevada à dignidade de ciência.”

“Há pouca base para acreditar que um sistema com a estrutura moderna e complexa de crédito vai trabalhar tranquilamente, sem algum controle deliberado do mecanismo monetário”, escreveu Hayek, “uma vez que o dinheiro, por sua própria natureza, constitui uma espécie de junta frouxa do aparato autoequilibrante do mecanismo de preços que é capaz de impedir seu funcionamento.”

Em uma advertência aos que, como Friedman, iriam recorrer à teoria monetária quantitativa como panaceia, Hayek sugeriu que havia limites estritos a essa forma de administrar a economia. “Não podemos, como alguns escritores parecem pensar, fazer mais ou menos o que nos agrada com o sistema econômico jogando com o instrumento monetário”.

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