Aversão à Perda

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, sugere: em uma escala de 1 a 10, pense em como se sente hoje. Acrescente a isso duas perguntas:

Primeira: o que aumentaria sua felicidade ao grau 10? Talvez um apartamento na Côte d’Azur, para passar as férias, com o qual você já sonha faz tempo? Um passo adiante na carreira?

Segunda: o que poderia acontecer para sua felicidade diminuir pelo menos na mesma medida? Paraplegia, Alzheimer, câncer, depressão, guerra, fome, tortura, ruína financeira, destruição da sua boa reputação, perda do seu melhor amigo, sequestro dos seus filhos, cegueira, morte?

Você acaba constatando que o “downside” é maior do que o “upside”, ou seja, que há mais coisa ruim do que coisa boa. Em nosso passado evolucionário, era o que acontecia de um jeito ainda mais marcante. Um erro tolo e morria-se. Todas as possibilidades levavam alguém a ser eliminado do “jogo da vida” — falta de atenção na caça, a expulsão do grupo, etc. Pessoas desatentas ou que corriam muitos riscos morriam antes de poder passar seus genes para a geração seguinte. Os que restavam, os cuidadosos, sobreviviam. Somos seus descendentes.

Não é de admirar o fato de darmos mais valor às perdas do que aos ganhos. Se você perde cem euros, a quantidade de felicidade que essa perda lhe custa é maior do que o ganho, caso eu lhe dê de presente cem euros. Está empiricamente comprovado que do ponto de vista emocional, uma perda pesa cerca do dobro de um ganho da mesma proporção. A ciência chama isso de aversão à perda.

Se quiser convencer alguém, não use em seu argumento um possível ganho, mas sim como evitar uma possível perda. O medo de perder alguma coisa motiva mais as pessoas do que o pensamento de ganhar alguma coisa de igual valor.

O mesmo jogo ocorre na bolsa de valores: investidores tendem a não reconhecer as perdas; ao contrário, preferem aguardar e torcer para que suas ações se recuperem. Uma perda não reconhecida ainda não é uma perda. Portanto, eles não vendem suas ações, mesmo quando a perspectiva de recuperação é pequena e a probabilidade de outro declínio na cotação é grande.

Um homem multimilionário fica extremamente preocupado porque perde uma nota de cem euros. Que desperdício de emoções! O valor de seus títulos oscila pelo menos cem euros a cada segundo…

Caso tenham uma responsabilidade individual e não tomem decisões em grupo, colaboradores tendem a temer os riscos. De seu posto de comando, isso faz sentido: por que arriscar alguma coisa que, na melhor das hipóteses, lhes proporcionaria um belo bônus, mas em caso contrário lhes custaria o cargo? Em quase todas as empresas e em quase todos os casos o risco da carreira supera o possível ganho. Portanto, se você, como diretor, se queixa que seus colaboradores não estão preparados para assumir riscos, agora você já sabe por que isso acontece. Por causa da aversão à perda.

Não há como mudar: o mal é mais forte do que o bem. Reagimos com maior sensibilidade a coisas negativas do que às positivas. Por exemplo, um comportamento ruim permanece por mais tempo em nossa memória do que outro bom. Há exceções, claro, que é quando se trata de nós mesmos.

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