Renda Fixa ou Renda Variável: Basta Proteção da Inflação com Juros Reais

Nathália Larghi (Valor, 07/03/18) informa que, após dois anos com mais saída de recursos do que entrada, a captação líquida da poupança voltou a crescer em 2017 e deve continuar em trajetória positiva neste ano, segundo especialistas, apesar dos saques dos primeiros dois meses. O resultado reflete a recuperação do rendimento médio real, com um pouco mais trabalhadores ocupados informalmente e inflação baixa (2,95%), permitiu que o poder aquisitivo fosse menos corroído e, se comparado com a média  do período anterior de taxas de inflação mais elevadas (10,7% em 2015 e 6,3% em 2016), chegasse ao fim do mês com “sobra” de recursos.

Segundo dados do Banco Central, a captação líquida da poupança – excluindo a caderneta rural – foi de R$ 14,7 bilhões no ano passado. Em 2015, a poupança havia fechado o ano com resgates de R$ 50,1 bilhões e, em 2016, de R$ 31,2 bilhões.

Nos primeiros dois meses de 2018, o fluxo de aplicação voltou a ficar negativo. O movimento é considerado comum em início de ano, quando chegam contas como IPVA, IPTU e matrículas escolares, dizem especialistas. Os volumes, no entanto, foram menores do que nos anos anteriores, o que indica uma tendência de recuperação. Em janeiro, por exemplo, os saques foram de R$ 4,9 bilhões, enquanto no mesmo mês de 2016 e 2017 somaram R$ 9,5 bilhões e R$ 8,7 bilhões, respectivamente.

Em fevereiro deste ano, também houve mais retiradas que depósitos, deixando o saldo de aplicações negativo em R$ 586,2 milhões. Comparado com 2017, houve aumento das saídas, mas os depósitos cresceram. Em relação a 2015 e 2016 – quando os resgates líquidos no mesmo mês alcançaram R$ 4,8 bilhões e R$ 6,7 bilhões, respectivamente – houve uma melhora considerável.

Segundo especialistas, a tendência deve se reverter nos próximos meses. O trabalhador recebe o 13o salário, aplica momentaneamente na poupança e, em janeiro e fevereiro, quando tem várias contas de início do ano, ele tira. Esses meses geralmente têm um saque maior.

A disponibilidade de “sobra de renda do trabalho”, que pode ser transferido para a conta corrente a qualquer momento, faz com que as pessoas optem por depositar na caderneta. Deixar o dinheiro na poupança, contudo, não tem propriamente caráter de investimento. Isso porque as quantias aplicadas geralmente são as sobras do fim do mês.

Estão disponíveis lá como reservas para emergências. Esse comportamento explica a retirada no começo do ano. Vai para a poupança mais pela comodidade, pelo fato de que está sobrando uma quantia. Quando o depositante precisar, ele tira o dinheiro dali.

Apesar da queda sazonal no começo do ano, a tendência para 2018 é que a poupança continue atraindo mais recursos à medida que a inflação se mantenha controlada e os indicadores econômicos apontem recuperação. Analistas destacam, contudo, que outros produtos financeiros devem ganhar destaque, já que os investidores mais experientes seguem em busca de aplicações com rentabilidade maior.

Analistas de mercado dizem besteira com o argumento: “outros investimentos tendem a crescer mais”. Ora, o percentual é mínimo incidente sobre pequenos valores nominais. Não justifica o risco ou o incômodo. Só pessoas com muito dinheiro para investir vão ver que a poupança rende pouco e vão buscar outros investimentos.

O aumento das aplicações na poupança cresceu devido ao cenário de juros baixos que, se for mantido, continuará atraindo aplicadores neste ano. Mesmo que a rentabilidade do investimento tenha caído depois que a taxa Selic foi cortada para menos de 8,5% — atualmente, está em 6,5% –, a poupança acaba se tornando mais vantajosa que determinados produtos, como é o caso dos fundos de investimento mais conservadores, com rentabilidade atrelada ao CDI.

Em um fundo de investimentos que dá 100% do CDI, o cliente paga taxa de administração e impostos. Então, dependendo de quanto isso custa, a poupança pode valer mais a pena. A

regra atual prevê que, com taxa Selic acima de 8,5%, a poupança renda 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), que é calculada pelo Banco Central. Nesse cálculo, o rendimento equivale a 6,17% mais a TR ao ano. Com o juro básico abaixo de 8,5%, que é o cenário atual, a rentabilidade anual da poupança é de 70% da Selic mais a TR, o que faz com que a poupança renda em torno de 4,5%.

Marcelo d’Agosto (Valor, 14/03/18) fez uma análise mais técnica da questão. A caderneta de poupança registrou captação de R$ 17 bilhões em 2017, equivalente a 2,6% do saldo final que foi contabilizado em 31 de dezembro de 2016. Somando os rendimentos creditados no período, o total dos depósitos atingiu o montante de R$ 725 bilhões.

Já a rentabilidade acumulada no ano foi de 6,6%, considerando as contas com aniversário no primeiro dia do mês. Esse valor é igual a 67% da variação do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) no mesmo período. O CDI é o principal parâmetro de referência para os investimentos de renda fixa.

Uma aplicação num fundo de renda fixa atrelado ao CDI e com taxa de administração de 1,5% ao ano teria rendido em 2017 aproximadamente 8,5%. Descontando o Imposto de Renda de 20% sobre os rendimentos, o ganho líquido da aplicação seria de 6,8%, pouco mais do que a poupança.

[Fernando Nogueira da Costa: 0,2% a mais sobre o saldo médio per capita da poupança em dezembro de 2017 (R$ 10.616) dá apenas R$ 21,23 no ano ou menos de dois reais ao mês. Muitos analistas não dimensionam a bobagem dita — e repetida…]

Como atualmente é relativamente simples para o investidor ter acesso a fundos de investimento conservadores com taxas de administração de 1,5% ao ano ou menos, fica a dúvida sobre os motivos que justificam a atração pela poupança. [?!]

A caderneta [de poupança] tem a desvantagem de ter os rendimentos creditados apenas uma vez por mês. Os saques anteriores ao aniversário mensal não recebem a remuneração proporcional do período, ao contrário da maioria das demais alternativas.

Além disso, a fórmula de cálculo da rentabilidade da poupança é extremamente complexa. Envolve a média da remuneração dos certificados de depósitos bancários emitidos pelas instituições financeiras e um redutor arbitrado pelo Banco Central.

Essa falta de transparência contrasta com a legislação sobre os fundos de investimento, por exemplo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) exige a divulgação diária das cotas refletindo o valor dos ativos da carteira, balanços auditados e regras para a divulgação dos resultados passados, dentre outras obrigações.

Apesar de tudo, os dados do censo sobre créditos garantidos de junho de 2017, elaborado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mostra que existiam 61 milhões de clientes com saldo superior a R$ 100 na caderneta. É um número expressivo.

Não existem dados disponíveis sobre o número de investidores em fundos de investimento e de previdência, mas estimativas com base na quantidade de cotistas apontam para um número significativamente menor do que o de aplicadores na poupança.

[Falso. A ANBIMA divulga ambos dados. Por exemplo:

TOTAL DA POUPANÇA (Saldo > R$ 100,00)               664.151,6 milhões de reais       62.560.964 clientes         R$10.616,10
        Poupança (Saldo <= R$ 100,00)                   1.150,8 milhões de reais       78.784.744 depositantes                 R$14,60

A rentabilidade média da caderneta nos últimos dez anos foi de 68% da variação do CDI, com alguma oscilação de ano para ano. Mais relevante para o aplicador tradicional, de 2008 até 2017, com a exceção de 2015, o rendimento da poupança sempre superou a inflação do ano.

Mas o rendimento acima da inflação não explica a oscilação do fluxo de recursos direcionado para a caderneta. A correlação entre rentabilidade e captação em períodos anuais é zero.

A correlação é um indicador estatístico que varia de -1 até +1 e mede o quanto uma variável está atrelada ao desempenho de outra.

  • Correlação igual a zero significa que as variáveis se comportam de maneira independente, quando comparadas linearmente.
  • Correlação é igual a +1 significa que as variáveis se comportam na mesma direção de forma quase que previsível.
  • Correlação igual a -1 indica que as variáveis tomam caminhos opostos.

Dentre os diversos fatores capazes de justificar o comportamento da captação da caderneta, o mais promissor parece ser a variação do consumo das famílias, conforme calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Analisando os dados anuais dos últimos dez anos, verifica-se que a correlação entre o consumo das famílias e o fluxo de recursos para a poupança é igual a 0,7. A interpretação para esse fato é que quando a renda das famílias aumenta:

  1. uma parte vai para o consumo e
  2. outra para a caderneta de poupança.

Os anos de 2015 e 2016 marcaram uma forte retração do consumo das famílias. Esse mesmo período coincidiu com resgates na poupança. Com a recuperação do rendimento médio real, devido a menor corrosão inflacionária, e a queda da desocupação, informalmente, a previsão é de pequena recuperação do consumo das famílias nos próximos anos. A tendência, então, é de aumento da captação da caderneta.

O fato de existirem alternativas de investimento mais rentáveis e com maior liquidez do que a poupança não deve ser interpretado como sinal de que os investidores não sabem distinguir entre boas e más oportunidades.

Mas o analista de mercado conclui com dúvida: “não deixa de ser intrigante o fato de que o total de contas de caderneta de poupança com saldo superior a R$ 500 mil ter aumentado 9% nos 12 meses encerrados em junho de 2017. Sinal de que a demanda por orientação financeira de qualidade e independente é alta“.

[Fernando Nogueira da Costa: é uma conclusão equivocada a respeito do depositante de poupança. Ele pode ser pobre, mas sabe fazer conta e se sente discriminado em agência bancária, exceto da Caixa.

Economista que não sabe fazer conta bem, confunde os valores relativos com os valores absolutos ou nominais, e daí extrapola a “ilusão monetária” até para clientes do Private Banking.

Por exemplo, este tinha a riqueza financeira per capita de quase R$ 6,5 milhões em dezembro de 2015. Ganhou pouco mais da Selic média no ano de 2016 (14,5% no ano), finalizando-o com R$ 7,4 milhões. Ganhou quase um milhão de reais a mais. No ano passado, novamente ganhou pouco mais da Selic média (10,6% no ano), terminando 2017 com R$ 8,2 milhões ou 800 mil reais a mais. Isto para cada um dos 117.421 clientes — número superior ao de 2015 (109.894) e ao de 2016 (112.036).

Em outros termos, o ganho financeiro nominal per capita de dezembro de 2015 a dezembro de 2017 de cada cliente por segmento foi: Varejo Tradicional R$ 736,65; Varejo de Alta Renda R$ 18.284,49; e Private Banking R$ 1.726.730,00.

Este cliente ricaço terminou o ano de 2015 e observou o juro nominal da Selic em 14,25% e a taxa de inflação em 10,7%. Calculou um juro real em 3,2%. Fez uma “fuga de capital” para renda variável?

Obviamente, não. Em 2016, acabou com ganho relativo de 14,5% no ano e taxa de inflação final de 6,3%, o juro real ex-post mais do que dobrou: 7,7%.

Em 2017, com ganho relativo de 10,6% no ano e taxa de inflação final de 2,95%, o juro real médio ex-post se manteve alto: 7,4%.

No ano corrente, a partir de maio com Selic a 6,25% aa e taxa de inflação anual prevista em 3,54%, o juro real cairá para 2,6%, cerca de ⅓ do anterior. Fará uma “fuga de capital” para o risco da renda variável?

Não. Ele faz a conta: R$ 8,2 milhões capitalizado com uma média de 6,25% no ano dará mais ½ milhão de reais (R$ 513.129) sem correr nenhum risco na renda fixa. Dá para ele manter seu consumo de luxo em viagens e troca de automóvel, não?

Ah, e a inflação corrente? Sua cesta básica de consumo é “modesta”: se gastar 25 mil reais mensais com ela — e não tiver nem renda do trabalho nem aluguel a receber –, ele separa 300 mil reais daquele ganho financeiro para comer e beber à vontade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s