Desconto Hiperbólico

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, cita o ditado popular “Aproveite cada dia como se fosse o último” e afirma que entre todos os lemas latinos que sobreviveram até hoje, carpe diem é provavelmente o preferido. Aproveite ao máximo o dia e não se preocupe com o amanhã. O imediatismo tem muito valor para nós. Quanto? Mais do que é racionalmente justificável.

Você prefere receber dez mil reais em um ano ou R$ 11.000 em um ano e um mês? Se você respondeu como a maioria das pessoas, então escolheu os 11.000 reais em 13 meses. Faz sentido, pois um juro de 10% ao mês (ou 120% por ano) você não vai encontrar em lugar nenhum. Esse juro lhe indeniza por todos os riscos que você correria se esperasse um mês.

Segunda pergunta: você prefere receber dez mil reais hoje ou R$ 11.000 em um mês? Se você respondeu como a maioria das pessoas, então escolheu os dez mil reais hoje. É surpreendente. Em ambos os casos, você tem de aguardar exatamente um mês para receber mil reais a mais. No primeiro caso, você se diz, “se já esperei um ano, posso muito bem esperar mais um mês”. No segundo caso, não.

Portanto, tomamos decisões que, dependendo do horizonte temporal, são inconsistentes. A ciência chama esses fenômenos de desconto hiperbólico (hyperbolic discounting). Significa que nossa “taxa de juro emocional” aumenta quanto mais próxima do presente estiver uma decisão.

Só uma minoria dos economistas entendeu que, subjetivamente, contamos com diferentes taxas de juro. A maioria dos modelos ortodoxos se baseiam em taxas de juro constantes e, por conseguinte, são impraticáveis.

O desconto hiperbólico, ou seja, o fato de que somos fascinados pelo imediatismo, como tudo que Dobelli acha irracional, mas instintivo, ele classifica como um vestígio de nosso passado animalesco. Os animais humanos não estão preparados para recusar hoje uma recompensa, a fim de, no futuro, obter uma recompensa maior. Os que enterram alimento é por puro instinto de o esconder, isso nada tem a ver com controle do impulso.

Como isso se dá com as crianças? A capacidade de adiar uma recompensa é um indicador confiável do êxito posterior na carreira profissional e financeira.

Quanto mais envelhecemos e mais autocontrole desenvolvemos, tanto mais facilmente conseguimos adiar as recompensas. Em vez de esperar 12 meses, esperamos 13 de bom grado, a fim de embolsar 10% a mais. Só que, se pudermos ter uma recompensa hoje, o estímulo tem de ser muito grande para que estejamos preparados para adiá-la. A melhor prova disso são os juros exorbitantes das dívidas contraídas com cartões de crédito e outros tipos de crédito de consumo em curto prazo.

Moral da história: a recompensa imediata é extremamente sedutora — e, no entanto, o desconto hiperbólico é um erro de pensamento. Quanto mais poder adquirirmos sobre nossos impulsos, mais êxito teremos em evitar esse erro. Quanto menos poder tivermos sobre eles — por exemplo, se estivermos sob a influência do álcool —, tanto mais sucumbiremos ao erro.

Carpe diem é uma boa ideia só uma vez por semana. Aproveitar sempre cada dia como se fosse o último é burrice.

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