Erros de Pensamento na Análise do Passado

Nosso cérebro é uma máquina de fazer associações: se erramos, em tese, evitamos repetir o erro; se acertamos, repetimos a ação. Repetição é aprendizagem. O problema é o falso conhecimento derivado de associação causal para algo casual.

São comuns as inversões entre causas-e-efeitos. Essa falsa causalidade, deduzida a partir de uma correlação casual, nos induz a erro de pensamento.

Fazemos uma ideia do mundo com base na facilidade com a qual exemplos nos ocorrem. Se duas coisas acontecem ao mesmo tempo ou se uma antecede imediatamente à outra, esse acaso vira, em pensamento automático, uma relação de causalidade.

Organizamos o caos de detalhes eventuais em nossa vida como fosse uma história com fio-condutor. Queremos que nossa vida forme uma sequência que possamos entender – e seguir. Algo novo passa sempre ser visto como “eu sempre soube disso”. Do ponto de vista retrospectivo, tudo parece ser uma clara consequência lógica e necessária.

Nossa tendência pragmática é avaliar decisões com base no resultado — e não com base na correção do processo anterior à cada decisão. Falácia do historiador é julgar o processo a partir do resultado, fazendo “profecia reversa”, ou seja, contar a história a partir da linha-de-chegada no presente. Nessa história dos vencedores, os vencidos (e os dilemas entre caminhos alternativos) ficam esquecidos.

Muitos animais humanos acreditam em uma força compensatória por parte do destino. Se sofremos hoje, pressupomos que haverá uma recompensa no futuro. Na história, há tantos acontecimentos aleatórios como interdependentes. Estes podem ter alguma influência sobre o que acontecerá no futuro. Daí, sem independência entre os eventos, há impossibilidade de calcular a probabilidade precisa de que algo esperado, de fato, ocorrerá – e se ocorrer, quando será. Desconhecemos a história do futuro.

Somos intolerantes com a crítica. Temos a tendência de interpretar novas informações de modo que sejam compatíveis com nossas teorias, visões de mundo e convicções. Filtramos, então, novas informações contraditórias de tal forma que nossas crenças permaneçam intactas sem testar nossas hipóteses. Movemo-nos cada vez mais apenas em comunidades de pessoas que pensam tal como nós.

A descrição precisa de um estereotipo qualquer, ou seja, uma (falsa) história bem contada nos leva a desviar de um olhar frio da verdade estatística de que aquele fenômeno narrado é uma raridade. Ou mesmo inédito.

Temos uma compreensão intuitiva para histórias “consistentes” ou “plausíveis”, mesmo que não sejam verdadeiras. Quanto mais convincente, impressionante e vívida é a descrição do acontecimento, tanto maior é o risco de erro de pensamento.

Reagimos de maneira diferente à mesma coisa, dependendo de como ela é apresentada. Dirigimos nossa atenção a apenas um ou poucos aspectos do todo. Todo relato está sujeito ao enquadramento emocional ou à contextualização conjuntural. Não temos a mesma racionalidade analítica sempre.

Todos nós temos a tendência a deduzir certezas universalmente válidas a partir de poucas observações individuais. Todas as certezas são sempre temporárias. Sofremos da Síndrome do Peru de Natal. Este, por não possuir uma adequada visão do futuro, se superestima, avaliando mal a razão da boa alimentação à véspera da sua degola.

Damos mais valor ao que possuímos do que ao que não possuímos. Aparentemente, o simples fato de passarmos a possuir aquela coisa lhe agrega valor. Queremos vender algo por valor superior ao que compraríamos.

Interpretamos nosso sucesso como resultado natural do próprio desempenho. Sempre, para preservar nossa autoestima, atribuímos nosso fracasso aos outros ou às circunstâncias desastrosas pelas quais nunca somos culpados. Se o mundo gira “em torno do nosso umbigo”, não temos uma visão holística ou sistêmica. Abstemos de compreender os fenômenos na sua totalidade e globalidade.

“Não há história sem rosto”, segundo a cobertura jornalística antropocêntrica. O individualismo metodológico não se importa com o fato de que, por exemplo, o sucesso empresarial depende muito mais da situação econômica geral e do desempenho do setor de atividade do que da capacidade pessoal de determinado empresário. Releva a humanidade em comparação com o Universo.

Caminhos alternativos são “tudo que poderia igualmente ter acontecido, mas não aconteceu”. O risco ou o custo de oportunidade nunca é diretamente identificável. Por aversão ao risco, optamos por um “caminho monótono” na nossa vida – e não por trilhar um atalho ainda desconhecido para o futuro pretendido.

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