Escolha da Ocupação

Em meus cursos sobre Finanças Comportamentais para Trabalhadores, o trabalho de avaliação de aprendizagem solicita aos alunos um planejamento da vida financeira de hoje até o túmulo. Suas apresentações orais são realizadas em um debate divertido e instrutivo.

Com a recorrência da lista de desejos dos alunos dos cursos de extensão – profissionais já graduados – elaborei um mnemônico, útil para facilitar a memorização, e o apresentei a outra turma. Os Cinco Cês da Classe C: são Consumo (Carro e Celular), Casa com Cachorro, Casar, Cruzar e Criar Crianças.

Logo, alguns alunos propuseram ampliar o mnemônico de modo irônico quanto à vidinha besta padronizada. “Ceis” (com C) ou “Cete” (também com C) “Çonhos” (com C cedilha) da Classe C, isto é, típicos da Classe Média, são aqueles acrescentados de Cer (com C) Celebridade, Cabelo Chapinha, Comida, Churrasco, Chocolate, Cerveja, Cachaça, e Cruzeiro como símbolo do status de viajar. Se este último designasse o meu time, algum mano gritaria Corinthians!

Mas essa ironia em relação a Cruzeiro poderia ser vista como esnobismo. Professor diz: “passaporte não é diploma”. Ele tenta valorizar e cobrar dos outros o adquirido por ele: Cultura. Este seria outro Cê, mas custa muito conseguir. Tem ainda de se incentivar mais um Cê: Complementar Previdência. Outros alunos sugeriram: Cexo (com C)! C*, C******. Censura.

Valores são o conjunto de características de uma determinada pessoa ou organização. Eles determinam a forma como a pessoa ou organização se comportam e interagem com outros indivíduos e com o meio ambiente.

A palavra valor pode significar merecimento, talento, reputação, coragem, iniciativa. Os valores humanos são valores morais, guias da conduta das pessoas. Esses valores morais podem também ser considerados valores sociais e éticos. Constituem um conjunto de regras estabelecidas para uma convivência saudável dentro de uma sociedade.

Vivemos uma crise de valores, quando a humanidade passa a viver de forma mais egoísta, competitiva e violenta. Maximizar o valor pecuniário da renda só para comprar bens não deve ser colocado como a meta de uma vida saudável, sequer a financeira.

Planejar a vida financeira exige “colocar no papel”, ou melhor, em uma planilha, inicialmente, as receitas – brutas e líquidas, anotando também todos os descontos para ter consciência dos tributos e encargos trabalhistas pagos. Em seguida, o percentual de investimento planejado. Depois sim listam-se as despesas fixas, variáveis e extraordinárias. Daí, da receita necessária para cobrir o investimento e as despesas indispensáveis, se deduz o segundo passo a ser dado após a escolha da profissão: a escolha da ocupação, isto é, onde a exercer.

Muitas vezes, principalmente em fase de elevado desemprego, isso é visto apenas como “agarrar qualquer oportunidade” à frente. Em outras ocasiões, até mesmo se estiver já empregado, isso pode ser planejado como “buscar uma melhor oportunidade” para a ascensão profissional.

Hoje tem mais de cinco milhões de brasileiro de 17 a 24 anos estudando em cursinhos para fazer concurso público. Economistas neoliberais criticam esse objetivo da sociedade brasileira de “igualar-se à casta apropriadora do Poder”. Deveriam criticar sim a reforma trabalhista: ao cortar direitos, colocou os empregados em situação de extrema fragilidade perante os empregadores.

Como indicador do poder de barganha, a PNADC jan-mar 2018 revela haver:

  • 33 milhões empregados no setor privado com carteira (36% da população ocupada de 90,5 milhões),
  • 11 milhões de empregados no setor privado sem carteira (12%),
  • 11,4 milhões de empregados no setor público (12%),
  • 23 milhões de trabalhadores por conta própria (25%),
  • 6,2 milhões de empregados domésticos (7%),
  • 2,2 milhões de trabalhadores familiares (2%), e
  • apenas 4,4 milhões empregadores (5%).

O rendimento médio real habitual dos empregadores é R$ 5.346. Em relação a ele, o dos empregados do setor público equivale a 65% (R$ 3.485). Todos os demais são de 39% (R$ 2.074 do empregado do setor privado com carteira) para baixo. Está explicada a preferência por concurso público se o sujeito não tem condições de ser empregador?

Em termos econômicos, a melhor ocupação no País é ser titular de Cartório: é o mais rico em renda, quase o dobro do segundo e do terceiro colocado. A disputa para ser titular de um cartório costuma ser alta. Os candidatos são atraídos principalmente pela chance de vir a comandar um negócio cuja receita é líquida e certa. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, por exemplo, realiza no momento um concurso para preencher 165 vagas de titulares. Atraiu 10.857 candidatos. A média é de 66 candidatos por vaga. Para comparar, a concorrência para o curso de Direito na Universidade de São Paulo (USP) no vestibular para este ano foi de 27 candidatos por vaga.

Depois dessas, dá para ver no ranking, boas ocupações estão em castas poderosas pertencentes a Poder Judiciário, Poder Fiscalizador, Poder Político, Poder Econômico, Poder Midiático ou Poder das “Celebridades” (Atletas ou Artistas). Senão, resta como boa ocupação cuidar, inclusive da diversão, dos poderosos: Médicos, Pilotos, Atores, Jogadores de Futebol…

A proximidade de cada ocupação em relação aos três Poderes da República, ao Poder Econômico e Financeiro, e ao Poder Midiático parecem explicar as colocações nos rankings construídos a partir dos Grandes Números do Imposto de Renda. O ranking das ocupações por riqueza se distingue do por rendimentos totais. Quanto à renda, os posicionados de 6º. a 9º. lugar não ficam entre os 10+ no ranking de riqueza. Os 352 mil médicos e 5.886 atletas se colocam em 5º. e 10º. lugares. Servidores do Estado (e da elite) estão entre os 10+ em renda, mas não em riqueza.

Então, não só obter educação de elite, mas também ser selecionado em concursos públicos para seguir carreiras da elite dos servidores públicos são fatores favoráveis para o futuro enriquecimento. Tanto o Instituto Rio Branco, quanto a ESAF (Escola Superior de Administração Fazendária), ambos os cursos aumentam as chances. Isso sem considerar o oportunismo do apadrinhamento de alguma dinastia política, quem não teve a “sorte do berço”.

A grande diferença está entre o capital e o trabalho. Os 18% declarantes da casta dos “mercadores” (5 milhões) recebem 24% dos rendimentos totais e os 34% trabalhadores (quase 10 milhões), 30% desses rendimentos (tributáveis, isentos e exclusivos). Nas demais castas, governantes recebem um ponto percentual a mais de uma distribuição igualitária (17% contra 18%), guerreiros-militares 0,2% a menos (2,4% contra 2,2%). Os profissionais liberais e autônomos recebem quase um ponto percentual a menos em relação à sua participação em quantidade de declarantes (8% contra 7%).

A casta dos inativos recebe o equivalente a 40% dos ganhos dos capitalistas recebedores de rendimentos de capital, inclusive alugueis, a casta dos trabalhadores, 37%, dos governantes, 44%, dos guerreiros-militares, 38%, dos sábios profissionais liberais, 37%.

Quanto ao rendimento per capita mensal, somente se aproximam da média de R$ 19.500 mensais dos 150 mil capitalistas os 1,4 milhão de membros ou servidores públicos da administração direta federal – estão aí desde os sábios-tecnocratas, inclusive os do Poder Judiciário, até os oligarcas das dinastias regionais ocupantes de cargos políticos – com uma média mensal de R$ 15.500. Tirando os empregados de empresas públicas (R$ 12.800), todos as demais ocupações recebem de pouco mais da metade daquele valor para baixo.

Para finalizar, os 779 mil (2,8% dos declarantes em 2017) empregados de instituições financeiras públicas e privadas com rendimento per capita mensal de quase onze mil reais se posiciona relativamente bem em relação às demais castas. Esse rendimento equivale a 56% do rendimento per capita dos capitalistas.

Mas a vida profissional não se resume a “quanto ganha”. Em uma perspectiva de 35 anos de vida ativa, são necessários obter outros valores além do pecuniário. Estes ficam a reboque do sucesso registrado pela reputação profissional de cada pessoa. Esta deve se preocupar mais com isto em vez de aquilo ($uce$$o).

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