Independência Financeira

Quanto dinheiro, exatamente, é preciso para ter independência financeira? Afinal de contas, quem é considerado milionário?

Milionário é quem tem um patrimônio líquido de 1 milhão de dólares, ou mais, sem contabilizar o valor imobilizado da residência principal. Vendendo-a, terá 6 meses para recomprar outra, senão o imposto de renda cobra boa parte do ganho de capital. Por isso, a classe de alta renda investidora em moradia de luxo em condomínio, cuja vizinhança impõe, psicologicamente, elevado padrão de consumo exibicionista de luxo, para si e sua família, é o caminho para “se achar milionário de maneira ilusória”.

Com base nessa definição, somente 3,5% dos americanos podem ser considerados milionários. Entre esses — estimados em 4,458 milhões –, 95% têm patrimônio líquido entre 1 milhão e 10 milhões de dólares. Gente com patrimônio líquido maior do que isso é a minoria da minoria.

O passo seguinte é qualificar melhor a definição dada acima. Sim, porque todo mundo precisa ter no mínimo 1 milhão de dólares para ser considerado milionário, mas nem todo mundo possuidor de 1 milhão de dólares pode ser considerado um milionário.

Segundo os autores Thomas Stanley e William Danko do livro The Millionaire Next Door – The Surprising Secrets of America’s Wealthy (O Milionário Mora ao Lado – Os Surpreendentes Segredos dos Americanos Ricos. São Paulo: Manole, 1999), o que define mais precisamente se uma pessoa é milionáriaé o tamanho do seu patrimônio líquido de acordo com sua renda e sua idade atuais. Obviamente, quanto maior o tempo de investimento em renda fixa, mais os juros compostos propiciarão acumulação de riqueza financeira de juros sobre juros. Em outras palavras, o envelhecimento corresponde a enriquecimento dos investidores.

Trata-se de uma definição de quem é ou não um bom construtor de riqueza. Entende-se por patrimônio líquido o total acumulado de todas as suas propriedades (ativos imobiliários exceto a casa ou o apartamento de moradia, além de coleções) ou investimentos em ativos financeiros, menos as suas dívidas.

Quanto maior for a sua renda , maior deve ser o seu patrimônio líquido. Quanto maior for a sua idade, há mais tempo você está ganhando dinheiro e acumulando parcela de sua renda de maneira conscientemente planejada – e não de eventual sobra de renda em relação ao consumo colocado em primeiro lugar.

É comum pessoas de alta renda terem um estilo de vida consumista muito caro. Só conseguem economizar muito pouco ou quase nada. Seu patrimônio, em consequência, está muito aquém do que deveria estar, se levar em conta todo o dinheiro recebido mensalmente.

Uma pessoa mais jovem e com um patrimônio inferior ao de uma pessoa mais velha pode, dependendo de quanto ganha e do que já acumulou, ser potencialmente mais rica em comparação. Terá mais tempo disponível para acumular mais.

REGRA SIMPLES PARA CÁLCULO DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO ESPERADO POR FAIXA DE IDADE:

“Multiplique sua idade por sua renda familiar anual realizada, antes dos impostos e encargos, provinda de todas as fontes, inclusive rendimentos financeiros, exceto herança. Divida por dez.”

Na tabela acima estão as estimativas para saber “quanto dinheiro é necessário para manter o padrão de vida”, isto é, saques mensais com o mesmo valor do último salário mensal por vinte anos. Compare a fórmula da regra simples sugerida pelo livro “O Milionário Mora ao Lado” com o algoritmo do Banco Itaú (1-3-6-9). Mesmo esta também não propicia a manutenção do padrão de vida com saques mensais por 20 anos com juros de 0,5% ao mês.

Eu o corrigi na última linha: o algoritmo seria 1-3-6-12, ou seja, com 65 anos teria de ser milionário em dólar (com cotação R$ 3,60 / US$) para ter saques equivalentes a 103% do último salário. Observo ser verdade, durante a aposentadoria, ter menos gastos com transporte, vestuário e alimentação fora-de-casa, mas os gastos com saúde se elevam. Portanto, 77% do valor do último salário em 240 saques mensais do saldo acumulado talvez seja insuficiente para uma vida boa.

Frugalidadeé a palavra-chave do padrão de vida dos milionários tradicionais norte-americanos, descoberta por Stanley e Danko enquanto realizavam a pesquisa. Os autores, em certo momento do seu trabalho, organizaram uma reunião para entrevistar dez chefes de família com patrimônio de 10 milhões de dólares ou mais. Queriam saber, basicamente, quais eram suas necessidades.

Para deixar o grupo à vontade, alugaram uma cobertura em Manhattan e contrataram dois chefs de cozinha que serviram quatro tipos de patês e três de caviar. Para acompanhar, sugeriram vinhos Bordeaux de 1970 e Cabernet Sauvignon de 1973. O primeiro milionário, um grande proprietário de imóveis comerciais em Nova York, chegou. Quando lhe ofereceram o Bordeaux, olhou a garrafa com cara de interrogação e confessou só tomar scotch e dois tipos de cerveja. Nenhum dos milionários presentes tocou no caviar nem tomou um gole sequer de vinho. Eles apenas comeram as torradinhas. Os autores aprenderam a lição: depois desse episódio, todas as outras entrevistas foram regadas a refrigerantes e sanduíches.

Os milionários gastam bem menos do que os emergentes saídos subitamente de classe de baixa renda. Quando estes ascendem socialmente, em geral, passam a fazer compras de bens de consumo conspícuo de maneira desenfreada. Isto sem falar em viagens-selfies e restaurantes caros como exibição de (falso) status social.

A realidade dos ricos em dinheiro e cultura está no extremo oposto. A maioria dos ricos americanos costuma usar só os pontos de fidelidade a uso de cartões de crédito. Atualizam, regularmente, um orçamento doméstico e controlam suas despesas. Planejam com cuidado todas as decisões financeiras. Dedicam tempo a gerir seu dinheiro e não comprar bens caros como carros de luxo 0 km.

O que faz toda a diferença em investimentos é:

  1. a disciplina em autocontrole de gastos em consumo e
  2. os investimentos sistemáticos, todos os meses, de percentual planejado da renda.

Uma pessoa com dificuldade para acumular riqueza, revelam Stanley e Danko, gasta três vezes mais tempo por mês fazendo exercícios físicos, para exibir suposta beleza, e/ou consumindo, para exibir falso status social, do que organizando suas estratégias de investimento. Inversamente, dois terços dos milionários americanos pesquisados sabem exatamente quanto gastam com comida em casa, roupas, presentes, carro, educação, etc.

Eles têm objetivos de curto, médio e longo prazosbem definidos. Isso quer dizer: por dia, por semana, por mês, por ano e por toda a vida. Os milionários de verdade, em suma, planejam e cumprem o roteiro para onde — propósito, objetivo, meta — querem chegar.

Indivíduos investidores competentes para acumular riqueza são mais autoconfiantes em relação a aqueles consumidores com a mesma idade e na mesma faixa de renda, mas inseguros em relação à sua situação financeira. É a sensação objetiva da independência financeira, inclusive a de não dever nada (ao banco e a ninguém),o diferencial.

Os milionários descritos no livro, em geral, são pessoas capazes de fazer uma troca crucial: sacrificam um alto consumo no presente para se tornar independentes no futuro. Além disso, ficou claro na pesquisa que os bons acumuladores de riqueza gastam o dobro do tempo organizando seus investimentos financeiros em relação aos consumidores vorazes, cujos investimentos estão abaixo da média do que é necessário, portanto, insuficientes para alcançar a independência financeira.

De fato, o levantamento concluiu haver uma ligação direta entre:

  1. o tempo gasto com planejamento financeiro e
  2. a capacidade de acumular riqueza.

É preciso perder menos tempo apenas se preocupando com a possibilidade de não acumular o suficiente para ter uma aposentadoria tranquila. Em vez disso, o tempo deve ser gasto com ações concretas contra a tendência de consumir muito e investir pouco.

Essa atitude faz a diferença entre:

  1. quem vai se tornar um milionário (em dólar) e
  2. quem vai apenas ficar sonhando com isso.

One thought on “Independência Financeira

  1. Excelente post!

    Esse é um tema que precisa ser muito difundido no Brasil, pois ainda há grande desinteresse pela maioria das pessoas.

    Gostei do exemplo do caviar e vinhos – a simplicidade e a frugalidade parecem ser valores muito sólidos na vida dos milionários, ao contrário das pessoas que buscam status e ostentação.
    Vou colocar essa parte em meu blog, na parte de reflexões, (sempre com os devidos créditos), pois acredito que possa ser muito útil lá também.

    Admiro Warren Buffet – um exemplo e inspiração para muitos nesse sentido.

    Abraços,
    Simplicidade e HarmoniaA

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