Neuroeconomia e Erros de Pensamento Comuns no Futebol

Neuroeconomia cataloga os erros recorrentes do pensamento humano. O animal humano repete erros, por exemplo, o segundo casamento é a vitória da esperança emocional sobre a experiência racional. A lógica não diz respeito a como pensamos, assim como a gramática não é referência de como falamos.

Um jogo de futebol constitui bom exemplo de conjunto complexo em ação. Com equipes equivalentes e campo neutro, como é na Copa do Mundo, é impossível acertar a priori os resultados de todas as partidas. Estes emergem de circunstâncias incontroláveis – e indeterminadas pelo passado. São onze indivíduos de um lado competindo com onze do outro lado para chutar ou cabecear a bola na rede da meta, ou seja, marcar “goal”.

As balizas de um campo de futebol são formadas por duas traves (ou postes) verticais, com o tamanho de 2,44 metros de altura e separados por um poste (ou travessão), na horizontal com o tamanho de 7,32 metros. Pelo número de gols conseguidos, quando a bola transpõe essa linha fatal, parece ser uma façanha bem mais difícil em relação a remessar uma bola com as mãos dentro de um aro da cesta de 45 centímetros de diâmetro. Os cestos do basquete são colocados a uma altura de 3 metros e 5 centímetros do solo.

Os jogadores selecionados entre os melhores do País são dotados de inteligência cinestésica, ou seja, agudo sentido da percepção de movimento, peso, resistência e posição do corpo, provocado por estímulos do próprio organismo. São treinados para atuar coletivamente. Porém, em poucas e raras vezes, a iniciativa particular coroa o sucesso em lances capitais. O maior número de finalizações vai para fora da meta ou é desviado para escanteio. Falhas dos atacantes são superiores às dos defensores, mas as destes últimos são fatais – e mais notadas.

Apenas um em cada cinco escanteios leva a uma finalização ao gol e apenas uma em cada nove finalizações oriundas de escanteios termina em gol. Logo, 89% das finalizações ao gol geradas pelos escanteios são desperdiçadas. Em média, um escanteio vale aproximadamente 0,022 gol, ou seja, um time faz um gol de escanteio a cada dez jogos.

Os gols são eventos raros e preciosos: próximo de 30% dos jogos terminam com um gol (20%) ou nenhum (8%). Um pouco menos da metade de todos os jogos termina com o time da casa marcando um ou dois gols e vencendo. Depois vem um grupo de jogos com vitórias alternadas entre o time da casa e o visitante, ou empates, com placares mais altos, tipo (1X2, 3X1, 2X2) ocorridos, cada um, 5% das vezes.

O retrospecto histórico mostra 48% dos jogos serem vencidos pelo time da casa, 26% terminarem empatados e 26% serem vencidos pelo time visitante. Esta é a Regra do 48-26-26 em todos os campeonatos por pontos corridos.

Apesar da disciplina, ordem, talento e organização da equipe, não se pode negar o papel do acaso no futebol. Metade dos gols pode ser creditada à sorte, inclusive devido ao aproveitamento de falha de algum jogador adversário.  O melhor time em termos de talentos individuais só vence metade das vezes. A lógica esperada pela diferença de qualidade e a sorte têm o mesmo peso.

Em futebol, fundamentalmente, se tenta evitar os próprios erros e ao mesmo tempo se aproveitar dos erros dos adversários. Quando cada equipe se organiza taticamente como tivesse duas equipes de basquetes – 4-1-4-1 (quatro defensores e um pivô, quatro atacantes e um pivô) –, defendendo-se com duas linhas de quatro e dois no círculo central do campo, jogar na defesa, recuperar a bola e a lançar em contra-ataques rápidos parece ser a jogada preferida para encontrar a defesa adversária aberta.

Quantos gols saem de contra-ataques com a recuperação súbita da bola, devido a erro de algum jogador da equipe adversaria? “Jogar na espera do erro alheio” passou a ser a virtude da paciência no aguardo dessa chance ao longo dos 90 minutos do jogo.

Metade de todas as partidas de Copa do Mundo – um “torneio de mata-mata” – é decidida pela sorte, e não pelo talento. O melhor time só vence metade das vezes. Os resultados de futebol se assemelham a um “cara ou coroa”.Às vezes haverá sequências de algumas caras, às vezes algumas coroas. Não há relacionamento entre a moeda agora jogada e o último lance. Há sempre 50% de chance de cada, qualquer tenha sido a sequência ocorrida até a próxima jogada.

Os analistas do futebol apresentam negligência com a probabilidade. Falta-lhe uma compreensão intuitiva para avaliar riscos probabilísticos. Tentam compensar essa carência com o Viés da História: organizar o caos de detalhes eventuais em uma partida de futebol como fosse uma história com fio-condutor de modo a entender – e seguir uma racionalidade. Depois do fim do jogo, abusam do Viés Retrospectivo: dizem “eu sempre soube disso” – e tudo parece ter sido uma clara consequência de seu saber.

Está em seus comentários também o Viés do Resultado ou a Falácia do Historiador: a tendência de avaliar decisões instantâneas dos jogadores com base no resultado — e não com base no processo anterior à decisão de o que fazer. Profecia Reversa é julgar o processo de treinamento e instruções técnicas a partir da linha-de-chegada, isto é, o resultado da partida: vitória, derrota ou empate. A Ilusão do Resultado Apriorístico se refere à confusão entre o critério de seleção dos “melhores” e o resultado futuro.

Os torcedores creem haver força compensatória por parte do destino em caso de derrota. Trata-se da Falácia do Jogador. No jogo, há tantos acontecimentos aleatórios inesperados como interdependentes. A dependência de trajetória de sucessos ou derrotas anteriores pode ter influência emocional sobre o comportamento da equipe na partida.

Porém, tanto locutores e torcedores se apegam ao Viés da Disponibilidade. Ambos discorrem sobre um jogo com o adversário com base na facilidade de lembrança de resultados anteriores contra a mesma “camisa”, mas em outra época e com equipes totalmente distintas. É como se uma partida antecede à outra, ela vira relação de causalidade! E deita-se falação a respeito do passado como ele ilustrasse o presente!

O Viés da Confirmação dos comentaristas é a tendência de interpretar novas informações de modo a serem compatíveis com suas teorias, visões de mundo e convicções. O dos torcedores é filtrar novas informações contraditórias de forma tal a manter intactas suas crenças. Só toleram conviver com pessoas com os mesmos pensamentos, isto é, com a torcida organizada de seu time.

O Efeito Dotação é dar mais valor ao jogador possuído por sua equipe do que ao que não possuí, ou seja, da equipe adversária. Basta isso para lhe agregar um valor subjetivo. Os jogadores brasileiros, por definição emocional, são sempre considerados superiores!

A descrição precisa desse estereotipo nos leva a desviar de um olhar frio da verdade estatística para verificar se o jogador fenomenal é, de fato, uma raridade. Há tendência a deduzir certezas universalmente válidas a partir de poucas observações individuais, por exemplo, um gol ou um jogo fantástico. Todas as certezas são sempre temporárias.

O Viés da Atribuição da imprensa tende a exaltar o feito individualista em vez do espírito de equipe. “Não há história sem rosto” em cobertura jornalística. Seu individualismo metodológico não se importa com o fato de sucesso individual depender muito mais da atuação coletiva e do desempenho de toda a equipe. Destaca sempre o astro.

A contrapartida desse individualismo é o Viés de Auto Atribuição dos próprios jogadores. O sucesso é visto como resultado natural do próprio desempenho e o fracasso atribuído aos outros jogadores ou às circunstâncias desastrosas como a atuação do juiz.

Nosso cérebro é uma máquina de fazer associações. O problema é o falso conhecimento derivado de associação causal para algo casual. Cometemos erros de inversões entre causas-e-efeitos com causa deduzida a partir de mera correlação casual.

Depois da partida, damos atenção a comentaristas a cometerem a Falácia da Conjunção: temos uma compreensão intuitiva para narrativas “consistentes” ou “plausíveis”, contadas de maneira convincente, impressionante e vívida, mesmo não sendo verdadeiras. Charlatões agem como se tivessem algum conhecimento. Aprenderam a se apresentar, aparentemente, como os sábios.

Reagimos de maneira diferente à mesma coisa, dependendo de como ela é apresentada. Dirigimos nossa atenção a apenas
 um ou poucos aspectos do todo relatado. Focamos nos poucos “melhores momentos” e/ou apenas nos gols marcados.

Deixamo-nos ofuscar por um aspecto e, a partir dele, supomos uma imagem completa. O Efeito Halo destaca o círculo luminoso em torno de uma figura sagrada: o astro da equipe. Suas jogadas são mais percebidas devido à estereotipagem.

A preguiça social surge quando o desempenho de um jogador não é visível diretamente, mas se dilui em uma equipe. Por que ele investirá toda sua força se também não será notado quando fizer menos esforço?

Abandonemos a Ilusão de Controle. É a tendência a acreditar na possibilidade de controlar ou influenciar alguma coisa sobre a qual, objetivamente, não temos nenhum poder: o desempenho de um sistema complexo como o futebol ou a economia.

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Futebol e neurociências: descubra as mudanças neurais

Nosso passado evolutivo como caçador-coletor, vê no futebol constante interação social como herança, uma predileção por competições ritualizadas.

 

Copa apaixonou o mundo e nós brasileiros mergulhamos em uma intensa mobilização emocional, que varia da euforia da vitória até a amargura da derrota. As Neurociências têm investigado situações de competição, inclusive, em finais de Copa do Mundo, e as descobertas desses estudos ajudam a compreender as mudanças neurais envolvidas em tamanha paixão pelo futebol.

Como sempre,  fica mais fácil entender nosso cérebro atual olhando para o passado da evolução humana. Nossa história evolutiva envolve um longo percurso de disputas sociais, e o cérebro humano carrega o equipamento e as disposições para nos preparar para estes embates.

Para compreender a Neurobiologia dos mecanismos de competição social, temos que imaginar o contexto do ambiente ancestral, no qual evoluímos. Fomos desenhados para interagir em grupos equivalentes às tribos caçadoras e coletoras, como encontramos até hoje na África ou outras regiões do planeta. As tribos primitivas de nossos ancestrais sempre sofreram ameaças de tribos vizinhas, que invadiam territórios de caça ou coleta.

Geralmente, os grupos sociais vizinhos desenvolvem disputas territoriais e embates por recursos para a sobrevivência. Por essa razão, as grandes rivalidades no futebol são, em geral, entre países que fazem fronteiras, como Argentina e Brasil, por exemplo.

Nosso cérebro está equipado para criar uma coesão entre nosso grupo, necessária para enfrentar o inimigo, em especial quando existe percepção de um inimigo externo. Pesquisas em Psicologia Social já demonstraram que qualquer bobagem, como uma camisa colorida, pode criar as categorias “nós” (nossa tribo) x “eles” (a outra tribo).

Se distribuirmos camisas de cor amarela para metade dos sujeitos de um grupo, e de cor azul para a outra metade, isto basta para disparar uma série de comportamentos competitivos com os indivíduos do time oposto, e a favor daqueles com a nossa camiseta.

Vários estudos têm demonstrado que a simples observação de um jogo de futebol pode causar fortes alterações no sistema neuroendócrino. Quando os pesquisadores mediram o nível de testosterona presente na saliva de torcedores de times internacionais rivais, que assistem, pela TV, jogos em diferentes fases de Copa do Mundo, descobriram que o nível deste hormônio pode aumentar até 30% nos vencedores e reduzir-se na mesma proporção nos perdedores.

De certa forma, a competição desportiva ativa, em nosso cérebro emocional primitivo, o mecanismo do “nós” contra os “outros”: o nosso time, que representa nossa nação, contra a outra equipe, que representa a tribo vizinha que vem invadir nosso território e disputar recursos preciosos de sobrevivência.

O nível de testosterona em várias espécies de animais, incluindo humanos, é maior nos sujeitos dominantes na hierarquia social e menor nos subordinados, e influencia a expressão de comportamentos sociais, que envolvem mudanças de status.

A testosterona, provavelmente, está envolvida na preparação do organismo para defender ou aumentar seu status social, e a observação do resultado do jogo é percebida como uma ameaça à posição social. Em homens, a testosterona parece encorajar a motivação para dominância, fortalecendo comportamento destinado a dominar e aumentar o status sobre os outros.

A testosterona sobe diante de um desafio, como uma resposta antecipatória para enfrentar uma competição. Depois da disputa, o nível de testosterona declina nos perdedores e sobe nos vencedores. Do ponto de vista subjetivo, conhecemos bem as eufóricas sensações desencadeadas quando nosso time vence, ou a lamentável ressaca emocional quando a derrota nos entristece.

No entanto, alguns estudos têm mostrado que as respostas neuroendócrinas a competições dependem mais de fatores subjetivos relacionados a avaliação cognitiva da situação do que do resultado objetivo ser vitória ou derrota.

Fatores que dependem de como o sujeito interpreta a situação afetam a resposta psicobiológica, como a importância da competição para o sujeito, o envolvimento dele na disputa ou possibilidades percebidas de controlar o resultado ou sucesso.

Na Copa de 2014, vários elementos de avaliação cognitiva entram em jogo: o fato de sermos anfitriões e de termos criado uma forte expectativa de vitória, bem como a percepção de desempenho bem abaixo do esperado, nos impelem a aumentar o peso subjetivo da dor da derrota. De fato, nossa derrota esmagadora para a Alemanha mostrou o poder de uma partida de mudar o estado de nosso cérebro e, como resultado, de nosso sofrido coração de torcedor.

Fonte:
Revista Psique | Ed. 104

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