Respeito: Busca de Reconhecimento

Em Sobre A Arte De Viver, Roman Krznaric (clique para ler outros posts a respeito desse livro), o autor afirma, ao longo de toda a história do trabalho, o desejo de reconhecimento – outros reconhecerem nossa existência e mostrarem apreciação por nosso mérito – ter se rivalizado com o dinheiro como ambição primordial.

Uma das formas mais procuradas de reconhecimento é o status: chegar a uma posição ou classe elevada na hierarquia social.

  • Na China, por mais de mil anos, o status mais elevado foi concedido aos literatos, uma elite instruída conhecida como puo che, ou “bibliotecas vivas”, cujos membros eram recompensados com cargos como funcionários do governo.
  • Na Europa pré-moderna, os que recebiam o maior respeito em geral não eram os ricos da casta dos mercadores, mas indivíduos de destaque como membros da casta dos guerreiros heróicos e da casta dos sábios, seja clérigos piedosos, seja homens (e ocasionalmente mulheres) de grande sabedoria.
  • Hoje, embora haja uma associação muito mais estreita entre riqueza e status da casta dos mercadores, em relação à existente no passado, ainda há profissões na casta dos sábios – como as de advogado ou cirurgião – cujo grau de prestígio social não pode ser reduzido simplesmente a seu poder aquisitivo.

Sempre houve algo vazio no reconhecimento através do status social. Podemos ser reverenciados por trabalho não considerado relevante por nós mesmos, mas socialmente valioso, ou nos sentir admirados pela imagem representada – “empresário importante” ou “eminente diplomata” –, e não por nossa individualidade. No fim, descobrimos o modo como a sociedade nos classifica não ser tão importante quanto aquele como somos percebidos por nossa família, nossos amigos e colegas.

Há também o problema de o desejo de status se transformar com facilidade em ânsia de fama, tornando-nos obcecados pela dimensão de nosso renome público. É bem sabido, contudo, muitos famosos são também (com frequência) extremamente infelizes, aprisionados em vidas públicas e relacionamentos superficiais, e mantendo sua própria sanidade mediante um rico coquetel de antidepressivos e outras drogas. Foi isso que instigou Louis Armstrong a dizer: “O sujeito não se diverte nada quando fica famoso demais.”

De qualquer maneira, a possibilidade de alcançar um renome genuíno é extremamente limitada. Quantas pessoas podem alcançar a fama como pop star, jogador de futebol ou chef da TV?

Durante os últimos cem anos, uma forma alternativa de reconhecimento foi cada vez mais cobiçada: o respeito. Este difere do status, porque envolve:

  1. ser tratado com consideração e humanidade, e
  2. ser valorizado pelas próprias contribuições pessoais, e não por ocupar uma posição particular na hierarquia.

O respeito é uma condição necessária para uma vida de trabalho enriquecedora, dotada de propósito. Sendo assim, onde, e como, podemos encontrá-lo?

Ele tende a florescer onde há espaço para o desenvolvimento de relações humanas genuínas:

  1. onde temos contato direto com colegas e clientes, em vez de ficar presos atrás de um computador o dia inteiro [Eu! Eu! Eu!], e
  2. onde não nos sentimos como um dente de engrenagem anônimo na máquina.

O problema é a tendência geral no século passado ter sido para trabalhar em organizações cada vez maiores, projetadas para promover a eficiência, não o respeito. Ao fundar sua enorme fábrica de carros Highland Park, em Michigan, em 1910, Henry Ford afirmou as preocupações com a qualidade dos empregos na linha de montagem “não passarem de uma quimera”. Seus empregados, em sua opinião leviana, ficariam felizes em tolerar o trabalho repetitivo, sendo os salários altos o bastante.

De fato, seus operários eram tratados não como seres humanos merecedores de respeito, mas como um recurso econômico. Eram um insumo para o processo de produção, exatamente como o aço e os parafusos para as portas dos carros.

A boa notícia é que mesmo organizações grandes e burocráticas por vezes oferecem respeito a seus empregados. O pai do autor, tendo trabalhado para a IBM durante cinquenta anos, sempre se sentiu apreciado por sua contribuição, apoiado pelos colegas e parte de uma comunidade de “IBMers”. Só em seus últimos anos, quando muitos de seus velhos amigos se aposentaram e a companhia começou a tratar os empregados como se fossem descartáveis, ele sentiu o espírito comunitário e o respeito se desintegrar.

Vale a pena reconhecer também que pequenas organizações têm o potencial de gerar respeito, pois todos nos conhecem pelo nome. Mas podem ser dirigidas por CEOs tiranos, com pouco interesse em tratar os empregados com humanidade.

No fim, o respeito é função mais da cultura organizacional que do tamanho. Por que a companhia de bebidas Innocent é regularmente votada como um dos melhores lugares para se trabalhar no Reino Unido, e por que ela tem uma rotatividade tão baixa entre seus duzentos empregados?

A resposta está menos em salários elevados do que em respeito elevado. Ela tem a reputação de tratar seus trabalhadores como seres humanos, oferecendo-lhes amplo aconselhamento para tomadas de decisão, fins de semana aventurosos na natureza, férias extras para quem está em lua de mel, cerveja gratuita nas tardes de sexta-feira e bolsas pessoais de desenvolvimento para eles poderem perseguir seu interesse fora do trabalho. Não raro o pessoal da companhia é avistado brincando com bambolês no estacionamento.

O respeito também emerge nas profissões mais inusitadas. O autor conhece uma pessoa que deixou de ser mecânico de refrigeração para se tornar embalsamador numa agência funerária. A razão pela qual ama seu trabalho é a grande e genuína valorização que recebe de pessoas por fazer seus entes queridos parecerem serenos, dignos e até bonitos. “Tenho uma pasta cheia de cartas de agradecimento de parentes”, contou.

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