Meta da Vida Simples: Lazer Criativo e Independência Financeira

Em Sobre A Arte De Viver,   Roman Krznaric cita: “Se nos consideramos afluentes, estamos errados”. Isso é o que diz o antropólogo Marshall Sahlins, ao afirmar, nos anos 1970, que as sociedades realmente afluentes eram as comunidades de caçadores-coletores.

Nosso desejo de bens de consumo nos compele a passar a maior parte de nossas horas de vigília trabalhando para pagar por eles, deixando-nos pouco tempo livre para a família, os amigos e os prazeres do ócio. Mas os aborígines no norte da Austrália e o povo indígena !Kung, em Botswana, trabalhavam apenas de três a cinco horas por dia para se sustentar, e, salienta Sahlins, “em vez de ser um trabalho contínuo, a busca de alimento é intermitente, abundante em lazer, e há maior quantidade de sono durante o dia per capita a cada ano que em qualquer outra condição na sociedade”.

Essa talvez tenha sido uma descrição excessivamente rósea do que era uma existência difícil e precária, em que o alimento estava muitas vezes longe da abundância, e a fome, nunca longe da mente. Não há nada de invejável na pobreza.

Apesar disso, a ideia de Sahlins ainda é pertinente: uma vez satisfeitas as nossas necessidades de subsistência, talvez estivéssemos em melhor situação se vivêssemos com mais simplicidade e dependendo de menos dinheiro.

Isso é especialmente relevante em uma época em que as jornadas de trabalho estão aumentando, e muitos sentem que o trabalho rouba tempo de outras partes de suas vidas.

A dificuldade em que nos encontramos é estranha, pois os vitorianos acreditavam que as jornadas de trabalho diminuiriam progressivamente à medida que a produtividade aumentasse, de modo que o grande dilema para as gerações futuras – para nós – seria como ocupar o tempo ocioso. Como expressou o economista John Maynard Keynes num ensaio otimista publicado em 1930, “Economic possibilities for our grandchildren”, o principal desafio a ser enfrentado pelo homem no futuro seria “como usar sua liberdade de preocupações econômicas prementes, como ocupar o tempo disponível que a ciência e o juro composto terão ganhado para ele, para viver com sabedoria, agradavelmente e bem”.

Se Keynes ao menos estivesse certo… Sem dúvida é verdade que desde 1900, aproximadamente, até os anos 1980, as jornadas de trabalho diminuíram tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Nas duas últimas décadas, porém, essa tendência foi invertida. Em 1997 os Estados Unidos superaram o Japão como o país com as mais longas jornadas de trabalho no mundo industrializado, com uma média de 47 horas por semana.

Em toda a Europa Ocidental as jornadas de trabalho aumentam, em particular no Reino Unido. O empregado em tempo integral típico na União Europeia trabalha quarenta horas por semana, ao passo que no Reino Unido o número é de 44 horas, e os empregados ali têm maior probabilidade que os suecos, franceses ou dinamarqueses de trabalhar mais de cinquenta horas por semana.

Esses números deixam também de registrar o modo como o trabalho vai conosco para casa muito mais que no passado: Keynes não fazia ideia de que poderíamos passar nossos fins de semana checando o telefone a todo momento para ver se há mensagens urgentes de trabalho.

Embora nós ocidentais estejamos trabalhando agora muito menos horas que no século XIX, e também quando comparados aos operários de fábrica em países em desenvolvimento, levantamentos mostram de maneira invariável que muitos sentem estar trabalhando arduamente demais e tempo demais.

Isso ocorre em parte porque eles notaram o aumento de suas jornadas de trabalho ao longo de um período relativamente curto, mas também em razão dos altos níveis de estresse, à medida que se exige dos empregados uma produção cada “vez maior em prazos cada vez mais exíguos. Um terço dos canadenses, por exemplo, descreve-se como workaholics.

Um estilo de vida mais simples, menos dispendioso, poderia ser a forma mais eficaz de nos libertarmos de nossa cultura de trabalho excessivo, bem como dos dilemas da ansiedade de status e de nosso vício de comprar. Mas como poderíamos nos libertar do consumismo e nos exercitar como especialistas na vida simples?

Que inspiração podemos extrair do passado, de modo que a simplicidade não seja uma matéria de mesquinha frugalidade, mas sim uma forma de tornar nossas vidas mais belas e dotadas de sentido?

A vida simples tem uma história venerável em quase todas as grandes civilizações. Sócrates acreditava que o dinheiro corrompia a mente e a moral, e que deveríamos buscar vidas de moderação material, em vez de nos encharcar de perfumes ou reclinar na companhia de cortesãs. Quando questionaram o sábio descalço sobre sua vida frugal, ele respondeu que gostava de visitar o mercado “para ver todas as coisas sem as quais sou feliz”.

A América colonial foi o refúgio de radicais religiosos que fugiam da perseguição na Europa e estavam decididos a estabelecer uma vida santa no Novo Mundo. Os mais conhecidos foram os puritanos, que pregavam a simplicidade e não admitiam a execução de música, os jogos de azar ou outras atividades imorais em seus lares.

Mas os verdadeiros radicais foram os quacres– oficialmente, a Sociedade Religiosa dos Amigos –, seita protestante cujos seguidores começaram a se estabelecer no vale do Delaware no século XVII. Além de serem pacifistas e ativistas sociais, eles acreditavam que a riqueza e os bens materiais nos distraíam do desenvolvimento de uma relação pessoal com Deus. Os primeiros quacres eram fanáticos em relação ao que chamavam de “simplicidade”. Era fácil distingui-los: eles usavam roupas escuras despojadas, sem enfeites, bolsos, fivelas, rendas ou bordados.

O culto da simplicidadenão durou muito. Como ocorreu com os puritanos, muitos quacres, não resistindo às tentações da terra da abundância, fundaram empresas de sucesso e entregaram-se a luxos proibidos.

1 thought on “Meta da Vida Simples: Lazer Criativo e Independência Financeira

  1. “Que inspiração podemos extrair do passado, de modo que a simplicidade não seja uma matéria de mesquinha frugalidade, mas sim uma forma de tornar nossas vidas mais belas e dotadas de sentido?”
    Excelente reflexão.
    Precisamos ter equilíbrio, para que a frugalidade não seja excessiva, tampouco o consumismo.

    Gostei das 2 imagens – inclusive foi através da 1º imagem que conheci seu site.

    Boa semana,
    Simplicidade e Harmonia

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