Filosofia Transcendentalista

Transcendente é um adjetivo colocado quando algo não é comum e está além dos limites convencionais, sendo considerado superior. O transcendente está além do conhecimento concreto e não se baseia somente em dados e conclusões metódicas.

Em Sobre A Arte De ViverRoman Krznaric, o autor conta: no século XIX, os Estados Unidos testemunharam o florescimento de experimentos utópicos de vida simples. Muitos tinham raízes socialistas, como a efêmera comunidade fundada em 1825, em New Harmony, Indiana, por Robert Owen, reformador social galês e fundador do movimento cooperativo britânico.

Outros foram inspirados pela filosofia transcendentalista do poeta e ensaísta Ralph Waldo Emerson. Ele pregou a simplicidade material como caminho para:

  1. a verdade espiritual,
  2. a autodescoberta e
  3. a união com a natureza.

Enquanto os quacres viviam segundo seus ideais em uma comunidade religiosa cheia de normas e regulamentos, os transcendentalistas eram muito mais apóstolos do individualismo. O mais famoso deles, até hoje um ícone para adeptos da vida simples no mundo todo, foi uma personalidade um tanto irascível, com certa queda por trocadilhos infames e a desobediência civil: Henry David Thoreau.

Após completar seus estudos em Harvard, em 1837, Thoreau rejeitou carreiras tradicionais como os negócios ou a Igreja, preferindo trabalhar como professor, carpinteiro, pedreiro, jardineiro e agrimensor. Desprezava o crescente mercantilismo na Nova Inglaterra e encolerizou-se quando, ao tentar comprar um bloco em branco para anotar seus pensamentos poéticos, a única coisa que conseguiu encontrar foi um livro-razão pautado para contabilidade financeira.

O dinheiro estava colonizando a mente americana. A reação de Thoreau foi tornar-se defensor da “simplicidade, simplicidade, simplicidade”.Sua grande oportunidade ocorreu em 1845, quando Emerson lhe ofereceu o uso de umas terras em Walden Pond, perto da cidade de Concord, em Massachusetts, onde ele poderia pôr seus ideais à prova.

Durante dois anos Thoreau viveu sozinho numa cabana de 3 × 4,5 metros na mata, construída por ele próprio ao custo de US$ 28,12 – menos do que pagava por um ano de aluguel em Harvard. Ela continha pouco mais que uma cama, uma escrivaninha, algumas cadeiras e os livros favoritos.

“Fui para a mata porque desejava viver de maneira reflexiva”, registrou ele em Walden, “queria viver profundamente e sugar toda a seiva da vida, viver de maneira tão resoluta e espartana que rechaçasse tudo que não fosse vida, abrir um caminho largo e bem-roçado, simples e ordeiro, encurralar a vida e reduzi-la a seus termos mais elementares.”

Dessas manhãs tranquilas e das tentativas de autossuficiência germinou uma filosofia da simplicidade. “Estou convencido, tanto por fé quanto por experiência, que nos mantermos nesta terra não é uma dificuldade, mas um passatempo, se vivermos com simplicidade e sabedoria”, escreveu.
Um homem é rico na proporção do número de coisas de que é capaz de abrir mão.” Enquanto os quacres pregavam austeridade e abstinência, a inovação de Thoreau foi mostrar como uma vida simples podia ser enaltecedora e arrebatadora em sua beleza.

Hoje a aventura de Thoreau parece um sonho utópico: não podemos todos partir e construir uma cabana no meio do mato. Mas Thoreau nunca pensou que a vida simples significava abandonar a civilização. Na verdade, sua cabana ficava cerca de 1,5 quilômetro de Concord, e, como admite francamente emWalden, ele ia lá com poucos dias de intervalo, para ouvir os mexericos locais e ler os jornais.

Thoreau era pragmático e acreditava que podíamos aprender a dar as costas para a economia do dinheiro continuando ao mesmo tempo a conviver com a sociedade comum. Nossa verdadeira tarefa era evitar as tentações do consumismo e nos entregar a prazeres de baixo custo como:

  1. observar o pôr do sol,
  2. conversar com pessoas interessantes,
  3. ler os clássicos e
  4. pensar.

Sua estada em Walden Pond foi menos uma busca espiritual que um esforço para aprender a viver com tão pouco dinheiro quanto possível, de modo a minimizar as horas de trabalho e maximizar o tempo de lazer. E nisso teve êxito.

Hoje, os herdeiros de seu legado são menos os sobreviventes sozinhos no meio do mato e mais os moradores de cidades pequenas e grandes disciplinados o suficiente para reduzir suas despesas a tal ponto de modo a lhes bastar trabalhar três ou quatro dias por semana. Como Thoreau, eles descobriram que a simplicidade é um caminho para ganhar o que no Ocidente sobrecarregado de trabalho tornou-se uma das formas mais valiosas de afluência e riqueza: o próprio tempo.

É compreensível, em uma cultura voltada para o desfrute de bens de consumo de luxo, a posição social estar tão estreitamente relacionada a exibições de riqueza. Muitos relutam em abraçar um modo de vida mais frugal.

Para a maioria de nós, a ansiedade pelo status é uma sombra que obscurece as possibilidades da vida simples. Dificilmente conseguimos evitar o desejo de ficar à altura dos que nos parecem bem-sucedidos, sejam eles vizinhos, colegas de trabalho, ex-colegas de escola ou uma família idealizada, inventada pela indústria da publicidade ou pela TV, e escondida no fundo de nossas mentes.

“Nunca tente subir até o nível dos que lhe parecem bem-sucedidos. Faça-os descer até o seu. É mais barato.”

A realidade é que provavelmente não se pode puxá-los para o nosso nível. Que podemos fazer, então? Comparar-nos com outras pessoas. [Ou melhor, não comparar, pois quem compara perde.]

Uma das liberdades mais poderosas que possuímos, no que diz respeito a nosso senso de valor social, é a de escolher com quem nos comparamos.

Ninguém determina quem cada um de nós deve escolher como par. Temos liberdade até para imaginar que eles incluem os fantasmas de adeptos da vida simples do passado, como Thoreau, Woolman ou Gandhi. É pouco provável eles se incomodassem se você lhes servisse uma refeição em pratos desemparelhados.

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