Vida Comunitária e Relações de Afeto

Em Sobre A Arte De ViverRoman Krznaric deduz a vida simples envolver mais que:

  1. reduzir as próprias despesas diárias ou
  2. repensar os próprios termos de comparação social.

É também uma questão de vida comunitária.

O florescimento humano é algo que dificilmente se alcança sozinho. Um dos resultados deletérios da ideologia consumista foi encorajar uma cultura extrema de individualismo possessivo, em que estamos interessados nos nossos próprios prazeres e de olho no Número Um.

No Ocidente, o único objetivo é acumular riqueza pessoal e propriedades. Cinquenta e cinco por cento dos americanos com menos de trinta anos pensam que acabarão ficando ricos. “E se você vai ser rico, para que precisa de qualquer outra pessoa?”

Essa obsessão pelo interesse pessoal nos cegou para o papel que a comunidade desempenha na criação de vínculos sociais que muito contribuem para o nosso senso de bem-estar. Deveríamos lembrar o que Aristóteles nos disse: somos animais sociais, tão gregários quanto abelhas.

O problema é uma associação de forças, entre as quais, a suburbanização, as longas jornadas de trabalho, a televisão e o próprio impulso consumista, erodiram a vida cívica em todo o mundo ocidental. Mal conhecemos nossos vizinhos, fazemos compras em hipermercados sem rosto e não temos mais tempo para cantar no coral. Dada a incapacidade do materialismo de consumo elevar nosso nível de bem-estar pessoal, seria uma medida sábia recuperar a vida comunitária.

O que muitas pessoas não percebem é que isso pode ser extraordinariamente barato. Na verdade, poupa o nosso dinheiro sem precisarmos mais extrair tanta sustentação existencial de dispendiosas expedições às compras.

Algumas atividades comunitárias são projetadas em parte para propiciar economia de dinheiro, como:

  1. o ingresso em círculos de pessoas que se revezam para tomar conta de crianças,
  2. os clubes de compartilhamento de carros ou
  3. as redes de permuta de tempo.

Outras, por acaso, são pouco dispendiosas, como:

  1. fazer música com amigos na sala de estar,
  2. conhecer pessoas de diferentes culturas na horta comunitária e
  3. nos oferecer como voluntário para trabalhar em um hospital para doentes terminais ou como chefe de um grupo de bandeirantes.

Cercamo-nos, assim, de uma teia de relações humanas. Ela nos sustenta pelo menos tanto quanto um fim de semana fora, em um hotel suntuoso.

É curioso Thoreau não ter enfatizado a importância da comunidade para sugarmos toda a seiva da vida. Isso talvez ocorresse porque ele não sentia sua ausência, vivendo perto de uma pequena vila onde conhecia tantos moradores quando andava pela rua principal.

Mas se pudesse observar as vidas isoladas e hiperindividualistas da maioria, hoje, ele recomendaria uma saudável dose de imersão comunitária. Oferece a perspectiva de uma vida profunda sem serem necessárias idas regulares ao caixa eletrônico.

Podemos, portanto:

  1. reduzir os gastos com luxos,
  2. evitar comparações com os mais prósperos e
  3. redescobrir nossas raízes comunitárias.

Mas podemos extrair da história do dinheiro uma lição final para a arte da vida simples: expandir os espaços gratuitos, livres de dinheiro, em nossa vida.

Imagine traçar um quadro de todas aquelas coisas que tornam sua vida satisfatória, dotada de sentido e prazerosa. Ele poderia incluir amizades, parentes, estar enamorado, as melhores partes de seu trabalho, visita a museus, artesanato, ativismo político, prática de esportes e de música, trabalho voluntário, viagem e observar pessoas.

Há uma boa chance de que as coisas mais valiosas entre estas custem muito pouco ou sejam até gratuitas: não custa muito caminhar à margem de um rio com seu amigo mais próximo.

“As melhores coisas da vida não são coisas.”O que Thoreau e outros amantes da simplicidade sugeririam é que tivéssemos em vista, ano após ano, aumentar essas áreas de vida gratuita e simples no mapa de nossa existência. Que as deixássemos tomar o espaço antes ocupado por férias dispendiosas no exterior ou peças de butique para nosso guarda-roupa.

Reduzir o papel do dinheiro em nossas vidas e livrar-nos da dependência dele não significa que ficaremos privados de luxos. A palavra “luxo” vem do termo latino “abundância”.

Fomos ensinados a pensar nele em termos materiais – vinhos finos, carros velozes, viagens de primeira classe. Mas podemos também ter uma abundância de relacionamentos íntimos, trabalho significativo, dedicação a causas, gargalhadas incontroláveis e sossego para sermos nós mesmos.

Não há lojas que vendam esses luxos, nem é possível comprá-los com os ganhos provenientes de um bilhete de loteria. No entanto, esses são os luxos que, em última análise, mais importam para nós e constituem nossa riqueza oculta.

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