Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda

“Caminhos de Sérgio Buarque de Holanda”é um artigo de Robert Wegner publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O movimento modernista portava uma confiança no processo de modernização do país. Não demandaria um rompimento com a tradição, pois esta seria passível de ser atualizada, assemelhando-se à cultura europeia, tida como modelo de civilização.

Esse movimento renovador passou por um abalo com a publicação no Correio da Manhã, em 1924, do Manifesto Pau-Brasil, de autoria de Oswald de Andrade, sob inspiração surrealista. Vista por essa senda, a tradição poderia se modernizar, mas, ao mesmo tempo que incorporasse elementos da cultura europeia, subverteria o próprio modelo de civilização.

Nessa dinâmica de incorporar transformando, a tradição lançava uma interrogação sobre o valor da cultura europeia. Além da afirmação da autenticidade, essa postura chega a sugerir que a experiência brasileira produziria uma alternativa de civilização.

Assim, desde 1924, é possível vislumbrar duas tendências no modernismo. No entanto, o movimento não chegou a cindir-se. A essa altura, SérgioBuarque de Holanda era um jovem reconhecido e atuante nos meios literários. Ocupando um lugar de referência na reflexão modernista, escreveu o artigo “O lado oposto e outros lados”, publicado na Revista do Brasil, em outubro de 1926, em que explicitava a divisão e tomava partido.

Chamou de construtivistas os que defendiam que o papel do modernismo era a atualização da tradição em relação à cultura europeia e considerou Mário de Andrade como representante dessa tendência. Contudo, o que o país necessitava era dar vazão a sua espontaneidade, maneira pela qual poderia alcançar uma modernidade particular, diferente da europeia. Era preciso escutar a tradição, não educá-la. Oswald seria o principal representante desta segunda corrente, defendida por Sérgio.

Em viagem ao Espírito Santo, em 1927, escritor anotou que o estado capixaba, formado por uma população de imigração recente, do fim do século XIX, já podia ser considerado autenticamente brasileiro. Refletiu sobre essas impressões a partir das questões formuladas nos embates do modernismo. Pensou que a natureza da região desaprovava o estilo de civilização que o mundo europeu nos transmitiu, e imaginou uma nova síntese, ainda imprevisível, entre a herança da cultura europeia e o espírito da terra.

Desde os tempos da revista Estética, Sérgio nutria o projeto de escrever um ensaio histórico-sociológico intitulado Teoria da América, que, na Alemanha, começou a ganhar forma mais definida e condições de ser realizado. Depois de Getúlio Vargas chegar ao poder, Sérgio retornou ao Brasil no final de 1930, trazendo na bagagem em torno de quatrocentas páginas manuscritas de seu acalentado projeto.

Se Getúlio assumiu com amplo apoio em torno da crítica ao poder pulverizado entre os estados e suas oligarquias, seus primeiros anos de governo não tiveram um programa político claramente definido, ainda que tenha promovido o crescimento do ritmo de industrialização e urbanização. Nesse tempo, Sérgio retomou seu trabalho de tradutor e prosseguiu com seu projeto, publicando, em março de 1935, na revista Espelho, “Corpo e alma do Brasil: ensaio de psicologia social”. Este ensaio deu origem a dois capítulos de Raízes do Brasil, escrito sob o impacto da obra de Gilberto Freyre e da modernização dos anos 1930.

Raízes do Brasil, publicado em 1936, é um livro sobre os dilemas da modernização brasileira. O autor faz uma interpretação histórica do país, partindo de uma análise do nosso legado ibérico até a definição da cultura brasileira como marcada pela cordialidade.

O “homem cordial” age a partir dos sentimentos que brotam diretamente do coração sem um filtro de racionalidade. Nesse sentido, por exemplo, não trata com isenção amigos e inimigos, favorecendo em qualquer circunstância os primeiros em detrimento dos outros. Por isso, para o autor, a cordialidade é inadequada ao funcionamento da democracia e da burocracia, que exigem normas e leis abstratas que sejam aplicadas a todos da mesma forma.

Concomitantemente, Sérgio Buarque também diagnostica um lento, mas contínuo processo de mudanças na sociedade brasileira, iniciado com a transferência da corte para o Brasil em 1808. Esse processo passa pelo fim do tráfico de escravos em 1850, ganhando força com a abolição da escravidão em 1888 e, posteriormente, com o próprio governo Vargas. As mudanças se dão na direção da urbanização, imigração de europeus e industrialização, e significam a corrosão gradual do predomínio rural, que, na verdade, seria a fonte alimentadora da cordialidade.

Desse modo, ao mesmo tempo que concentra no “homem cordial” a marca da cultura brasileira, Sérgio Buarque afirma que essa característica está em franco processo de diluição. Contudo, o resultado final desse processo não é claro, pois a modernização não traz por si só uma racionalidade que filtre os sentimentos que transbordam do coração e transforme os brasileiros em homens de civilidade.

Na trajetória de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil é um balanço de sua militância modernista. Nesse momento, o autor desconfia da corrente de Mário, que defende que a tradição brasileira pode ser modernizada numa solução de continuidade. Diferentemente, nos termos do livro, não enxerga um processo em que a cordialidade se transformasse em civilidade. E também se desavém com a tendência de Oswald, segundo a qual a cultura nacional poderia fundamentar uma nova modernidade: para Sérgio, a cordialidade não pode sustentar qualquer civilização, que exige algum tipo de racionalidade e abstração.

De todo modo, Raízes do Brasil é fundamentalmente um ensaio que testa possibilidades e expõe tensões do nosso processo de modernização. Era comum em livros da época uma interpretação histórica do Brasil vir acompanhada de um claro projeto político. Diferentemente, Sérgio Buarque não pretende apresentar um programa com as supostas soluções para os dilemas brasileiros.

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