Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior

“Caio Prado Júnior e o Lugar do Brasil no Mundo”é um artigo de Bernardo Ricupero publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Caio da Silva Prado Júnior nasce em 1907, numa das mais importantes famílias da burguesia cafeeira de São Paulo, os Silva Prado. Sua infância e juventude são as de alguém de sua classe. A educação, em particular, fica a cargo de governantas estrangeiras, colégios tradicionais, uma temporada na Inglaterra e o curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco.

Na faculdade, começa a ter atuação política. Ingressa no Partido Democrático, que reúne, num programa liberal e moralizante, membros da oligarquia e das camadas médias paulistas descontentes com a orientação da Primeira República. Naturalmente, a Revolução de 1930 é recebida com entusiasmo pelo jovem advogado.

No entanto, logo vem a decepção e, com ela, a radicalização política. Torna-se, assim, em 1931, membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Tal decisão é um marco na vida de Caio Prado Júnior. Por conta dela, estuda o Brasil para transformá-lo; conhece inúmeras prisões e o exílio; funda a editora e a Revista Brasiliense; chega a vice-presidente da seção paulista da Aliança Nacional Libertadora (ANL); é eleito deputado estadual; além de se dedicar às tarefas mais humildes da militância.

Mas apesar da dedicação, as posições de Caio Prado Júnior no PCB são quase sempre marginais. Quando morre, em 1990, já está afastado do partido.

Muitas de suas teses se tornaram tão difundidas que quase mais ninguém reconhece que ele foi seu autor. Hoje, por exemplo, poucos acreditam no passado feudal do Brasil. Em compensação, a história ensinada nas escolas é de modo a colonização do país ser entendida no quadro da expansão marítima europeia.

Paradoxalmente, a difusão da análise do historiador paulista serve até para desvalorizá-la. Como já não se duvida de que a razão de ser do Brasil foi, desde sempre, produzir em lugares com péssimas condições de trabalho bens demandados pelo mercado externo, pode-se ressaltar o pretenso economicismo do autor da formulação.

No entanto, a recepção original das teses de Caio Prado Júnior esteve longe de ser fria. Em pleno período stalinista, um artigo que escreveu para o IV Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCB), que deveria ser realizado em 1948, mereceu do secretário político da célula “Gávea Vermelha”, Ivan Pedro Martins, o vaticínio: “negar, sem provar, a existência de restos feudais em nossa economia […] é clara “manifestação do que se pode chamar de ideologia estranha ao proletariado, infiltrada no partido”. Em sentido oposto, boa parte da riqueza da interpretação de Caio Prado Júnior provém de sua associação com o marxismo.

Diferentemente do marxismo dominante no Brasil e na América Latina, próximo aos Partidos Comunistas (PCs) estalinistas, Caio Prado Júnior não viu o materialismo histórico como um conjunto de fórmulas com pretenso valor universal. Ele não aceitou automaticamente a aplicação ao Brasil das teses da Internacional Comunista (IC) sobre os chamados “países coloniais, semicoloniais e dependentes”.

Todos os países que se encontrassem nessa condição genérica deveriam, como teria ocorrido na Europa, realizar revoluções burguesas para dar fim a supostos resíduos feudais. Dessa maneira, acreditava-se que:

  1. se promoveria o desenvolvimento do capitalismo e
  2. se prepararia o terreno para a adoção do socialismo.

Caio Prado Júnior também não trilhou outro caminho bastante comum na utilização do marxismo no Brasil e na América Latina, identificado, grosso modo, com o que ficou conhecido como populismo. Os autores próximos a essa perspectiva defendiam que a teoria, no caso o marxismo, deveria se adaptar à realidade. Nessa operação, porém, a teoria corre o risco de se tornar irreconhecível e desnecessária.

Se o marxismo fosse capaz de absorver qualquer forma referente às mais variadas sociedades, não mais seria marxismo, nem mesmo teoria, mas apenas uma expressão quase não mediatizada da realidade. Assim, a maneira particular de abordagem, aquilo que o torna marxismo, se diluiria no seu objeto.

Caio Prado Júnior não deixa de acreditar no valor universal do marxismo, mas o vê como uma abordagem capaz de analisar as particularidades constitutivas de variadas sociedades.Encara o marxismo como método para a interpretação de diferentes experiências históricas. Dessa maneira, realiza uma “nacionalização do marxismo”, a tradução dessa teoria para as condições de uma realidade específica, a brasileira.

A tradução do marxismo às condições brasileiras, realizada pela obra de Caio Prado Júnior, se dá mediante a atenção a uma questão central: a relação entre colônia e nação. Esse é seu grande tema, a constante atenção à relação entre colônia e nação fazendo com que a obra do historiador paulista tenha uma indiscutível unidade. A preocupação com esse problema sugere, além do mais, um dos eixos principais da reflexão do autor: a transição entre a situação colonial e a situação nacional.

Mas tanto sua análise da colônia, como sua defesa da formação da naçãoe a percepção dos impasses da transiçãosão fortemente influenciadas pelo marxismo.

  • Ao tratar da colônia, considera como totalidades o conjunto formado por ela e seu elemento mais importante — a grande exploração.
  • Já sua defesa de que o Brasil se torne uma nação integrada é inspirada pela insistência da IC de que a “luta nacional anti-imperialista”deveria ser o eixo de atuação do movimento socialista em face da derrota da revolução na Europa ocidental.
  • Mesmo a análise da transição entre colônia e nação não deixa de guardar semelhanças com outras interpretações marxistas sobre situações semelhantes, como a de Vladimir Lênin sobre a Rússia czarista e a de Antonio Gramsci sobre a Itália saída da unificação.

Caio Prado Júnior, ao perceber tão bem os obstáculos legados pela colônia na constituição de uma nação integrada, acaba subestimando certos sinais de superação do passado. O mais importante deles é a industrialização, que não é suficientemente valorizada pelo historiador.

Em razão de boa parte da produção industrial estar destinada à satisfação da demanda por bens de luxo de setores reduzidos da população, de a indústria depender de saldos positivos do balanço comercial, garantidos pela exportação dos mesmos produtos primários de sempre, além de parcela significativa das firmas instaladas no Brasil serem subsidiárias de empresas transnacionais, não vê maior importância no fenômeno. A industrialização, para ele,não muda o que é mais significativo da vida brasileira. Esta continuaria a ser plasmada pelo sentido da colonização.

É inegável que o Brasil se transformou profundamente com a industrialização, mudança à qual Caio Prado Júnior não confere a devida importância. Mas a razão que faz com que não perceba a transformação representada pela industrialização reside precisamente na sua aguda compreensão do peso do passado colonial no país. Ao chamar a atenção para a maneira como o Brasil se constituiu em função de necessidades estranhas à sua população, o analista tem, muitas vezes, dificuldade de perceber como, não obstante esse vício de origem, tal orientação não deixa de se transformar lentamente.

Ao enfatizar a ligação do Brasil com o resto do mundo, Caio Prado Júnior muda a própria linha de reflexão sobre o país. Antes dele, a maior parte das “interpretações do Brasil” se preocupava principalmente com as características internas da nossa sociedade. Tal atitude estava presente tanto nas formulações comunistas sobre o feudalismo, questionadas pelo historiador paulista, quanto nas análises sobre a presença do patriarcalismono Brasil. Apesar de todas as diferenças entre essas interpretações, não havia nelas grande espaço para se pensar o lugar do Brasil no mundo.

Com Evolução Política do Brasilmuda a perspectiva da análise. Na verdade, este livro, assim como os demais de seu autor, os trabalhos de Roberto Simonsen, os estudos da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), as teses da teoria da dependência etc., são expressão de um novo clima de opinião. Se, desde a independência, a questão fundamental para o Brasil e as demais nações latino-americanas era afirmar sua individualidade, a partir da crise de 1929 e do segundo pós-guerra não se pode mais subestimar a importância da relação dos países da região com o resto do mundo.

Nessa orientação, o que Caio Prado Júnior chamou de “sentido da colonização” talvez represente a formulação mais sintética que se propôs a respeito de países como o nosso: o Brasil se constituiu para produzir, em grandes unidades com péssimas condições de trabalho, bens demandados pelo mercado externo. Prova da perspicácia da análise é que ainda hoje continuamos a nos perguntar: como poderemos enfim superar a colônia?

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