Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes. Vocação Científica e Compromisso de Vida” é artigo assinado por Maria Arminda do Nascimento Arruda” publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O sociólogo Florestan Fernandes refletiu a imagem genuína da formação oferecida por seus professores, no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, especialmente dos franceses que dele fizeram parte, mas também assimilou as orientações recebidas na Escola de Sociologia e Política, onde defendeu o mestrado em 1949. Florestan transformou-se no principal artífice da moderna sociologia brasileira, traduzida na estilização do modelo de intelectual rigoroso, capaz de dominar os seus meios expressivos, detentor de um saber comprometido com a agenda coletiva, mas de recusa a “orientações estritamente políticas”.

Em Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, de 1960, o sociólogo admite a utilização de medidas intervenientes na correção de situações coletivas, sem, no entanto, reduzir o pensamento em “plano imediato da ação”. Comungava, portanto, das ideias de Karl Mannheim, sociólogo influente nos meios cultos do Brasil, dada a centralidade que conferiu aos intelectuais na formulação de instrumentos de planejamento. Não foi por casualidade que as Ciências Sociais brasileiras privilegiaram o tema da mudança social e do desenvolvimento nacional.

Apesar da personalidade compulsivamente voltada à aquisição de cultura, Florestan foi também fruto das benesses concedidas pelos dominantes àqueles que se distinguem por seus atributos singulares. Na infância, recebeu a proteção e o amparo da sua madrinha, patroa de sua mãe, para adquirir as primeiras letras. No final da adolescência, foi indicado por um cliente do bar no qual era garçom, para representar um laboratório de medicamentos em consultórios médicos. Na sequência, recebeu descontos ponderáveis na mensalidade do colégio onde havia se matriculado, por interveniência de amigos da sua madrinha e de outro frequentador do bar. Durante o curso universitário, foi apresentado pelo professor Roger Bastide a Sérgio Milliet, personalidade influente nas rodas intelectuais de São Paulo. Ele o convidou para ser colaborador regular do jornal O Estado de S. Paulo.

O percurso inicial de Florestan repetiu outras histórias de vida originárias das classes populares, de pessoas que dependem do favor concedido por um superior para situar-se na cena social, como bem revelou Roberto Schwarz a propósito da análise do romance machadiano. Oriunda do passado escravista, a relação do favorespelhava tanto os limites da nossa modernidade quanto uma vida social que não havia superado a tradição.

As análises de Florestan sobre a constituição da moderna sociedade de classes no Brasil trataram, exatamente, dos impasses inerentes a um processo de modernização sem vigor para superar o legado do passado. A fraqueza do moderno acabou por bafejar a tradição com um sopro de vida, quando a ela se combinou.

Segundo o seu diagnóstico, o sistema educacional brasileiro não respondia aos imperativos de uma sociedade em processo de modernização, representando um obstáculo às mudanças em curso, caracterizando-se como um fenômeno de “demora cultural”. A aprovação no Congresso de um projeto conservador repercutiu na atitude de franco ceticismo a percorrer as reflexões seguintes, sintoma da descrença nas reais possibilidades de se “forjar nos trópicos esse suporte de civilização moderna”, como sentenciou ao final de A integração do negro na sociedade de classes, editado em 1964.

Situando a problemática do negro na passagem da sociedade escravista para a sociedade de classes, o sociólogo analisa as relações raciais no prisma da dinâmica global da modernização brasileira, acentuada na cidade de São Paulo. A rápida transformação urbana, ocorrida entre o final do século XIX e o começo do século XX, impossibilitou a inserção do negro e do mulato no estilo urbano de vida, por não possuir recursos para enfrentar a concorrência dos imigrantes.

Para acompanhar as suas categorias, a heteronomiapresente na “situação de castas” impediu aos negros assimilar as potencialidades oferecidas pela “situação de classes”. Resulta desse processo o “desajustamento estrutural”, a “desorganização social”, típicas da condição dos descendentes dos africanos, relegados a viver um estado de marginalidade social, verdadeiros proscritos das conquistas civilizadas.

O preconceito e outras expressões de discriminação exerceram a função “de manter a distância social” e de reproduzir o “isolamento sociocultural”, tendo em vista a preservação das “estruturas sociais arcaicas”. O ritmo intenso da história em São Paulo produziu forte descompasso entre a ordem social(mais sincronizada com as transformações da estrutura econômica) e a ordem racial(de ajustamento mais lento às mudanças), permanecendo como uma espécie de “resíduo do antigo regime”, cuja eliminação futura adviria dos “efeitos indiretos da normalização progressiva do estilo democrático de vida e da ordem social correspondente”.

Explicita-se, nessas passagens, o entendimento da particular realização da sociedade moderna no Brasil, enquanto um processo complexo e de resultados híbridos, uma vez que, a despeito do ritmo das transformações, padece de uma sorte de fraqueza congênita, comprometendo todo o seu desenvolvimento ulterior.

As análises sobre a herança da escravidãoinseriam-se, dessa maneira, na busca de compreender como os fundamentos da sociedade brasileira produziam bloqueios à plena consecução de princípios civilizados, verdadeiros anteparos à pura modernidade capitalista. O projeto de investigar o papel das relações escravistas no Brasil na constituição da sociedade nacional desdobrou-se nos trabalhos escritos por seus assistentes, como Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Maria Sylvia de Carvalho Franco, entre outros colaboradores. A articulação dos temas de pesquisa deu frutos e produziu afinidades intelectuais ao grupo reunido por Florestan, justificando a identificação posteriormente sintetizada na expressão Escola Paulista de Sociologia, apesar das diferenças entre os participantes.

Com a entrada definitiva dos sociólogos paulistas no debate sobre o desenvolvimento do país, embora de forma diversa à dos cientistas sociais vocalizadores dos projetos de desenvolvimento nacional, como ocorria no meio dos cientistas sociais do Instituto Superior de Estudos Brasileiros — ISEB, sediado no Rio e patrocinado pelo Estado. A criação do centro paulista, ao lado da vitalidade do ISEB e da experiência inovadora ensaiada pelo curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FACE-UFMG), demonstrava o vigor e a relevância adquiridos pelas Ciências Sociais no Brasil do pós-guerra. Havia um clima de franca aposta no desenvolvimento dos países latino-americanos, no qual a CEPAL era exemplo contundente.

As análises sobre o desenvolvimento no Brasilentraram mais tardiamente na agenda de pesquisa da Escola Paulista de Sociologia. Embora estivessem pressupostas nos temas que trataram da formação do capitalismo, da constituição da sociedade moderna, da modernização, nos estudos sobre as comunidades, enfim, eram inerentes ao pensamento da mudança social. A rigor, os trabalhos de Florestan sobre teoria e métodos de pesquisa e sobre a necessidade de se aprimorar o caráter científico da Sociologia derivavam das preocupações comos princípios da racionalidade moderna no tratamento da vida social.

O diálogo dos paulistas com a agenda desenvolvimentistaocorreu de modo diverso da perspectiva isebiana. De saída, a questão do desenvolvimento nacional e da autonomia da nação era marginal às análises, sendo interessante comparar as duas vertentes de interpretação do tema:

  1. o ISEB e a agenda pública do desenvolvimento nacional;
  2. a USP e as pesquisas sobre os dilemas e impasses do desenvolvimento, tendo como foco a esfera social.

A abordagem uspianaera tributária do privilégio do específico sociológico,secundarizando a dimensão política. Areflexão do ISEBpercorria exatamente o sentido contrário.

Acrescente-se a importância do chamado Seminário de Marx— que congregou assistentes de Florestan e outros jovens professores da Faculdade de Filosofia, organizado em 1958 — na orientação das análises do grupo. Embora o mestre não tenha participado do seminário, é visível como dialogou com a nova geração, ocorrendo uma acentuação do materialismo histórico nas suas reflexões, embora não exclusiva. Florestan tinha domínio da obra de Marx, tendo escrito uma introdução para a edição em português de Contribuição à Crítica da Economia Política, em 1946.

A radicalização das propostas desenvolvimentistasacontecia em todos os campos da sociedade brasileira, dividindo posições e separando aliados, construiu a imagem de grupo identificado com as bandeiras da esquerda. De fato, a crise e os impasses do desenvolvimento suscitavam a descrença em relação à constituição no Brasil de um capitalismo com projetos civilizatórios, realidade confirmada pelo golpe militar de 1964, seguido das cassações e aposentadorias compulsórias, atingindo, em 1969, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e tantos outros.

Para Florestan, o afastamento da universidade foi fatal, acontecimento que jamais parece ter superado integralmente, porque o atingiu no momento de plena maturidade intelectual. Os efeitos do arbítrio foram cristalizados na memória da socióloga Heloisa Fernandes, no fato de seu pai jamais ter voltado a trabalhar no seu antigo escritório.

A obra A Revolução Burguesa no Brasil. Ensaio de Interpretação Sociológica, publicada em 1975, é testemunho vivo da sua trajetória intelectual e das posições assumidas. Reflexão de grande vulto, voltada à análise do processo histórico de formação da sociedade burguesa no Brasil, cobre um largo período da independência ao pós-golpe militar de 1964. Partindo das categorias tipológicas de “burguês”, “burguesia” e “revolução burguesa”, busca as mesmas referências na história do país, para discutir as modalidades da formação da sociedade de classes e da revolução burguesa no Brasil.

Estruturado em três partes, o livro caminha no sentido de configurar os dilemas e impasses:

  1. de uma revolução burguesa impotente,
  2. de uma burguesia que não cumpriu a sua missão de construir a nação,
  3. de uma classe que não tornou as suas orientações valorativas dominantes.

Ela se combinou às formas estamentais, em suma, de um agente histórico incapaz de coordenar o seu papel em consonância com a sua posição. Resulta, daí, o domínio de um “regime de classes sociais” que excluiu os componentes políticos e socioculturais característicos, abrindo espaço para:

  1. a dominação autocrática,
  2. o imperialismo,
  3. um capitalismo carente de realizações civilizadas.

A envergadura da análise filia o livro à tradição das obras fundamentais de interpretação do Brasil, paradoxalmente completada no momento em que as suas escolhas se afastavam da universidade.

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