Considerações de Conceição Tavares sobre Poupança, Crédito e Ciclo de Endividamento

Paulo César das Neves Sanna Robilloti, em sua dissertação de mestrado pelo IE-UNICAMP, O Desenvolvimento Capitalista na Obra de Maria da Conceição Tavares: Influências Teóricas, Economia Política e Pensamento Econômico, dedica uma seção a alguns esclarecimentos teóricos feitos por Tavares acerca do problema da poupança, do consumo e do crédito. A militância teórica da autora insere-se no repúdio das interpretações neoclássicas de os problemas de crescimento das economias capitalistas se deverem à insuficiência de poupança. Neste sentido a sua abordagem teórica parte tanto de Keynes como de Steindl-Kalecki.

A poupança e o investimento são agregados macroeconômicos, mas não se igualam na mesma temporalidade, isto é, de modo estático. Esta igualdade se dá ao longo de um processo dinâmico, variável ao longo do tempo, no qual primeiro os capitalistas investem e lucram, e ex-post constatam o resíduo entre o fluxo de renda gerado e o fluxo de consumo. Esta visão de resíduo contábil ex-post está presente em Keynes, após considerar a crítica recebida da Escola de Estocolmo. Mas Tavares procura explicitá-la com referência a Kalecki, ou melhor, à máxima “os capitalistas ganham o que gastam”.

Os capitalistas gastam em investimento e em consumo. É seu nível de demanda efetiva o determinante do montante gerado de lucros em um período de produção. Não podem decidir o que lucrarão, pois desconhecem o futuro, ou seja, a resultante da pluralidade de decisões individuais no sistema. Só podem decidir o que gastam, e, em particular, o que investem.

Os lucros dependem do ritmo dos investimentos já realizados nos períodos anteriores. Quanto mais investem “no presente” mais lucrarão no “futuro” e, portanto, mais poderão “poupar” no tempo. Daí o aparente paradoxo de uma leitura keynesiana registrar a igualdade entre Poupança e Investimento. Mas não a priori, mas sim a posteriori. Na realidade, em termos dinâmicos, quanto mais gastam (hoje) mais “poupam” (depois) e quanto mais poupam (hoje) menos lucram, isto é menos poupam efetivamente (depois). Continue reading “Considerações de Conceição Tavares sobre Poupança, Crédito e Ciclo de Endividamento”

Ao vencedor as batatas: um mestre na periferia do capitalismo e as ideias fora do lugar

Roberto Schwarz: Entre Forma Literária e Processo Social” é artigo assinado por Leopoldo Waizbort, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Roberto Schwarz garantiu seu lugar na galeria dos intérpretes do Brasil em virtude de uma análise de Machado de Assis, segundo a qual Machado teria desenvolvido em seus romances a mais consumada interpretação do Brasil de seu tempo — e para além dele.

Schwarz, para uns sociólogo, para outros crítico literário, publicou sua análise dos romances de Machado em dois livros complementares, escritos no intervalo de alguns anos:

  • o primeiro em 1977 — Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro—, e
  • o segundo em 1990 — Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis.

Ambos constituem uma penetrante conjugação de sociologia e crítica literária. Ao indagar pelas experiências sociais de maior generalidade que caracterizam a sociedade brasileira, assume o papel do sociólogo. Mas, como essa experiência encontra sua realização mais acabada na literatura, veste o uniforme do crítico literário. Continue reading “Ao vencedor as batatas: um mestre na periferia do capitalismo e as ideias fora do lugar”