CIESP solicita Proteção ao Estado contra Desmanche da Cadeia Produtiva da Embraer no Brasil

Como informa Paulo Gala, “algumas das tecnologias usadas no novo Boeing 787 foram testadas e desenvolvidas pela Nasa. Em um processo recente na organização mundial do comércio sobre subsídios na aviação a Airbus chamou o novo Boeing 787 dreamliner de subsidyliner. É o avião com mais subsídios do governo na história da aeronáutica: US$ 5 bilhões do Tesouro americano em subsídios diretos e indiretos, segundo o processo.

Na Europa, o aprendizado com o Concorde e os enormes gastos públicos feitos nessa área pelo governo francês e do Reino Unido foram importantes para o futuro desenvolvimento dos aviões da Airbus: o sistemas de fly-by-wire, piloto automático para voo, pouso e decolagem, hidráulica de alta-pressão, freios de carbono, e outras técnicas avançadas para manufaturas ligadas à aviação vem desse projeto”.

O mesmo raciocínio vale para toda a indústria de alta complexidade com muitos componentes e rede de relacionamentos com fornecedores extensa, seja nacional, seja global.

Marianna Mazzucato mostra o papel do Estado Empreendedor, tanto na qualidade de fomento dos estágios iniciais de empresas como as citadas, inclusive a Embraer, quanto no financiamento e desenvolvimento de tecnologias. Depois são apropriadas pela iniciativa privada com grandes lucros na privatização e na posterior desnacionalização no caso brasileiro.

A base industrial aeronáutica brasileira está preocupada com os impactos que a nova aliança entre a Embraer e a Boeing terá no futuro dessas empresas, caso não haja uma política do governo para garantir a preservação da cadeia produtiva nacional. Se não tiver proteção, a cadeia vai se extinguir em curto espaço de tempo, por falta de acesso ao mercado global e de competitividade.

A cadeia produtiva da Embraer no Brasil é formada hoje por cerca de 70 empresas. Elas empregam em torno de 5 mil funcionários e estão dedicadas à venda de serviços de industrialização de baixo valor agregado, como fornecimento de peças usinadas. Apenas 10 destas empresas são exportadoras.

No acordo anunciado com a Boeing, no dia 5 de julho de 2018, a cadeia de fornecedores da Embraer não foi mencionada. Ela espera este assunto vir à tona no detalhamento da parceria e o governo aja no sentido de preservá-la.

Em carta aberta aos funcionários da canadense Bombardier, no fim do ano passado, por ocasião do anúncio da aquisição do programa de jatos C-Series, o presidente da francesa Airbus disse: a indústria aeroespacial canadense teria uma participação relevante na cadeia global de suprimentos da companhia europeia, avaliada em US$ 82 bilhões em contratos anuais.

O executivo da Airbus acrescentou: os contratos para a indústria canadense também se estenderiam a todas as linhas de negócios e produtos Airbus, tanto da aviação civil como da militar.

O Brasil abriga a terceira fabricante de aviões mais importante do mundo, mas as pequenas e médias empresas do setor aeroespacial do país ainda estão fora da cadeia global de fornecimento de aeroestruturas, um mercado estimado em US$ 60 bilhões.

Se o Brasil conseguisse alcançar pelo menos 2% deste mercado, em cinco anos, poderia faturar algo em torno de US$ 1,2 bilhão, além da geração de pelo menos 8 mil empregos diretos e mais de 40 mil indiretos.

O Ciesp encaminhou uma carta aos representantes do governo e da Aeronaútica na negociação da aliança entre a Boeing e a Embraer, pedindo proteção e mais incentivos para a base industrial brasileira. A ideia, de acordo com o diretor da entidade, é o governo exigir uma contrapartida da Boeing para trazer certo know -how em termos de capacitação das empresas para elas atenderem a um mínimo de contratos dentro da cadeia de fornecimento global da Boeing.

Esta seria uma grande oportunidade para a indústria nacional se desenvolver como fornecedora de nível global, reduzindo a sua extrema dependência da Embraer e abrindo novas oportunidades de negócios no mundo.

A Akaer, empresa especializada no desenvolvimento de aeroestruturas e gestão de projetos, chegou a ter 60% do seu faturamento vinculado aos contratos com a Embraer, mas hoje essa participação é de apenas 20%. Cerca de 75% da receita vem do fornecimento de segmentos estruturais para o caça militar Gripen, que a sueca Saab está produzindo para a Força Aérea Brasileira (FAB).

A Invoz, associação idealizada por Ozires Silva em apoio ao desenvolvimento das empresas da cadeia argumenta ser necessário a base industrial se adaptar às exigências de fornecimento no âmbito global, em termos de prazo, custos, qualidade e capacidade. A competição agora vai ser mais acirrada. É uma grande oportunidade para as empresas, mas também não deixa de ser uma ameaça. Elas precisam sair à luta e ser mais competitivas para manter custos globais. A Embraer já pediu aos seus fornecedores suas adaptações às certificações internacionais utilizadas pela Boeing em suas compras.

Elas conseguirão se ajustarem? Indiretamente as empresas já seguem os padrões internacionais, na medida em que fornecem para a Embraer, cujos aviões são homologados pelo FAA (Federal Aviation Administration), órgão regulador da aviação civil nos Estados Unidos.

Argumentam os fornecedores da Embraer: a criação de uma cadeia aeronáutica completa criará ainda novas opções de atendimento às Forças Armadas e ao governo brasileiro, garantindo independência e sustentabilidade tecnológica, além da geração de empregos de alto nível e exportação.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Embraer é a líder do ranking das empresas mais inovadoras do país, de acordo com o anuário Valor Inovação Brasil, produzido em parceria com a Strategy&, consultoria estratégica da PwC. A empresa aplica cerca de 10% do faturamento, de US$ 6 bilhões anuais, em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Cerca de 50% da receita hoje é gerada por produtos e serviços criados nos últimos cinco anos. Esse é um dos ativos que levaram a líder mundial da indústria aeroespacial, a americana Boeing, a formalizar uma proposta de sociedade com a concorrente do Brasil. O modelo de parceria, em tese, envolve a equipe de engenheiros da fabricante brasileira, um time que conseguiu, por exemplo, tirar do papel e colocar em operação uma nova família inteira de jatos de passageiros, a E-2, em menos de cinco anos.

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