Herança Escravista e/ou Colonial: Dilema dos Adeptos da Dependência de Trajetória Determinista Histórica

Jessé Souza, no capítulo “A escravidão é nosso berço”, no livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Rio de Janeiro: Leya, 2017), resgata a tradição da herança racista – e não da colonial ou cultural – como determinante do passado, presente e futuro da etnia brasileira.

Etnia significa grupo culturalmente homogêneo. A etimologia da palavra vem do grego ethnos, povo com o mesmo ethosou costume. Ele tem também a mesma origem, cultura, língua, religião, etc. O termo etnia não é sinônimo de raça.

A palavra raça caiu em desuso pela comunidade científica quando se corresponde a diferentes grupos humanos. Sobreviveu apenas uma raça entre os animais humanos: a descendente de homo sapiens. A ideia de etnia é um conceito diferente da noção social de raça, usada até a metade do século XX, e abrange mais aspectos culturais.

A etnia, ou grupo étnico, divide uma uniformidade cultural, com as mesmas tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento. Pesquisadores da etnicidade também consideram as características genéticas como sendo étnicas. A ideia não é consenso, mas é principalmente entendida enquanto parte da construção social do indivíduo.

Para Jessé, a explicação dominante do vira-lata brasileiro, emotivo, corrupto por natureza, mas praticante da corrupção só no Estado, sempre possibilitou toda a manipulação midiática e política contra a democracia e os interesses populares. Ela tem sua força na história e na sociologia do vira-lata.

Uma explicação, para ser dominante, tem que esclarecer a totalidade da realidade social. Ela tem que esclarecer as três questões principais tanto para os indivíduos quanto para as sociedades:

  1. de onde viemos,
  2. quem somos e
  3. para onde vamos.

A teoria capaz de responder a essas três questões de forma convincente é aquela que se candidata à interpretação dominante, definindo a forma como toda uma sociedade se vê. A única teoria brasileira que responde a essas três questões de modo convincente é a teoria implicitamente racista do culturalismo conservador.

Para Jessé Souza, essa impera entre nós. Não existe nenhuma outra teoria nacional com essa abrangência. A esquerda, por exemplo, jamais desenvolveu uma concepção crítica a essa teoria. Por conta disso, sempre foi colonizada no coração e na mente pelo culturalismo racista conservador. Isto teve efeitos práticos devastadores, como os recorrentes golpes de Estado mostram.

É de crucial importância a noção de totalidade para a eficácia de uma explicação. Como a totalidade não é explicada em substituição à explicação do culturalismo conservador, este ocupa todos os espaços vazios deixados por uma explicação totalizante alternativa.

A ambição deste livro de  Jessé Souza, “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”,  é dotar a esquerda de capacidade de expressar os interesses da maioria esquecida através de uma reflexão além da mera proposição de um programa econômico alternativo. Este tem sido o que as esquerdas apresentam quando chegam ao poder. É necessária uma reflexão independente, também acerca do Estado e da sociedade, para que o culturalismo conservador de direita não colonize a esquerda como acontece até hoje.

Para evitar que isso aconteça no futuro, é necessário desconstruir a leitura conservadora dominante e construir uma teoria explicativa nova tão abrangente quanto a versão conservadora. Daí a importância de ter respostas àquelas três questões essenciais para toda religião ou ciência totalizadora. A “esquerda” pretende representar interesses críticos à desigualdade e à injustiça social – e não cuidar de sua reprodução econômica.

Para responder às três questões essenciais para a compreensão da singularidade de qualquer sociedade – de onde viemos, quem somos e para onde vamos –, o culturalismo racista constrói uma fantasia da continuidade cultural com Portugal. Embora seja falsa, ela se baseia em uma tese clássica do senso comum– espécie de sociologia espontânea dos leigos: imagina a transmissão cultural se dar de modo automático como o código genético. Se as condições sociais (e a influência do ambiente cultural) forem outras, o código genético não determina comportamento.

Os seres humanos são construídos por influência de instituições. Disposições para o comportamento fundamentais, como a disciplina, o autocontrole, o pensamento prospectivo, são ensinadas por meio de prêmios e castigos institucionais. Não são necessariamente físicos, nem muito menos necessariamente conscientes.

A escola prolonga e aprofunda os mesmos métodos da socialização inicialmente familiar. Depois, no indivíduo adulto, seu sucesso no mercado de trabalho irá depender do mesmo mecanismo de formatação e disciplina da personalidade em um sentido ainda mais aprofundado. As instituições fundamentais nos amoldam e nos constroem, em certo sentido, seja pelo direcionamento explícito, seja pelo incentivo para a criação de disposições. Estas irão construir o comportamento prático. Isso não se relaciona com o código genético como imagina o senso comum.

Toda essa argumentação é aceitável quanto às instituições contemporâneas. Mas daí salta Jessé para o argumento de nossa forma de família, de economia, de política e de justiça ter sido toda baseada na escravidão. Como esta não existia em Portugal, não se pode aceitar nossa auto interpretação dominante. Esta nos vê como continuidade perfeita da sociedade lusitana. Portugal tinha um Estado patrimonialista, mas jamais conheceu a escravidão a não ser de modo muito datado e localizado.

Questão-chave: as ideias fora-do-lugar. O Estado lusitano, em sua colônia sul-americana, permaneceu patrimonialista ao tolerar (e defender) a escravidão na exploração de suas terras por seus colonos.

Ao demonizar o Estado como repositório da suposta herança maldita portuguesa, sempre quando o mesmo estiver governado pela esquerda, segundo Jessé, será reverberada seletivamente a acusação moralista já pronta: Estado patrimonialista e corrupto.

Jessé Souza utiliza a obra do criador do culturalismo racista, Gilberto Freyre, contra ele mesmo para demonstrar como, a partir de suas descrições históricas, podemos ter acesso a uma interpretação muito mais verdadeira acerca de quem somose de onde viemos.

“Embora Freyre tenha pavimentado o caminho para a construção de uma identidade luso-brasileira como nenhum outro, seu talento de historiador e sua genial descrição do Brasil colonial e imperial podem nos ensejar uma interpretação no caminho contrário daquela que ele mesmo engendrou.”

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