Conflitos de Classe no Brasil Moderno

Jessé Souza, no livro “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”, com a ajuda preciosa de Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, ainda que parcialmente criticados e reconstruídos, tem o quadro geral tanto de uma nova percepção do Brasil moderno quanto de suas raízes. A escravidão e seus efeitos passam a ser o ponto central e não mais a pretensa continuidade com Portugal.

O problema central do país deixa de ser a corrupção supostamente herdada de Portugal para se localizar no abandono secular de classes estigmatizadas, humilhadas e perseguidas. As contradições e os conflitos centrais de uma sociedade são sempre relações de dominação entre classes sociais. Isto se não utilizamos do mote da corrupção para esconder a verdade nem reduzirmos as classes à mera dimensão econômica.

Para perceber, no entanto, os conflitos sociais e a dominação social oculta, é necessário o acesso a uma perspectiva capaz de discutir a ideia de classe social. A direita, por outro lado, demonizou o marxismo e a noção de luta de classes. A esquerda, por outro lado, banalizou e simplificou o que já era simplista em Marx.

Mas a tese pretendida ser defendida por Jessé é a dinâmica das classes, ou seja, seus interesses e suas lutas, ser a chave para a compreensão de tudo realmente importante na sociedade. Insiste: as classes não se estabelecem como meras relações econômicas.

Como o pertencimento de classe prefigura e predetermina, pelo menos em grande medida, todas as chances dos indivíduos de cada classe específica ao longo de sua vida, em todas as dimensões, negar a classe equivale também a negar tudo de importante nas formas modernas de produzir injustiça e desigualdade. Afinal, sem que se reconstrua a pré-história de classe de cada um de nós, temos apenas indivíduos competindo em condições de igualdade, segundo critérios de merecimento e justiça, pelos bens e recursos escassos em disputa na sociedade. Sem a ideia de classe e o desvelamento das injustiças produzidas por ela desde o berço, temos a legitimação perfeita para o engodo da meritocracia individual do indivíduo competitivo.

Para Jessé, a forma mais eficaz e mais comum de se negar a importância do pertencimento de classe social para a vida de todos nós é (não) percebê-la apenas como realidade econômica. Essa é a fraude principal para as pessoas (não) perceberem a importância chave da classe social.

A ideia de se segmentar a população por estratificação de renda e riquezaé a de que o comportamento diferencial entre os indivíduos deve ser explicado pelo tamanho de suas posses. Em vez de apelar, como eu (Fernando Nogueira da Costa) faço, para a ideia de Éthos cultural e moral distintos das castas profissionais, independentemente de terem eventuais níveis de renda similares, Jessé defende a ideia de classes sociais independentemente de classes de renda e riqueza. Isto ele sumariamente classifica como “economicismo”: a determinação da política a partir da economia, isto é, do comportamento individual a partir de sua renda e/ou riqueza pessoal.

Ele exemplifica: “por conta da incorporação diferencial de capital cultural de caráter “técnico” de um trabalhador qualificado e de capital cultural mais “literário” de um professor de Ciências Humanas, por exemplo, todas as escolhas individuais em cada caso tendem a ser distintas. Desde o padrão de consumo, do filme a que se assiste, ao tipo de lazer, à forma de se vestir, de escolher amizades e parceiros eróticos, todo um “estilo de vida”, enfim, tende a ser, e é de fato, muito diferente.”

O que lhe incomoda, particularmente, é o uso legitimador do “prestígio científico”, de relações fáticas de dominação, para que não se compreenda como o mundo social funciona. Dá a (falsa) impressão de sermos adequadamente informados. “Infelizmente, a leitura de esquerda, influenciada pelo marxismo, não é muito melhor que a leitura liberal da renda como fator determinante.”

Didaticamente, ele simplifica a questão imputando à leitura liberal só levar em consideração a distribuição e o consumo, enquanto a leitura marxista concentrar-se na produção e na ocupação funcional. Reconhece o foco na produção, de fato, aprofundar o vínculo genético esclarecedor da razão da renda diferencial, importante para se entender as lutas entre as classes.

Ao mesmo tempo, as versões marxista e liberal compartilham do mesmo ponto de partida. Ambas são economicistas, ou seja, estão firmemente convencidas de que a única motivação do comportamento humano é, em última instância, econômica, o que é uma grande bobagem. A versão marxista de perceber as classes, apesar de um pouco melhor que a versão liberal, não consegue explicar o principal: por que alguns indivíduos pertencentes a certas classes desempenham secularmente certo tipo de função nas relações produtivas?

É preciso partir, portanto, literalmente do “berço”, ou seja, da socialização familiar primária, para que se compreenda as classes e sua formação e como elas irão definir todas as chances relativas de cada um de nós na luta social por recursos escassos. As classes são reproduzidas no tempo pela família e pela transmissão afetiva de uma dada “economia emocional” pelos pais aos filhos. É esse “patrimônio de disposições” para o comportamento prático um privilégio de classe entre nós. Esse fenômeno sociocultural vai esclarecer tanto a ocupação quanto a renda diferencial mais tarde.

A luta de Jessé é contra essa injustiça da “sorte do berço”. Similarmente, um liberal clássico também defende a igualdade de oportunidadesdesde a linha-de-partida.

Como ninguém escolhe o berço onde nasce, Jessé defende a sociedade se responsabilizar pelas classes esquecidas e abandonadas. Isso fizeram, sem exceção, todas as sociedades minimamente igualitárias. A Europa tornou as precondições sociais de todas as classes muito mais homogêneas. A desigualdade social lá não é abissal como aqui.

Quem luta são os indivíduos, mas o que decide a priori as lutas individuais são os pertencimentos diferenciais às classes sociais. O acesso ou o obstáculo típico aos capitais culturais e financeiros facilitadores da vida são predeterminantes dos destinos sociais. O privilégio de uns e a carência de outros são decididos desde o berço.

Sem a justificação da dominação econômica prestada por outras elites, como as elites intelectual e jurídica, por exemplo, não existe dominação econômica possível. Daí que existam outros capitais capazes de desempenhar funções semelhantes às do capital econômico. O capital cultural significa basicamente incorporação pelo indivíduo de conhecimento útilou de prestígio. É capital fundamental para as chances de sucesso de qualquer um no mundo moderno. “O capital cultural é tão indispensável para a reprodução do capitalismo quanto o capital econômico.”

O terceiro capital mais importante é dependente da existência anterior desses dois: o capital social de relações pessoais. “O culturalismo vira-lata racista entre nós, de Sérgio Buarque a Roberto DaMatta, vê o capital social de relações pessoais, apelidado por eles de ‘jeitinho brasileiro’, como se fosse uma jabuticaba que só existe no Brasil.” Ora, o filho de um poderoso nos EUA e na Europa nasce com uma networkde relações herdadas facilitadora de sua vida de modo decisivo. O “jeitinho” ou o QI (Quem Indica) não é acessível para todos os brasileiros…

Ao contrário do dinheiro, o bom gosto estético, como a inteligência, é percebido como algo inato e se presta, por conta disso, à legitimação do dinheiro como se esse fosse expressão de algo independente do mero valor monetário. Um rico bronco, só com muito dinheiro, é malvisto pelos pares. Ele está sujeito a amizades e casamentos – principal forma de consolidar e aumentar fortunas em vez de fragmentá-las – menos vantajosos.

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