Conceição Tavares: Intérprete do Brasil

Na conclusão da dissertação de mestrado pelo IE-UNICAMP de Paulo César das Neves Sanna Robilloti, O Desenvolvimento Capitalista na Obra de Maria da Conceição Tavares: Influências Teóricas, Economia Política e Pensamento Econômico, ele resgata sua contribuição à análise da economia brasileira e internacional após seu retorno do Chile e ingresso na UNICAMP.

Elevar a complexidade da estrutura industrial brasileira, agregando mais componentes interagentes, per si, não seria um antídoto para o fim dos problemas da economia e da sociedade brasileira. Daí as duras críticas de Conceição Tavares direcionadas aos governos militares: a demonstração teórica da perversidade social do “milagre econômico” e a crítica explícita à estratégia do II PND.

Seria preciso aprofundar a participação destes setores na economia, mas de maneira contínua, orgânica e sustentada, de modo a aumentar a incorporação das massas no jogo econômico. Sem igualdade, não há desenvolvimento.

No artigo de 1981, a autora tornou mais explícito este ponto. Naquela ocasião, ao resgatar suas teses, a autora explicitou: resolver os problemas econômicos do capitalismo tardio resolveria apenas uma órbita dos problemas, a de seus limites técnicos e financeiros. Entretanto, ainda estariam por resolver os problemas históricos da nossa formação, com destaque para os problemas de ordem política e social.

Retomando esta discussão em uma problemática conceitual mais ampla, incorporando elementos da teoria política e sociológica para tornar mais acabado seu argumento, Conceição Tavares, em artigos (1999 e 2000), deixou claro a superação do subdesenvolvimento requerer também a superação dos pactos conservadores de dominação de nossas elites e o seu poder político. Historicamente, mantiveram as massas populares marginalizadas. Continue reading “Conceição Tavares: Intérprete do Brasil”

Acesso ao Capital Cultural

Jessé Souza, no livro “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”, salienta: embora todas as classes tenham sua posição relativa de poder e prestígio determinada, em grande medida, pela conjunção peculiar de três capitais fundamentais – econômico, cultural e rede de relacionamento social–, abaixo da elite econômica a grande luta é, na verdade, por acesso ao capital cultural. A posse de conhecimento útil e reconhecido, em suas mais variadas formas, é o único capital mais acessível por esforço individual.

Dada a concentração dos demais, sobra o capital cultural para a disputa das outras classes entre si. Por que a classe média brasileira atua como tropa de choque dos poderosos de plantão?

“A classe média vai tender – do mesmo modo como os ricos fazem com o dinheiro – a perceber o conhecimento valorizado como algo que deve ser exclusivo à sua classe social. Sua participação nos golpes contra as classes populares tem muito a ver, portanto, com estratégias de reprodução de privilégios e muito pouco com moralidade e combate à corrupção.”

Novamente, sem recorte ideológico, essa generalização de comportamentos políticos para toda “a classe média” parece ser equivocada. A casta dos sábios-intelectuais da esquerda brasileira tem certa dificuldade de relacionamento com sua própria classe… Continue reading “Acesso ao Capital Cultural”