Reformismo Adesista: Segunda Patologia da Esquerda

Quanto à segunda patologia da esquerda, os críticos dos totalitarismos de esquerda, efetivos ou nascentes, frequentemente os consideravam apenas um dos polos de um processo de degenerescência da esquerda, o qual seria bipolar. Depois da crítica da esquerda totalitária, vinha um segundo bloco crítico, cujo objeto era uma outra degenerescência, considerada mais ou menos simétrica, em geral chamada de “reformismo”.

Hoje, Ruy Fausto no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017) afirma ser melhor falar em “adesismo” em vez de reformismo, pois a diferença entre “reforma” e “revolução”, se não desapareceu, pelo menos se tornou muito complexa. Também o antigo reformismo tomou formas extremas, de simples capitulação diante do sistema. Teria esse outro polo de degenerescência existido no Brasil? Fausto responde positivamente: existe aqui o reformismo adesista.

A melhor encarnação dele ele chama de “cardosismo”, a tendência política articulada em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Buscando se distinguir de outros grupos no interior do PSDB, corresponde em linhas bastante precisas à dos neorreformismos recentes. É preciso se debruçar nessa trajetória, sobre a qual pouco se refletiu.

Ao romper com o PMDB, Fernando Henrique e alguns dos seus amigos encarnavam uma perspectiva de centro-esquerda que se distanciava do PT pelo projeto de construção de um partido de caráter não classista e não sindicalista. Mas FHC declarava, na ocasião, ter um projeto “social” para o país. Aliás, em seu livro de memórias, afirma o nome proposto por seus amigos para o novo partido não o ter agradado muito pela ressonância excessivamente europeia. Ele preferia Partido Popular Democrático ou algo do estilo.

Durante certo período, a possibilidade de aliança entre PT e PSDB esteve no ar. Em seguida, enquanto o PT seguia seu caminho, no início socialista independente, depois reformista-populista, o PSDB, incluindo o grupo de FHC, foi caminhando para a direita. Isso se consubstanciou nas alianças que o PSDB veio a fazer e, em geral, no seu posicionamento político.

Mas, para me referir especificamente ao grupo de Cardoso, ele se deslocou do que era uma posição de centro-esquerda para uma postura de centro-direita. Fausto situaria outros políticos do PSDB, como Geraldo Alckmin, na direita, simplesmente. Quanto aos representantes da extrema direita, eles estão em geral ligados a outros partidos ou legendas.

Há alguma coisa em comum entre Fernando Henrique Cardoso e Tony Blair. No mesmo livro, Fernando Henrique o afirma explicitamente. Trata-se, nos dois casos, de políticos que originalmente se posicionavam à esquerda, mas acabaram aderindo ao sistema político-econômico dominante — no caso de Blair, à política econômica de Margaret Thatcher.

Como isso ocorreu com FHC e seus amigos? Houve a aceitação da ideia (thatcheriana na forma) de que “não haveria alternativa” ao liberalismo econômico.

A julgar pelo que FHC escreve no texto autobiográfico referido, essa convicção vem fundada na sua percepção do significado do fim do “comunismo”. A queda do Muro implicaria uma espécie de julgamento definitivo quanto à vitória do capitalismo. O destino do “socialismo de caserna” mostraria que não havia outra saída. Conclusão apressada, evidentemente.

É digno de reflexão o destino do antigo sociólogo crítico, importante intelectual da esquerda, e também o de gente como José Serra, ex-líder estudantil exilado pela ditadura. Este veio a ser ministro das Relações Exteriores do governo Temer. O destino deles parece a Fausto um pouco melancólico.

Sem se aventurar muito longe nas hipóteses, houve, talvez, no plano mais micrológico, algo como uma ilusória “passagem à maturidade”, uma enganosa consciência da necessidade de ser “coerente” ou fiel à sua classe. Como se, para ser lúcido diante do mundo, não fosse necessário aos intelectuais de classe média certa incoerência e determinada infidelidade à “sua classe”.

Em alguns membros daquele grupo, como também em Blair, sobrou algum verniz de esquerda, mas não mais do que um verniz. A leitura dos textos de Blair e de Giddens é uma experiência curiosa, precisamente porque começa com um programa muito razoável de atualização do projeto socialista, mas termina, pelo menos na prática, com uma capitulação diante do sistema.

Neototalitarismoe adesismo são duas patologias da esquerda, pelas quais ela pagou um preço muito alto no plano internacional. No Brasil, elas existem também, mas, se a localização política feito por Fausto do adesismo é correta entre nós, ele não se situa mais na esquerda nem se pretende como tal.Não há propriamente ilusão a respeito dele, embora a opinião pública de esquerda não tenha clareza sobre seu significado. Já o neototalitarismo é um grande problema.

Resumirei sua análise em próximo post.

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