Inflação Acelerada: Crítica Construtiva de Conceição Tavares à Teoria da Inflação Inercial

Conceição Tavares – 2015

Na resenha teórica de Rogerio Pereira de Andrade e Renata Carvalho Silva, Uma mestra na periferia do capitalismo: a economia política de Maria da Conceição Tavares (Campinas, Texto para Discussão do IE-UNICAMP n. 172, dez. 2009), os autores afirmam a influência da agenda keynesiana ter continuado presente nas reflexões posteriores da autora em sua discussão acerca dos determinantes da inflação na economia brasileira (Tavares & Belluzo, 1984/1986).

Ela tem como referencial de análise o paradigma keynesiano de determinação dos preços, baseado nos trabalhos de Paul Davidson (e seu uso das categorias mercados spote forward) e John Hicks (e sua taxonomia preços fixe flex). Estes autores costumam ser associados à Escola Pós-Keynesiana, embora a obra de Hicks seja antecedente a essa corrente de pensamento econômico.

Nos anos 70 e 80, a aceleração inflacionária tornou-se uma preocupação tanto nas economias centrais, quanto nas periféricas. No caso brasileiro, ainda de forma mais aguda. Os dois choques do petróleo, a ruptura da regra de câmbio fixo da institucionalidade do sistema de Bretton Woods, e o choque dos juros norte-americano agravaram a incerteza a respeito o cálculo prospectivo capitalista na formação de preços.

Para Tavares, as premissas do modelo de Hicks e Davidson residiam basicamente em uma hipótese de estabilidade das variáveis-chave ao cálculo capitalista, garantida pela vigência de um padrão monetário internacional estável. Em caso de estabilidade, era capaz de gerar preços “normais”, relativamente previsíveis, para juros e câmbio, permitindo o funcionamento do sistema de preços em qualquer economia nacional via repasse dos custos.

Porém, em decorrência da sucessão de choques sobre a economia nos anos 70, as convenções vigentes à época foram, se não destruídas, pelos menos fortemente abaladas. Nesse quadro, a hipótese da estabilidade dos contratos de oferta, por exemplo, de derivados de petróleo importado e dos contratos de dívida, durante o período de produção, não se sustenta.

A ruptura do padrão internacional na década de 70 teve efeitos desestabilizadores sobre as taxas de câmbio e de juros. Isto tornou limitado o modelo de fix-prices de Hicks para explicar o comportamento dos preços industriais. Com as flutuações mais exacerbadas das taxas de câmbio e de juros, a estabilidade tanto dos preços embutidos nos contratos de oferta para o suprimento de matérias-primas estratégicas (importadas e exportadas), como dos contratos de dívida, ficou comprometida.

Esses contratos passaram a ser reajustados em períodos de tempo mais curtos. O horizonte temporal para o cálculo prospectivo capitalista tornou-se, portanto, mais incerto e os preços de produção, antes de natureza fix-prices, passaram a ser flex-prices. Eram elevados como forma de antecipar uma possível queda na rentabilidade do capital.

Como consequência, as margens desejadas de lucro já não mais representavam um mark-up estável sobre os custos primários, tornando-se uma “margem incerta de cálculo”. Com as frequentes desvalorizações cambiais, estas margens apresentam tendência ascendente, pois incorporavam as sucessivas reavaliações de estoques e a carga reajustável da dívida externa (juros flutuantes).

Este aumento da incerteza tornou mais problemático a estimativa do preço de oferta dos novos bens de capital. Afetou, de forma adversa, o cálculo da eficiência marginal do capital. Os mesmos fatores desestimulantes das decisões de investimento aumentavam a preferência pela liquidez.

Sem demanda por crédito, aprisionava montantes crescentes de liquidez à circulação financeira. Então é restringida a liquidez necessária à circulação industrial. Esta restrição de liquidez mais a instabilidade das taxas de juros inviabilizavam o investimento produtivo – e não os níveis absolutos dessas taxas.

Assim, ao mostrar as limitações do modelo keynesiano de determinação de preços na nova conjuntura econômica mundial dos anos 70-80, Tavares não rompeu com as ideias inspiradas em Keynes. Ao contrário, utilizou-as não para descartá-las, mas para fornecer uma interpretação mais geral da dinâmica da inflação, válida também para os contextos de maior instabilidade e incerteza. Constituiu-se, portanto, em um aporte analítico, atualizado e inovador, com base em hipóteses e conceitos da perspectiva pós-keynesiana.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s