Direita no Ataque, Esquerda na Defesa

Ruy Fausto, no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), concorda com Roberto Schwarz a respeito de ter havido uma hegemonia do pensamento de esquerda nos anos da ditadura militar. Ainda que fora do poder, a esquerda era hegemônica no plano das ideias.

Se a hegemonia da esquerda era real, essa hegemonia tinha seus pontos frágeis e, sob o impacto de certas circunstâncias, o poder da esquerda sobre a opinião pública foi posto em xeque.

Se já na época da ditadura a direita tinha seus representantes intelectuais, hoje ela tem todo um grupo de porta-vozes atuante na mídia escrita ou falada, empenhado em uma verdadeira ofensiva contra a esquerda. Em conjunto, eles se caracterizam, apesar de algumas exceções, pela extrema violência do tom do que dizem ou escrevem. E, não à toa, pelo fato de que um número importante dos seus representantes veio da esquerda ou da extrema esquerda.

Quanto à filosofia que professam, ela varia de um conservadorismo cristão e espiritualista a um quase ceticismo, com vertentes pessimistas ou mais otimistas. Ruy Fausto critica, em particular, os pensamentos rasteiros de Olavo de Carvalho, “em guerra contra o que lhe parece ser a filosofia uspiana”.

“Ele usa uma série de figuras sofísticas, muito rodadas, que deve extrair de textos filosóficos sobre a retórica ou de manuais de marketing político da extrema direita americana. Vou dar apenas dois exemplos dessas figuras.

Uma consiste em ir até o extremo da acusação, até os limites do absurdo e da caricatura. (…) A acusação é tão absurda que desarma o interlocutor. Seria fácil defender o acusado se se tratasse de tal ou tal malfeito inexistente, mas possível. Quando estamos diante de uma impossibilidade total, é como se ele mexesse nas próprias bases racionais de toda crítica e julgamento. O contraditor eventual, e com ele o público em geral, é como que paralisado pela enormidade.

Uma segunda figura é o sofisma da hiperanálise ou do desdobramento infinito das razões: uma espécie de caricatura da regra cartesiana da decomposição das dificuldades. Em resumo, critica os interlocutores por não saberem nada sobre o que é um determinado assunto e pretenderem tomar posição diante dela”.

“Uma figura de estilo diferente, porque mais jornalístico do que teórico, é Reinaldo Azevedo. Nele reencontramos uma violência verbal comparável. ”

“Outro ideólogo da direita, universitário e jornalista, é Luiz Felipe Pondé. Pondé gosta de assustar e escandalizar (épater) o leitor. Nesse sentido, é uma espécie de Žižek da direita, em versão brasileira. Isso é visível na sua relação com a violência. Não que ele a justifique. Mas ele joga com a violência, abusando das fórmulas provocadoras. ”

Fausto examina ainda uma última figura: Denis Lerrer Rosenfield, filósofo que escreve para O Estado de S. Paulo. “Ora, se, como pretende Rosenfield, a esquerda tem necessariamente vocação para o totalitarismo — que é a negação da democracia —, a alternância se torna inadmissível. Será preciso evitá-la, porque ela oferece risco à democracia. É como se alguém de esquerda dissesse (há os que o dizem, mas eu sempre condenei aqueles que se expressam assim) que quem é de direita é necessariamente fascista, ou pelo menos potencialmente fascista. Esta é uma afirmação igualmente totalitária, pois também recusa a democracia; só que pela esquerda.

Não só a tese de Rosenfield é falsa — há muita esquerda que não tem nada de totalitária, esquerda que foi, inclusive, muito reprimida pelos poderes totalitários —, mas é precisamente essa tese que, pelas razões indicadas, é inequivocamente totalitária. Ele se tornou não apenas alguém que pensa à direita, mas, o que é bem diferente, um espírito intolerante, que, visivelmente, se insere mal na ordem democrática.

A maioria dos ideólogos da nova-velha direita — trânsfugas da esquerda, frequentemente — opera, em seus ataques, uma espécie de homogeneização de todo o campo da esquerda. O impulso homogeneizador é uma característica não só da direita como também da esquerda ao PT. Assim, o heterogêneo PT com múltiplas tendências é lido como um partido cujos militantes têm um perfil mais ou menos idêntico.

A violência resultante da passagem ideológica da extrema-esquerda para a extrema-direita ocorre por um acúmulo de ódio originário de três fontes, todas ligadas de algum modo a essa ruptura.

  1. Primeiro, há ódio por ter dado antes o passo em direção à esquerda.
  2. A segunda fonte da violência — de violência e de dogmatismo —, vem do próprio conteúdo das crenças que eles professavam anteriormente: nem todos vêm do stalinismo, mas, de qualquer modo, há dogmatismo e violência suficientes no leninismo, por exemplo, para que eles possam carrear aquelas antigas energias para o moinho da extrema direita.
  3. Em terceiro lugar, o ódio vem do próprio mundo burguês contra a revolta dos subordinados.

O ódio destilado nos escritos e nas falas dos defensores do pensamento de extrema direita é um ódio de classe, herdado de uma extrema esquerda mais ou menos delirante e convertido em “ódio de direita”, mas também ódio de si mesmo, por ter cedido antes a alguma coisa exigente de generosidade.

Seja como for, fica claro do que foi dito quais são as armas da direita. Ela explora a fundo o totalitarismo de esquerda e o populismo. Ela se alimenta dessas duas patologias, que, na sua forma geral, não são patologias exclusivas da esquerda. Mas parte da esquerda enveredou por aí e, com isso, deu um espaço de manobras para a extrema direita.

Esse fato basta para mostrar quanto o combate às duas deformações é essencial à esquerda. Fausto não quer dizer com isso que “a direita ficaria boazinha diante de uma esquerda democrática hegemônica”. Na realidade, ela conspiraria, e é até possível que se tornasse ainda mais violenta, pois, naquelas condições, a ameaça à sua dominação seria maior. Porém, não conspiraria nas condições relativamente favoráveis em que o faz atualmente. A esquerda teria condições muito melhores para ganhar a batalha.

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