Debate Público da Esquerda com a Direita Civilizada

Manuela Pinto Vieira d’Ávila, Luiz Inácio Lula da Silva e Guilherme Castro Boulos

Ruy Fausto, no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: a direita, e mesmo a extrema direita, tem hoje no Brasil uma espécie de hegemonia, fundada no poder e no grito. Basta dar um pequeno passeio pela internet para se dar conta do grau de violência das intervenções: tudo o que é de esquerda é condenado in limine. Já a esquerda tem pouco espaço para desenvolver os seus argumentos.

Nessas condições, a direita e a extrema direita estão preocupadas, sobretudo, para não se dar mais espaço ao discurso de esquerda. Age para este ser obrigado a se inserir em territórios mínimos de publicação. [Como neste modesto “bloguinho” pessoal.]

Essa reação é reforçada por aqueles, de direita ou não, para os quais o essencial é não pensar nada: os que querem diversão e mundanidade de “celebridades” – e não coisa séria. [Os “isentões”…]

Na outra ponta, estão os leitores da extrema esquerda tradicional. O mais grave para estes é o fato de Ruy Fausto ter ousado fazer críticas a Marx. É como se ele tivesse ousado criticar Jesus ou Maomé!

Na universidade, não é muito rara essa reação. O interlocutor (ou a interlocutora) empalidece quando ouve falar que alguém, de esquerda, anda fazendo críticas a Marx. Assim vão a nossa direita e a nossa esquerda (ou parte dela).

Entre esses extremos, houve também reações ao artigo original de Ruy Fausto, publicado na revista piauí, de gente próxima ao PT e de críticos de centro-direita ou de direita não extrema. É nesse último grupo onde se situa o principal texto ao qual Fausto responde, um artigo do economista Samuel Pessôa publicado no número 123 da piauí, de dezembro de 2016, “A armadilha em que a esquerda se meteu: Se o objetivo é reduzir a pobreza e a desigualdade, não há alternativa ao projeto social-democrata de FHC”.

O ponto de partida do artigo alvo de crítica era, como no livro, uma espécie de balanço das patologias da esquerda. Fausto distinguiu três:

  1. neototalitarismo, incluindo diferentes formas de neoautoritarismo;
  2. reformismo adesista;
  3. as diferentes modalidades de populismo, incluindo nelas quase populismos e formas afins.

Em geral, quando a ortodoxia econômica e os partidos conservadores, inclusive o PSDB, dizem “nós”, referindo-se aos interesses gerais da nação, esse “nós” é enganoso. Por trás dele, estão interesses específicos de classes ou grupos.

Na resposta a Pessôa, Fausto começa pela análise da defesa franca feita por ele das políticas neoliberais para definir um pouco as posições em confronto e as razões que as sustentam. Em sua crítica ao seu escrito, como de resto nos textos que vem publicando pela imprensa, Samuel Pessôa se situa claramente no campo do neoliberalismo.

O argumento principal em favor deste, segundo o autor, é o de que, graças à globalização neoliberal, ter-se-ia obtido, em escala planetária, uma grande redução da pobreza. A esquerda, e Fausto com ela, seria incapaz de tomar consciência do fenômeno, bem como de reconhecer sua importância.

“É preciso notar […] que qualquer crítica aos resultados globais do período neoliberal — grosso modo, dos anos 80 até hoje — precisa ser qualificada pela enorme queda da pobreza que ocorreu na economia mundial nas últimas décadas”, escreve Pessôa. E ele continua: “Faz parte da era neoliberal — está umbilicalmente ligada a ela — a maior queda de pobreza da história da humanidade”.

O economista neoliberal associa a esse elogio da mundialização liberal uma avaliação muito favorável das políticas do Fundo Monetário Internacional e das medidas defendidas pelo chamado “Consenso de Washington” — entre elas, a liberdade de movimento dos capitais, a liberalização do comércio pelos países mais pobres, as privatizações em contraposição aos modelos “intervencionistas” defendidos por economistas heterodoxos.

O economista neoliberal propõe que o leitor compare “o desempenho econômico e social da Venezuela com o da Colômbia, ou ainda o da Argentina com o do Chile”. Escreve: “Se lembrarmos que Chile e Colômbia são fiéis cumpridores do modelo defendido pelo Consenso de Washington, ficam ainda mais claras as limitações das iniciativas intervencionistas na América Latina”.

O que dizer dessa “defesa e ilustração” do neoliberalismo? É preciso:

  1. não confundir de maneira simplista, sem mais, globalização com neoliberalismo, e
  2. evitar generalizações do tipo “a Era Neoliberal”.

Para entender o mundo dos últimos cinquenta anos, no seu aspecto político-econômico, é preciso trabalhar com pelo menos três conceitos:

  1. globalização,
  2. neoliberalismo e
  3. capitalismo burocrático.

“Há um processo geral de globalização. A ele se acrescentou, no Ocidente, uma política econômica ortodoxa com livre movimentação dos capitais, privatizações, austeridade orçamentária. No caso da China, tivemos uma forma de capitalismo burocrático, filho monstruoso das bodas do capitalismo e do stalinismo-maoismo, um modelo que patrocina um desenvolvimento a toque de caixa num quadro de extrema opressão e exploração dos trabalhadores.”

Só se pode obter um quadro objetivo da situação atual, e assim avaliar com lucidez e justiça o que está ocorrendo no mundo, quando se faz a distinção correta desses três termos, estudando as relações complexas entre eles. Pessôa não faz isso.

A particularidade do capitalismo chinês está pouco presente nos seus textos — e de todo modo ele não atenta para ela no artigo em que critica às propostas de Fausto para a esquerda. Quanto aos outros dois termos — globalização e neoliberalismo —, eles são mais ou menos unificados no artigo do economista. O resultado é uma confusão de conceitos e uma visão do mundo que faz lembrar um pouco, invertendo os sinais, aquela em que incorre o esquerdismo vulgar, ou seja, o Pessôa pratica o direitismo, doença infantil do neoliberalismo.

“Por trás da argumentação de Pessôa e de seus pares há sempre a ideia de uma dualidade: ou se aceitam as recomendações do FMI e do Consenso de Washington ou, então, adotamos o modelo da Coreia do Norte ou de alguma ditadura totalitária equivalente — quem sabe, no melhor dos casos, o da Venezuela de Chávez.

Monta-se uma armadilha dualista: ou aceitamos as leis do sistema— e aí entra de tudo, da taxa “natural” de desemprego aos inúmeros ingredientes tóxicos de um receituário laissez-faire —, ou então optamos por um regime comunista de liquidação da economia de mercado. Ora, existe um tertius, e este não tem nada a ver com a chamada “terceira via” de Tony Blair, que de terceira não tem nada. Economia de mercado não é a mesma coisa que capitalismo, e menos ainda se identifica com um capitalismo “financeirista”.

A crítica ao intervencionismo, mantra dos nossos liberais, tem entre nós alguma coisa de particularmente aberrante. A partir do fato de que Lula e, principalmente, Dilma intervieram mal — com a fixação arbitrária de preços; o clientelismo nas nomeações, que levaram a operações ruinosas das estatais; a concessão de facilidades fiscais a empresários, que esvaziaram os cofres do Estado —, os economistas ortodoxos concluem:

  1. as políticas keynesianas não servem, nunca serviram, e
  2. o modelo neoliberal é a panaceia para todos os males. ”

Samuel Pessôa também se invoca com o seu projeto em longo prazo, que é o de “neutralização do capital”. Afinal, por que criticar o capital e, de forma geral, o capitalismo? Outros críticos, dessa feita à esquerda, discordam também de um dos pontos centrais do programa que Ruy Fausto defende para a esquerda: o anticapitalismo.

Mas o que, de fato, seria o anticapitalismo? Fausto responde com o argumento de “o capitalismo produziu e produz desigualdade, produziu e produz sofrimento. Nem de longe se pode isentá-lo completamente de responsabilidade quanto a estas grandes catástrofes humanas que foram as duas Guerras Mundiais”. Ora, para mim [Fernando Nogueira da Costa] a questão-chave não é esta da condenação pelo passado, mas sim se poderá combater a desigualdade dentro do capitalismo atual com o avanço de conquistas da cidadania.

De resto, no que diz respeito ao argumento salientado por Pessôa, Fausto acha o sistema capitalista padecer de um problema de legitimação. Seria preciso, de algum modo, justificar a monstruosa acumulação de riqueza nas mãos de alguns. Além disso, este não são necessariamente os que trabalham mais. Fausto aí argumenta com o protestantismo ascético da moralidade única do trabalho produtivo.

Sua observação de que falta legitimação ao capitalismo seria uma exigência “moral”, como quer o economista liberal com quem dialoga? A resposta é complexa. Ela é mais “crítica” do que propriamente moral. E, se ela é moral, não o é mais do que o são as referências de Pessôa à “justiça distributiva”.

Pior, para Fausto, é hoje não vivermos simplesmente sob o capitalismo. Vivemos sob uma forma particular de capitalismo. O capitalismo “financeirizado” ou “acionarista”— escolha-se a denominação que parecer melhor. O que caracteriza essa forma é o predomínio do capital financeiro no quadro de uma economia globalizada. O aumento da desigualdade nas economias do Ocidente, pelo menos, é um dos seus traços, e sob o seu domínio tem se registrado uma alta taxa de desemprego, a rigor um fenômeno quase universal.

Esse último traço sobre determina um longo processo histórico de redução do peso relativo do trabalho na produção. Por outro lado, vive-se uma crise ambiental de efeitos potencialmente catastróficos. Há sem dúvida, dentro do sistema, forças que tentam dar uma resposta a esse desafio ecológico, mas é duvidoso que consigam chegar a uma solução satisfatória.

Nessas condições, o chamado realismo é utópico, e o impulso utópico, realista. Esse suposto realismo, que a rigor é utópico, está presente mesmo nos keynesianos, tentados a pensar em reformas no interior do sistema. De minha parte [Fernando Nogueira da Costa], creio não ser fantasia de intelectual introduzir no horizonte a imagem de um mundo pós-capitalista.

Como Fausto insiste no artigo, e depois no corpo deste livro, aqui resumido, ele não implica pôr em xeque a democracia, muito pelo contrário, nem liquidar o Estado, e muito menos toda propriedade privada. Trata-se de neutralizar o capital, o que significa frear o seu poder intensivo e extensivo. Há domínios em que ele não deve entrar.

Acho problemática sua seguinte afirmação: “há uma relação direta entre os efeitos do capitalismo financeirizado e o evento terrível que constituiu a vitória eleitoral de um aventureiro irresponsável no país mais poderoso do mundo.” Fausto mistura assim a estrutura financeira com evento conjuntural. É tão pueril como dizer: tudo de ruim no mundo é culpa do capitalismo! Correlação não é causalidade!

Ele se pergunta: qual esquerda democrática é essa? “Em termos partidários ou institucionais, onde está ela, no Brasil? No PT? Se o PT não é em geral totalitário, ele é semipopulista, e isso vale, em boa medida, também para o PDT. No PSDB, no PPS? A militância desses partidos não é pró-totalitária, mas, em compensação, acho que há bastante tempo deixou de ser de esquerda. Colaborar para a fundação de uma esquerda democrática, porém livre das duas patologias complementares, é precisamente o projeto do artigo e deste livro. Daí a necessidade de tratar das três patologias.”

Quanto à socialdemocracia, “há certas exigências que se impõem à esquerda atual e que vão além ou de encontro ao projeto socialdemocrata. Principalmente duas: a atitude em relação ao Estado — a socialdemocracia foi sempre unilateralmente estatista— e o fato de que ela não cultivou a crítica ecológica do ‘progresso’. Tudo somado, a social-democracia teve o mérito de ter recusado o projeto comunista da Terceira Internacional.”

Ruy Fausto diz preferir a propriedade do Estado à propriedade privada quando se trata de grandes empresas. Porém, ao dizer isso, não afirma a propriedade estatal das empresas ser sempre a melhor solução. Porque, na realidade, as alternativas não são duas, mas três:

  1. propriedade privada,
  2. propriedade estatal e
  3. propriedade cooperativa.

cooperativas de produção, de consumo e de crédito, e, se em alguns casos o Estado não está inteiramente ausente, trata-se de um Estado que poderia evoluir na direção de maior participação popular. É esse último modelo que lhe parece ser o que oferece maiores vantagens e menos inconvenientes.

Sua implantação também exige prazos longos e condições adequadas. Em princípio ele deva ser pensado em coexistência com outras formas, não hegemônicas, de propriedade.

A grande propriedade do Estado é, em geral, uma solução melhor do que a grande propriedade privada. Mas uma grande concentração do poder econômico nas mãos do Estado tem seus inconvenientes e não é a solução.

Se o comunismo está morto, e as desvantagens do estatismo são visíveis, um socialismo democrático e ecológico promotor de uma “economia solidária e cooperativista parece ser a única alternativa ao capitalismo selvagem que se espraia e que ameaça destruir o nosso mundo.”

 

3 thoughts on “Debate Público da Esquerda com a Direita Civilizada

  1. Republicou isto em Gustavo Horta and commented:
    Acho muito interessante que pessoas inteligentes ainda continuem se apegando a um ódio estranho e enraizado nos corações e mentes. Eu, particularmente, não consigo entender.

    São tantas as evidências de que os caminhos conduzidos pelo golpe estão errados, mas alguns insistem em justificar que está tudo certo. Acho lamentável.

    Mas não se engane nem se iluda, é o nosso ânus que está na roda da SURUBA sim, desafortunadamente.

    Puto com que se passa em meu país, puto com o que estão fazendo com a nossa nação, mas estou feliz comigo mesmo e em paz com a minha consciência.

    Enquanto houver cavalo, São Jorge não vai jamais andar a pé……Tentemos, com algum esforço, nos lembrar de quem são os caras que nos colocaram, e nos mantem, nesta penúria dos dias pós-golpe.

    E no meio da farra, no centro da SURUBA comandada por estes cafetões e cafetinas, está o nosso ânus esculachado, esculhambado, escrachado e arregaçado.

    E no meio da farra, no centro da SURUBA comandada por estes cafetões e cafetina, está o nosso ânus esculachado, esculhambado, escrachado e arregaçado.

    gustavohorta.wordpress.com

    • Um erro não se justifica por outro. A esquerda democrática e republicana é sim civilizada. Defende os direitos civis, sociais, políticos, econômicos e ecológicos. E cumprir os deveres de cidadão.

      A direita intolerante, estúpida e violenta, eleitora de representante da casta dos guerreiros-militares, almeja exterminar “os outros”, entre os quais, a esquerda a quem endemonia.
      att.

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