Indústria e Agronegócio Brasileiro

O sucesso do agronegócio no Brasil é cada vez mais reconhecido e tem tido impactos positivos na economia brasileira. Por exemplo, durante a recente recessão o setor foi o único, entre os mais importantes, a continuar crescendo e investindo, como pode ser visto no gráfico acima. Entre 2014 e 2017 o PIB contraiu-se 6%, a indústria de transformação encolheu incríveis 12,1% e o setor de serviços perdeu 5%. No mesmo período, o setor agrícola cresceu 11,7%!

Na verdade, o contraste é ainda mais expressivo se considerarmos a queda de 4,3% no PIB agrícola do ano de 2016 deveu-se, exclusivamente, ao clima. Naquele ano, o conhecido fenômeno do El Niño produziu uma perda de safra: a produção de algodão e grãos foi de 180 milhões de toneladas, 11% menor se comparada à do ano anterior. No entanto, a área cultivada, sob controle dos produtores, cresceu 0,4% no comparativo com 2015 e a renda agrícola, 9%, pois a quebra de safra produziu preços maiores. Assim, pode-se dizer: o agronegócio, do ponto de vista de investimentos e renda, cresceu em todos os anos, mesmo durante a crise.

A mensagem deste trabalho de José Roberto Mendonça de Barros (Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo – USP e Sócio fundador da MB Associados), realizado sob encomenda do IEDI, é: o agronegócio tem muito mais impacto na indústria do que geralmente se imagina. Além disso, como o segmento continuará crescendo (sobretudo pela expansão da demanda externa por nossos produtos) essa importância tenderá a se elevar.

Finalmente, o progresso tecnológico do setor está levando, entre outras coisas, a gerar valor através da criação de novos produtos industriais, com demanda relativamente elástica, inclusive, pela possibilidade de substituição de bens oriundos do petróleo. 

Define-se a agropecuária como o conjunto dos estabelecimentos que se dedicam à produção agrícola, pecuária e florestal. O agronegócio refere-se à cadeia produtiva como um todo, cadeia longa, que vai do segmento de insumos e serviços à produção aos processadores industriais, atividades de logística e distribuidores para os mercados interno e externo. Estima-se que, hoje, o agronegócio represente algo como 24% do PIB, embora a participação da agropecuária seja da ordem de 5,5%. 

A trajetória de sucesso é bem documentada e pode ser sumariamente descrita desta forma.

A produção e a produtividade agrícolas cresceram muito nas últimas décadas, em níveis suficientes para atender com folga os mercados internos e externos.

A qualidade da oferta pode ser mais adequadamente avaliada pela evolução do preço dos alimentos na ponta do consumidor. O gráfico a seguir mostra a tendência de uma cesta de 16 produtos fundamentais na dieta brasileira, como calculados pela FIPE para o paulistano (leite, carne bovina, frango, arroz, feijão, laranja, tomate, cebola, batata, banana, açúcar, café, cenoura, mamão, ovo e óleo de soja). Ali se vê que de dezembro de 1974 até fevereiro de 2018 os preços relativos dos alimentos caíram nada menos do que 3,5% ao ano. Por 43 anos!

No caso do mercado externo, o país passou a ser um grande fornecedor e hoje disputa arduamente com os EUA a posição de player mais importante no mercado oceânico global. 

É, talvez, o único setor importante capaz de atender o mercado interno, oferecendo produtos a preços cadentes e com maior qualidade, ao mesmo tempo em que amplia significativamente sua participação no mercado internacional; tudo isso, praticamente, sem subsídios governamentais. [Esquece-se dos subsídios creditícios com recorrentes perdões da dívida rural sobre pressão da bancada ruralista?!]

De fato, os cálculos da OCDE mostram que em 2015 o apoio ao produtor agrícola, medido pela porcentagem da receita bruta, foi de 29% na Indonésia, 22% na China, 19% na União Europeia, 9% nos EUA e apenas 3% no Brasil.

O modelo de negócios no setor está sustentado por dois pilares:

i) aumento contínuo da produtividade, decorrente da utilização da ciência no desenvolvimento de novas tecnologias; e

ii) maior eficiência dentro das cadeias produtivas, num contexto de competição no exterior; tudo isso sem subsídios. [Subsídios distintos dos demais países: concedidos no crédito agrícola.]

Na verdade, o crescimento do agronegócio está mais ou menos dado, uma vez que a produtividade deverá continuar se elevando, como discutiremos mais adiante. O crescimento do mercado interno deverá evoluir mesmo em condições de baixo crescimento do país, dados o baixo nível de renda média no Brasil, sua má distribuição e as modificações no comportamento dos consumidores.

Ao mesmo tempo, o papel no comércio internacional continuará crescendo. Com um maior desenvolvimento de muitos países emergentes, especialmente na Ásia, o mercado seguirá em expansão. Poucas nações têm recursos naturais, tecnologia e gente para acompanhar essa evolução, elevando a produção para atender tanto o mercado interno, quanto a exportação. O Brasil é, provavelmente, o que tem maior potencial de produção e, como tal, deve seguir tendo um papel crescente.

As projeções do USDA, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, mostram: a grande contribuição para o atendimento da crescente demanda global por alimentos virá do Brasil.

O Brasil vai se tornar, mesmo, um grande player, se não o maior. Basta reforçar sua tendência natural pela melhoria de conhecidos gargalos, como qualidade na logística e sanidade animal.  

Um pequeno exercício acerca do relacionamento entre o agro e a produção industrial é apresentado em seguida.

O setor agropecuário tem hoje uma intensa ligação com o setor industrial, muito maior do que mesmo pessoas bem informadas acham.

Isto é resultado tanto do avanço na tecnologia de produção, colheita e armazenagem, quanto da crescente complexidade no processamento e geração de valor de produtos e matérias primas para os mercados interno e externo.

Uma forma simples de se observar estas relações está abaixo.

Toma-se a lista de produtos que compõem a Pesquisa Industrial Mensal, utilizada para o cálculo da produção e organizada em 33 setores. São 805 produtos e destes, são destacados aqueles ligados diretamente ao agronegócio.

Como toda a classificação, esta está sujeita a críticas. Por exemplo, considera na área têxtil, fios e tecidos de algodão (incluindo, cama, mesa e banho), mas não outros fios, bem como os produtos de vestuário, exceto dois.

A lista completa está apresentada na integra do estudo.

De forma sintética estes são os produtos considerados por setores:

 

B – Indústrias extrativas

– calcário e fosfatos

– não foi considerado na pesquisa um setor que cresce muito, o de suplementos minerais para animais. Estão aí o sal mineral (que inclui fosfato bicálcico), o sal proteinado (que também inclui adicionalmente algum tipo de farelo) e o sal ureado. Estamos falando de algo como 3 milhões de toneladas de produto e R$ 6 bilhões do valor de produção, que cresce velozmente com a tecnificação da pecuária.

10 – Produtos alimentícios

– todos os produtos

11 – Bebidas

– 8 produtos, incluindo vinhos e aguardentes

12 – Produtos de fumo

– fumo processado industrialmente e cigarros

13 – Produtos têxteis

– já mencionados

14 – Vestuário

– Dois tipos de meias de algodão

15 – Couros, artigos para viagem e calçados

– Couros, calçados de couro e de borracha

16 – Produtos de madeira

– todos

17 – Celulose, papel e produtos de papel

– todos

18 – Impressão e reprodução de gravações

– nada

19 – Coque, produtos derivados de petróleo e biodiesel

–  álcool etílico

–  biodiesel

– existe uma indústria não considerada, de óleos vegetais industriais, que não é pequena

20 B – Perfumaria, sabões, detergentes e higiene

– Consideramos apenas sabões

20 C – Outros produtos químicos

– Vários ácidos e sais para fertilizantes, fungicidas, herbicidas e inseticidas

21 – Produtos farmoquímicos e farmacêuticos

– Vacinas para medicina veterinária

– Não estão incluídos outros produtos para saúde animal, produzidos por empresas como MSD, ZOETIS e Ourofino

22 – Borracha e material plástico

– Borracha misturada

23 – Produtos de minerais não metálicos

– Nada

24 – Metalurgia

– Arames e fios

25 – Produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos

– Nada

26 – Equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ótica

– Nada

27 – Máquinas e aparelhos elétricos

– Nada

28 – Máquinas e equipamentos

– Motores, peças e tratores

– Máquinas para irrigação, pulverização, limpeza e seleção de grãos

– Máquinas para colheita, secadores e classificadores

– Implementos agrícolas de todos os tipos

– Máquinas para indústria de óleos, cervejeira, açúcar, carnes, leites, padaria e confeitaria e outros

29 – Veículos automotores, reboques e carrocerias

– Nada

30 – Outros equipamentos de transporte

– Nada

31 – Móveis

– Vários produtos de madeira

32 – Produtos diversos

– Nada

33 – Manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos

– Para indústria de celulose, papel ou artefatos.

 

Os 189 produtos considerados representam quase 29% do total da pesquisa e mais de 37% do valor da produção da Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2015, número extremamente significativo e revelador de quanto a agricultura e indústria estão interligadas.

Além disso, é preciso considerar a cadeia do agronegócio ter uma demanda difusa, porém relevante em muitos segmentos industriais.

Estima-se um terço da produção de caminhões, carrocerias e reboques seja diretamente utilizado no transporte de produtos agrícolas, suas transformações e seus insumos. Também vale mencionar a crescente utilização de motocicletas e outros veículos deste tipo em substituição a animais, tanto no transporte de pessoas, como no trabalho de administração rural. Aviões e drones também têm uso crescente.

A atividade de construção civil, incluindo irrigação, tanques, armazéns e  silos, implica em demandas difusas sobre os setores 22 (borracha e material plástico), 23 (minerais não metálicos), 25 (produtos de metal), 27 (máquinas, aparelhos e materiais elétricos, inclusive na eletrificação rural).

A crescente digitalização na agricultura e a expansão da telefonia rural também têm impactos no setor 26 (informática e outros).

É, portanto, certo os 30% de produtos relacionados ao agronegócio representarem um piso.

Finalmente, muitos produtos novos já estão no mercado, como plásticos a partir da cana, biofertilizantes, produtos organominerais e defensivos biológicos.

Agronegócio e indústria têm muito a se beneficiar num contexto de maior abertura e progresso técnico.

1 – O agronegócio brasileiro tem um modelo de crescimento solidamente estabelecido em torno da elevação da produtividade e da competitividade no mercado global, sem subsídios relevantes, e isto é algo único que tem que ser preservado. Por isso, o setor cresceu durante a maior crise econômica dos últimos tempos.

2 – Esta rota de expansão ainda vai durar por muito tempo, especialmente se o país avançar na melhora da logística e na redução dos custos.

3 – No plano da produção, a agricultura de precisão é a mudança mais relevante. Este caminho implica em maior integração de agricultura, indústria e serviços. Implica também em utilização de sistemas digitais integrados e na montagem de uma infraestrutura de informação. É fundamental que haja acesso relativamente fácil à compra de certos equipamentos e acessórios a preços razoáveis, ainda que num primeiro momento sejam importados.

4 – Como em todas as áreas, o processo de pesquisa e geração de conhecimentos, que desemboque em novos produtos e sistemas, tem que ser mais robusto ainda. Incubadoras e novas empresas (startups) deverão continuar a criar e desenvolver soluções inovadoras, especialmente em conexão a indústrias produtoras de insumos e equipamentos.

5 – Sustentabilidade e baixo carbono continuarão a jogar papel fundamental na pesquisa, desenvolvimento e difusão de inovações na área.

6 – Insumos e equipamentos devem continuar a serem aprimorados e outros tipos criados. A indústria tem um papel importante nesse processo.

7 – Um grande mundo está se abrindo na criação de valor, tanto no desenvolvimento de novos produtos como no redesenho e rejuvenescimento de setores maduros, como no caso do café.

8 – Existe espaço para crescimento na área de biocombustíveis e na bioeletricidade.

9 – Entretanto, o maior potencial de crescimento está na área de materiais adequados às exigências do mundo moderno, como compósitos e outros produtos da química verde.

10 – As condições de custo e qualidade das matérias primas permitem que, com a adequada tecnologia, sejam produzidos bens muito competitivos globalmente.

11 – Alavancar manufaturas a partir de nossas vantagens comparativas e de novas tecnologias é uma rota totalmente viável. Naturalmente, isso não resolve o problema industrial brasileiro, mas pode tornar mais jovem, competitivo e dinâmico parte significativa do setor manufatureiro.

12 – Além das políticas tecnológicas, e da possibilidade de desenvolver projetos com instituições e empresas no exterior, é preciso que a política comercial externa seja parceira desses movimentos, o que não será difícil dada a qualidade de nossa diplomacia.

13 – Olhado desta forma, são totalmente equivocadas as proposições de taxar exportações agrícolas para proteger setores estagnados e envelhecidos.

As relações entre o agronegócio e a indústria são muito mais intensas, profundas e diversificadas do que se imagina. Elas deverão se aprofundar ainda mais.

Alavancar o progresso a partir de vantagens comparativas naturais e construídas parece uma rota capaz de trazer grande sucesso para esta cadeia produtiva, cada vez mais longa e complexa.

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