Trajetória da Agricultura Brasileira: Evolução Recente

O Brasil alcançou seu recorde de produção de grãos na última safra, com cerca de 240 milhões de toneladas de grãos. Produz mais de 400 produtos de origem animal e vegetal, provenientes das diferentes escalas e tamanhos de unidades produtivas, os quais são consumidos internamente e exportados para mais de 150 países de todos os continentes. Os efeitos dessa condição proporcionaram preços mais acessíveis aos consumidores, elevaram a renda, geraram novos empregos e impulsionaram a participação da agricultura no PIB brasileiro.

Em 2017, as exportações de produtos agropecuários alcançaram US$ 96,1 bilhões e responderam por 44,1% do total das exportações brasileiras. O sucesso competitivo e sustentável da agricultura nacional passará por sua diversidade, pluralidade e heterogeneidade, resultantes das relações culturais, sociais, econômicas e ambientais em curso e futuras.

De acordo com o documento da EMBRAPA, Visão 2030 – O Futuro da Agricultura Brasileira, nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil vivia processos de industrialização e urbanização e de forte crescimento econômico, que, contudo, não encontravam correspondência no setor agrícola do País, caracterizado então por baixa produtividade. Parte considerável do abastecimento interno de alimentos provinha das importações. Por falta de tecnologia adaptada à produção tropical, os cerrados eram áreas marginais na produção agrícola. A migração rural-urbana se intensificava de maneira impressionante, fruto da imensa pobreza rural nacional.

Com o intuito de garantir segurança alimentar à população (crescentemente urbana) e reduzir os preços dos alimentos, o governo instituiu políticas para aumentar a produção e a produtividade agrícola, incluindo investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), extensão rural e crédito rural subsidiado.

Além disso, os produtores rurais, com determinação para assumir riscos e empreender, tiveram papel preponderante para que o setor agrícola brasileiro experimentasse rápido desenvolvimento, tendo sido também importantes as diversas formas de organização dos produtores e das cadeias produtivas.

De fato, a organização e o intenso processo de modernização das cadeias produtivas do agronegócio fizeram com que os elos anteriores e posteriores às atividades agrícolas, como os de produção de insumos, processamento e distribuição, apresentassem importância cada vez maior no Produto Interno Bruto (PIB).

Em 2016, o agronegócio como um todo representou 23,6% do PIB, (enquanto a produção agrícola per se respondeu por apenas 5% desse montante) e foi responsável por 45,9% do valor das exportações, gerando um saldo comercial de US$ 71 bilhões.

No mesmo ano, esse setor foi responsável por 19 milhões de pessoas ocupadas, o que representou quase metade (9,09 milhões) dos trabalhadores no segmento primário. A agroindústria e serviços empregaram, respectivamente, 4,12 milhões e 5,67 milhões de pessoas, enquanto 227,9 mil pessoas estavam ocupadas no segmento de insumos do agronegócio (Barros, 2017).

Como resultados dos esforços empreendidos pelo governo, pelas instituições de ciência e tecnologia (C&T), pelos agentes públicos e privados do setor e especialmente pelos produtores rurais, acentuados ganhos de produtividade no setor agrícola puderam ser observados, principalmente a partir da década de 1990.

Em termos agregados, enquanto a produção aumentou 4,5 vezes, a utilização de insumos avançou pouco mais de 15%, o que pode ser explicado pela evolução da produtividade total dos fatores (PTF), que cresceu quase quatro vezes entre 1975 e 2015 (Figura 1).

Qualquer que seja o fator de produção avaliado (mão de obra, terra ou capital), observa-se forte incremento em suas produtividades: entre 1975 e 2015, a produtividade da mão de obra aumentou 5,4 vezes; a da terra 4,4; e a do capital teve um crescimento de 3,3 vezes (Figura 2).

Analisando a contribuição de cada um desses fatores de produção, observa-se que a tecnologia explica, em grande parte, essa evolução da produtividade. Quando se considera o período entre 1975 e 2015, a tecnologia é responsável por 59% do crescimento do valor bruto da produção, enquanto terra e trabalho explicam 25% e 16%, respectivamente, do crescimento da produção. Especificamente no período entre 1995/1996 e 2005/2006, a importância da tecnologia é ainda maior, o que explica 68% do aumento do valor da produção. Terra e trabalho explicam respectivamente 9% e 23%.

A partir da década de 1990, as políticas macroeconômicas de estabilização (controle da inflação e câmbio mais realista) e as maiores demandas interna e internacional devem ser consideradas também para explicar o crescimento do setor agrícola, que passou a ser o principal responsável pelo superávit da balança comercial brasileira. Entre 1990 e 2017, o saldo da balança agrícola do País aumentou quase dez vezes, alcançando, nesse último ano, US$ 81,7 bilhões, valores que têm contribuído para o equilíbrio das contas externas do País (Figura 3).

À medida que esse processo foi se consolidando, o Brasil foi se transformando num grande playerno negócio agrícola global. Entre 1977 e 2017, a produção de grãos – referem-se a 15 produtos pesquisados mensalmente pela Conab: algodão-caroço, amendoim, arroz, aveia, canola, centeio, cevada, feijão, girassol, mamona, milho, soja, sorgo, trigo e triticale –, que era de 47 milhões de toneladas, cresceu mais de cinco vezes, atingindo 237 milhões  (Figura 4), enquanto a área plantada aumentou apenas 60%.

Entretanto, o maior impulso se deu a partir de 1990, em grande parte devido ao crescimento das exportações, que se tornaram a força motriz do crescimento recente da agricultura brasileira. O País é atualmente o principal exportador de suco de laranja, açúcar, café e carnes bovina, suína e de aves, e o 2º maior de soja e milho.

O maior crescimento da produção em comparação à área pode ser visto por meio da evolução do rendimento médio das lavouras de arroz, feijão, milho, soja e trigo, no período de 1977 a 2018. Em geral, os produtos tiveram significativos aumentos de rendimento: trigo e milho (240%) e arroz (315%). Soja e feijão, que apresentaram os menores crescimentos, praticamente dobraram o rendimento no período analisado.

Embora tenha havido expressiva expansão da produção e da produtividade, a ocupação e o uso do solo demonstram a agricultura brasileira, além de pujante, ter sido bem-sucedida na conservação do meio ambiente. A área total de terras ocupada e em uso no Brasil é de aproximadamente 30% (Figura 6), enquanto as Áreas de Preservação Permanente (terras indígenas, unidades de conservação) e as áreas em propriedades privadas separadas em função da legislação ambiental – como Reserva Legal (RL) e áreas de proteção – representam quase 50% do território brasileiro. Somando-se a vegetação nativa em terras não cadastradas, esse percentual chega a 66%. As lavouras e florestas plantadas ocupam apenas 9% do território; as pastagens plantadas, 13%; e as nativas, 8%.

No caso da bovinocultura de corte, o efetivo mais do que dobrou nas últimas quatro décadas, enquanto a área de pastagens teve pequeno avanço e até diminuiu em algumas regiões. O crescimento da produtividade explica-se, principalmente, pelo aumento substancial da proporção de pastagens plantadas com cultivares de gramíneas e leguminosas com maior produtividade e qualidade e adaptadas aos diferentes ambientes brasileiros.

Esse processo é reflexo também do melhoramento genético animal e da adoção de boas práticas pecuárias, resultando no aumento do ganho de peso dos animais, na diminuição da mortalidade, no aumento das taxas de natalidade e também na expressiva diminuição da idade no abate, com forte melhora nas taxas de desfrute do rebanho. Evoluiu de 15% para 25% no mesmo período. De fato, entre 1950 e 2006, a produtividade animal explicou cerca de 80% do aumento da produção pecuária.

A maior parte (65%) desse aumento da produtividade pode ser explicada pelo ganho de peso por animal (kg de equivalente carcaça (EC) por cabeça), e o restante (35%) pela taxa de lotação (cabeças por hectare).

No setor de carne bovina, é o 2º maior produtor, atrás apenas dos Estados Unidos, e o principal exportador, com previsão de exportações de 1,9 milhão de toneladas de equivalente carcaça em 2017.

Os setores de avicultura e suinocultura são caracterizados pelo dinamismo da cadeia e pelo uso intensivo de tecnologias. Além de evidenciarem a pujança do agronegócio brasileiro, sinalizam para um conjunto de mudanças sociais, econômicas, político-institucionais e tecnológico-produtivas. Elas poderão ocorrer em outras regiões rurais onde a dinâmica agrícola se instalar.

O setor de carnes brasileiro apresentou expressivo aumento da produção entre 1975 e 2017, com destaque para a produção de frango. Cresceu mais de 26 vezes no período. Em 2017, a produção total de carnes (bovina, de frango e suína) somou 25 milhões de toneladas, ante 3,4 milhões de toneladas em 1975, o que representa um crescimento de 642% (Figura 7).

Fonte: Embrapa.Visão 2030 : o futuro da agricultura brasileira. – Brasília, DF: Embrapa, 2018. 212 p.

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s