Teoria Alternativa da Moeda versus Teoria Quantitativa da Moeda

No post anterior com resenha do livro de André Lara Resende, “Juros, moeda e ortodoxia”, fiz uma provocação possível de ser lida como crítica pretenciosa: “se ele tivesse lido minha Tese de Livre-Docência, “Por uma Teoria Alternativa da Moeda”, defendida em 1994 (e publicada sinteticamente em livro “Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista” em 1999), teria conhecido uma crítica substantiva à Teoria Quantitativa da Moeda e construtiva ao destrona-la e oferecer outra Teoria da Moeda. Teria adquirido certo conhecimento há um quarto de século. Bastaria superar preconceitos e ler economistas heterodoxos brasileiros”.

Eu a resumo no quadro abaixo muito esquematicamente para quem não a conhece. Leia mais no primeiro capítulo de: Fernando Nogueira da Costa – Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999).

POSTULADOS DA TEORIA QUANTITATIVA DA MOEDA (TQM) VERSUS POSTULADOS DA TEORIA ALTERNATIVA DA MOEDA (TAM) ATRAVÉS DA EQUAÇÃO DE TROCAS

  1. Equação das Trocas representa a natureza dual de todas as transações em que o valor total dos bens vendidos é igual à despesa monetária para sua aquisição, ou seja, a quantidade vendida ou o rendimento monetário dos vendedores é idêntica à quantidade comprada ou a quantia gasta pelos compradores.
  2. Para essa tautologia ser considerada uma explicação, expressando uma relação de comportamento capaz de previsões, a identidade sem relação causal deve ser sujeita a certas hipóteses levantadas, tendo como referência os postulados da Teoria Quantitativa da Moeda ou de uma Teoria Alternativa da Moeda.
  3. A mais conhecida variante da Equação de Trocas é a expressa por Irving Fisher (1911) — V = P.T — representa uma simples identidade contábil para uma economia monetária: relaciona o fluxo circular da moeda (lado esquerdo), em uma dada economia, durante um específico período, ao fluxo circular de bens (lado direito).
  4. Pode-se destacar as variáveis nível geral de preços e preços relativos:

M sn .V = P 1  .  1 i  . P i/ P1. Q i onde:

Msé a oferta de moeda nominal;

é a velocidade de circulação da moeda;

Pé o nível geral de preços (preço absolutoou monetário);

P / P são os preços relativosem termos da moeda mercadoria (bem 1);

Qé a quantidade de transações.

para que Msn determine unicamente P1
são necessários:
para que PQ (necessidades econômicas) determine Ms(quando esta se torna endógenae V estável) são necessários:
POSTULADOS DA TQM: POSTULADOS DA TAM:
Postulado da Proporcionalidade:
P1 = f( Msn ) => constante e Md / P 1 =dado => demanda por moeda transacional = f( padrão de gastos para atender necessidades básicas ) X  f( J ):
não se influencia pela taxa de juros
Postulado da Velocidade Variável:
Msn = k P Y onde k = f( decisão do agente econômico em ativar moeda ociosa ou fazer inovações financeiras) => instabilidade de V = f( acomodação de Msn às variações de P Y) = f( J )
Postulado da Causalidade:
(+) Msn => (+) P 1 com Mdr = Q dada => quantidade real de moeda = quantidade em termos de volume de bens e serviços => efeito saldo real =
f( M sn > M dr ) = oferta excedentária
Postulado da Validação:
(+) P 1 = f( validação via Msn ) =>
mark-up efetivo = f( decisão de gasto vs. preferência pela liquidez de outro agente ) => variação de P=> variações em Mdr = desmonetização ou remonetização
Postulado da Neutralidade da Moeda:
(+) Msn não determina (+) Q i em longo prazo; moeda não-neutra em curto prazo = f( ilusão monetária e/ou oferta monetária inesperada )
Postulado da Não-neutralidade da Moeda:
mecanismo de transmissão indireto:
(+) Msn -> (-) J m-> (+) Q i = f(expectativas) ou mecanismo de transmissão direto: diferimento de gastos = retenção de moeda inativa: (-) Msn ativa
Postulado da Exogeneidade da Oferta da Moeda: variações da Msn X variações da Mdr = f( fatores determinantes independentes ):
Msn = f( reserva de ouro, reserva cambial, autoridade monetária ) X
Mdr = f( taxa de inflação, renda permanente, rendimentos de outros ativos, capital humano, atributo da liquidez) => variação de Msn perturba equilíbrio
pré-existente.
Postulado da Endogeneidade da Oferta da Moeda: variações da Mdc => variações da Msc: demanda de crédito efetiva oferta de crédito via contratação = f( risco do credor/ risco do devedor ) => não há oferta de moeda efetivamente em circulação sem haver demanda por moeda => Mdc e Msinterdependentes= f( relação de débito e crédito )
Postulado de uma Teoria Monetária dos Preços:
(+) Msn não determina variações de
P i / P 1  (precos relativos) em longo prazo => somente determina variação no P1 (nível geral dos preços)
Postulado de uma Teoria de Fixação de Preços: variações de mark-up => dispersão de Pi / P1 (com preços rígidos para baixo) => variações do Pse variações na Mdn
são sancionadas por variações na Msn

André Lara Resende, no segundo capítulo do livro “Juros, moeda e ortodoxia”, conclue: “a teoria da política monetária passou por grandes transformações nos últimos vinte anos. Depois de mais de sete décadas de preponderância, a Teoria Quantitativa da Moeda, a suposta relação estável entre moeda e preços e a oferta de moeda exógena foram deixadas de lado.

Em todas as disciplinas, teorias antigas acabam substituídas por outras mais recentes. Nas chamadas “ciências duras”, as novas teorias não só têm maior capacidade de explicação das evidências empíricas como são também capazes de apontar onde e por que as teorias superadas estavam equivocadas. Nas Ciências Sociais, sob a desculpa de que a realidade em si pode mudar, justificam-se grandes reversões teóricas sem que se faça necessário explicar como e por que a antiga ortodoxia foi superada pela nova.

A velha teoria monetária resistiu por muito tempo às evidências contrárias para ser simplesmente descartada como vítima da mudança das circunstâncias. O silêncio da profissão [?!] sobre a morte súbita da antiga Teoria Quantitativa revela o reconhecimento, a contragosto, de que durante muito tempo se insistiu numa teoria flagrantemente equivocada.

Por mais insatisfatória que seja, considerando sua influência e seu predomínio tão prolongados, a morte da Teoria Quantitativa da Moeda exige uma explicação apropriada.A constrangida recusa em dar a ela um enterro condizente deixou destroços por toda parte.

Os estilhaços de uma teoria implodida aumentam a perplexidade diante da incapacidade da nova ortodoxia de explicar o nível de preços, a inflação e a deflação. Para poder evoluir, a teoria monetária precisa compreender onde e por que esteve equivocada durante tanto tempo. Não pode, simplesmente, continuar a culpar a mudança das circunstâncias.

Como contribuição, aqui estão alguns pontos de partida:

  1. Os preços nominais desempenham papel fundamental em um mundo sem informações instantâneas e perfeitas.
  2. A característica essencial da moeda é servir como unidade de conta, a referência na qual os preços nominais são cotados.
  3. A moeda é uma convenção cuja função depende de certa estabilidade ou previsibilidade dos preços. Se os preços não são previsíveis, não há demanda por moeda.
  4. A demanda por moeda não é a demanda por ativos físicos, líquidos, mas a demanda por uma unidade de conta. A demanda por ativos líquidos é diferente da demanda por uma referência nominal para os preços individuais. A liquidez absoluta da moeda é tautológica, dado que seu valor unitário serve de referência para a cotação dos preços.
  5. A inflexibilidade dos preços reduz a velocidade de restabelecimento do equilíbrio, mas é essencial para a função de transmissão de informação da moeda. O excesso de volatilidade reduz o valor informativo dos preços. Mercados transitoriamente desequilibrados e desemprego temporário são os preços pagos pela estabilidade, ou pela previsibilidade, dos preços, sem a qual a moeda deixa de ser funcional.
  6. O grau de liquidez é a melhor aproximação do conceito de oferta de moeda em um sistema fiduciário. A liquidez é endógena, pró-cíclica e não está sob o controle direto do Banco Central. A quantidade de ativos com prêmio de liquidez nulo — isto é, ativos monetários — é apenas um dos elementos do grau de liquidez da economia.
  7. Pode haver uma oferta quantitativa de papel-moeda, uma vez que ele tem existência física, mas não uma oferta quantitativa da moeda fiduciária, dado que a moeda é uma convenção.
  8. O excesso de liquidez está positivamente correlacionado com a inflação dos preços dos ativos, mas não existe uma direção causal única; o processo se autorreforça.
  9. O excesso de liquidez nem sempre provoca inflação, mas altas taxas de juros reais— ou, mais precisamente, aumentos súbitos na taxa de juros — reduzem a liquidez e podem provocar crises financeiras. Em outras palavras, o excesso de liquidez não causa necessariamente problema, mas a insuficiência de liquidez é sempre problemática quando existe alavancagem.
  10. Grandes variações inesperadas da taxa de inflação têm sempre efeitos redistributivos, mas as reduções inesperadas da inflação aumentam o valor real das dívidas contratadas e provocam inadimplência. Com o sistema financeiro alavancado, uma súbita e significativa redução da taxa de inflação pode levar a crises bancárias.
  11. Com a aposentadoria decretada da TQM, não há explicação coerente para o que determina o nível de preços e a taxa de inflação. A inflação é resultado de expectativas essencialmente subjetivas.

Ao fim de sua longa análise da literatura sobre o problema da indeterminação do nível de preços na teoria monetária contemporânea, Cochrane afirma que, “se a inflação, efetivamente, se estabilizou nas economias contemporâneas através da combinação das metas de taxas de juros com curvas IS e de Phillips retroativas, os economistas de fato não têm ideia de por que isso ocorreu”. Ao fim da sua exaustiva resenha da teoria monetária contemporânea,a única conclusão possível é que há uma desconcertante incapacidade de se chegar a uma conclusão. [?!]

Em 1970, Milton Friedman, o defensor mais contundente e influente do monetarismo e da Teoria Quantitativa da Moeda, disse:

“Na realidade, essa interpretação da depressão estava completamente equivocada. Hoje, após o reexame da questão, está claro que a depressão foi o atestado trágico da eficácia da política monetária, e não uma demonstração de sua impotência. O que importava, porém, para o mundo das ideias não era a verdade em si, mas, sim, o que se acreditava ser a verdade.”

Friedman pode não ter tido razão em relação a inúmeras questões, mas estava certo quanto aos efeitos da política monetária equivocada, e tinha rigorosamente razão quanto ao que importa no mundo das ideias.”

Louvo “ter caído a ficha” de André Lara Resende no livro “Juros, moeda e ortodoxia”. Poderia ter caído muito antes, mas “antes tardia do que nunca”. Talvez este já seja um bom resultado de sua aproximação de ecologistas. Verificou o meio-ambiente intelectual brasileiro estar necessitando de oxigenação: os economistas ortodoxos lerem os heterodoxos — assim como estes o leem para os criticar construtivamente — e não os boicotarem no debate público.

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