Trópicos Utópicos: Uma Perspectiva da Crise Civilizatória

Fui ler o 11º. livro de Eduardo Giannetti (São Paulo: Companhia das Letras; 2016) com o interesse de pesquisar mais uma – talvez infrutífera, portanto, eterna – busca da identidade nacional contemporânea. Sim, ela parece mudar de acordo com o tempo. A máxima “a história é sempre a mesma, os historiadores mudam” não se aplica em uma história mutante. No Brasil, até o passado é incerto, porque a cada leitura dos fatos eles se adequam às hipóteses de seus intérpretes. Fazem profecia do passado com a mesma falta de pudor observada em previsão reversa, tipo “desfritar um ovo”.

Um modelo de causalidade social dependente da trajetória (path dependent) rejeita o postulado tradicional de as mesmas forças operativas gerarem os mesmos resultados em todos os lugares – e tempos. Esse conceito propicia uma ferramenta analítica para se entender a importância de sequências temporais e do desenvolvimento, no tempo, de eventos e processos sociais.

Ao contrário, a compreensão intuitiva de causalidade histórica adota o método cronológico para contar uma história para si. Para descobrir a lógica do mundo real — se ela existe –, busca entender os detalhes de como ele alcançou o “ponto-de-chegada atual”.

O risco nessa análise retrospectiva, a partir de hoje, é só contar “a história dos vencedores” e esquecer-se das alternativas e dos dilemas na tomada de decisões em encruzilhadas históricas. Nesse historicismo, não se afasta do truísmo – verdade incontestável ou evidente por si mesma, coisa tão óbvia a ponto de não precisar ser mencionada, tal a banalidade ou a obviedade – de diagnosticar: “o presente é assim porque o passado o levou a isso”…

Trópicos Utópicos deixa o leitor brasileiro, de imediato, com o sabor amargor de viver nos tristes trópicos. Aqui também vive uma elite pensante, bem formada no exterior, a se dedicar às letras para se imortalizar na Academia. Lá, em “chás da cinco”, troca impressões superficiais a respeito de telurismo – influência do solo de uma região sobre o caráter, os costumes etc. de seus habitantes.

Erudição é o saber aprofundado em um ramo do conhecimento. É fruto de instrução, cultura vasta e variada. Pedante é um adjetivo na língua portuguesa para qualificar alguém exibicionista, de modo arrogante, de seu grau de erudição ou cultura. De modo substantivo, o termo pedante nomeia o autor em busca de aparentar ter conhecimentos não possuídos na realidade.

O autor aparenta ser uma pessoa pretensiosa ao autovalorizar demasiadamente seus conhecimentos como fossem superiores ao de todos os outros, quando na realidade não é. O pedante sempre considera o seu ponto de vista mais correto pelo fato imaginado por si ser intelectualmente mais avançado em relação ao imaginário dos colegas.

Porém, não se deve apelar ao argumento ad hominem (“ao homem”), atacando a pessoa, em vez da opinião emitida por ela. Não tenho a intenção de desviar a discussão para desacreditar a priori a proposta desse oponente liberal a economistas social-desenvolvimentistas.

Um mau exemplo disso seria dizer: “Você é economista, portanto, por que não se atém aos assuntos da sua área?” O fato de alguém não ser filósofo não tem qualquer impacto no mérito de seu argumento – a não ser em um caso de somente filósofos poderem estar corretos sobre o assunto. Não, isso não reforça em nada esta resenha do seu livro.

Para apreciar uma obra de arte, quanto mais conhecimentos tivermos a respeito da criação, mas saberemos a avaliar. Separemos, então, a criatura da figura do criador.

Antes, compartilhemos a informação. Ele busca retratar “a brasilidade” também em seu 12º. livro, “O Elogio do Vira-Lata”, promovido pela Companhia das Letras em entrevista no caderno Valor Eu&Fim-de-Semana de 08/06/18). Segundo Giannetti, o ensaio, cujo título dá nome à coletânea, nasceu como resposta à crítica feita pelo economista Pérsio Arida a “Trópicos Utópicos”, seu livro anterior aqui a ser resenhado.

“Ele apontou para o fato de que a utopia brasileira não havia sido completamente desenvolvida na obra”, afirma. “Percebi que ele estava absolutamente certo: não fui paciente para aprofundar o tema”, disse Giannetti.

[Qualquer leitor poderia lhe dizer isso, não necessitava apelar para o “argumento de autoridade” para reconhecer essa propaganda enganosa: mais um livro com uma embalagem não correspondente ao conteúdo. A opção pelo jogo de palavras no título seduz mais ao intelectual brasileiro: Trópicos Utópicos. Rima, né?]

Nasceu então o novo livro. O Brasil pode encontrar combinação mais bem resolvida entre a espontaneidade e o nível básico de ordem civilizatória. Essa é a promessa de uma cultura miscigenada como a brasileira, na qual se integrou de maneira única o componente afro-ameríndio com o europeu. “Não há nada errado em ser vira-lata”, diz Giannetti, resumindo a ideia de sua nova obra. “Prefiro ser o vira-lata do que o poodle da madame ou o dobermann da polícia”.

[Argumento tão engraçadinho quanto dizer “prefiro a solidão da minha Mercedes do que o aperto do busão”.]

Agora, ele passa a colaborar na elaboração do programa da eterna pré-candidata à Presidência: Marina Silva (Rede Sustentabilidade). Sua participação, porém, será́ menor em comparação à da campanha anterior, quando a viabilidade da candidatura ganhou peso após a morte de Eduardo Campos. Giannetti tem evitado participar de eventos e debates para não obter um protagonismo indesejado. [rs, rs, rs]

[De fato, é estranho os críticos contumazes do Estado no Brasil adorarem tomar posse dele… Só para destruí-lo.]

Na citada entrevista, ele solta algumas ideias das quais muitos brasileiros não discordariam. Cito-as em seguida, antes de iniciar a resenha do livro propriamente dita.

“No Brasil, o ânimo coletivo oscila de maneira muito pronunciada em curto espaço de tempo, de um pessimismo terminal para um otimismo eufórico e vice-versa. Provavelmente, não éramos tão bons quanto imaginávamos e também não somos tão ruins agora.”

[Entre euforia e pânico oscilam também os endividados participantes de O Mercado. E entre a felicidade e a infelicidade oscilam os torcedores de futebol — exceto, lógico, os do meu time: só dá alegria! Quando vence… 🙂 ]

“Outro ponto é não confundir o circunstancial da conjuntura com o permanente da cultura. O circunstancial da conjuntura é passageiro, enquanto o permanente da cultura brasileira é um ativo que temos de saber trabalhar.”

[Nesse caso, curiosamente, Giannetti resgata a boa abordagem estruturalista e cultural dos cepalinos.]”

“Os livros clássicos da formação econômica e cultural do Brasil trazem coisas que parecem estar falando para nós diretamente agora. Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Gilberto Freyre detectaram traços profundos e permanentes da vida brasileira. Alguns ruins, outros bons e belos. O Sérgio Buarque relata sobre um comerciante da Filadélfia reclamando que, no Brasil, para ter um cliente ou só́ um sócio, é preciso fazer dele um amigo. Acho isso belo. Nós, brasileiros, demandamos um tipo de afetividade nas relações humanas que é valioso”.

[O que não é belo é o compadrismo no trato da coisa pública para o qual o exigido é a impessoalidade.]

“A utopia e o sonho de realização da cultura brasileira são distintos. Investimos pouco na elaboração do sonho brasileiro, que é diferente do sonho americano. (…). O Brasil ainda não tem em seu imaginário o correspondente ao que seria o sonho brasileiro: quais valores nos definem e qual a possibilidade de originalidade da nossa cultura. Não é trabalho de um profeta inspirado, mas a cultura de uma coletividade.”

[Ato falho: ele se dedica ao “trabalho de um profeta inspirado” na interpretação da cultura da coletividade brasileira.]

“Tenho certeza de que esse complexo de inferioridade não nos acompanhará para sempre. Pelo contrário, acho que ele pode perfeitamente ser superado. O Brasil tem uma população que não é pura: não é a raça pura, não é a vontade pura, não é a lógica pura, não é a razão pura. Eu acho isso maravilhoso. Quanto mais mistura, melhor.

Sacrificar tudo, em nome de construção da infraestrutura, não leva a nada. O Brasil pode encontrar combinação mais bem resolvida entre a espontaneidade e o nível básico de ordem civilizatória. Essa é a promessa de uma cultura miscigenada como a brasileira, na qual se integrou de maneira única o componente afro-ameríndio com o europeu.”

[Chamo essa mistura de Tropicalização Antropofágica Miscigenada. Estão aí pontos de concordância cultural entre polos de antagonismos aparentemente inconciliáveis: o neoliberalismo e o social-desenvolvimentismo.

Em terra de antagonismos tão fragrantes, necessitamos novamente da conciliação. Desta feita, sem abrir mão, de um lado, da liberdade de mercado, de outro, da busca da igualdade social, entre os dois, o terceiro valor republicano: a fraternidade na convivência pública de coxinhas, mortadelas e isentões.]

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