Plano A-Parente Serpente da Petrobras para BRF: “Dois Passos Atrás Para Um A Frente”…

Luiz Henrique Mendes (Valor, 02/07/18) apresenta um estudo de caso relevante para se entender como estão as grandes empresas brasileiras.

Era 3 de dezembro de 2015. No melhor ano de sua história, a BRF anunciava, de um vez só, três aquisições no exterior, por US$ 500 milhões. Estava em curso o projeto liderado pela gestora de recursos Tarpon e pelo empresário Abilio Diniz para transformar a companhia em um negócio global. De lá para cá, porém, a maré virou. Na última sexta-feira, a companhia de alimentos anunciou que aqueles negócios adquiridos em 2015 serão vendidos – e em conjunto com outros ativos.

Substituto de Abilio na presidência do Conselho de Administração da BRF desde 27 de abril e CEO da empresa há duas semanas — depois da “greve dos caminhoneiros” lhe dar um “passa-fora, moleque” da Petrobras com sua estapafúrdia política de reajustes diários dos preços dos combustíveis –, Pedro Parente anunciou uma “freada de arrumação” para tirar a empresa da crise, o que provocará a demissão mais de 4 mil funcionários no Brasil. Com a venda de ativos e outras medidas como a antecipação de recebíveis, a BRF pretende obter R$ 5 bilhões ainda neste ano.

Em teleconferência com analistas de O Mercado, o vice-presidente executivo global da BRF afirmou que a maior parte dos R$ 5 bilhões que a companhia pretende obter virá das vendas das operações na Europa, na Argentina e na Tailândia. Essas operações foram responsáveis por mais de R$ 3 bilhões em vendas no ano passado: 10% do faturamento de R$ 33 bilhões reportado pela companhia.

Ao deixar de produzir nessas regiões, a BRF vai concentrar a atuação:

  1. no Brasil, onde é a líder com as marcas Sadia e Perdigão,
  2. nos mercados muçulmanos (sobretudo no Oriente Médio) e também
  3. na Ásia.

O plano de vender ativos embute riscos. Diante da meta de obter R$ 5 bilhões já em 2018, os potenciais interessados nos ativos ganharão poder de barganha. A jornalistas, Pedro Parente tentou afastar essa hipótese. “Não antecipamos nenhum desconto. Queremos vendê-los pelo valor justo”, disse, ressaltando a posição de caixa da companhia. “Nosso caixa é suficientemente grande para não fazer nenhuma decisão apressada”, acrescentou o CEO da BRF.

Em O Mercado, também há dúvidas sobre o sucesso da venda dos ativos na Argentina, onde a BRF é dona de marcas líderes nas categorias de salsicha e hambúrguer. Dois executivos do setor com experiência no mercado argentino argumentaram que a crise econômica no país sul-americano poderá afastar os interessados. Um desses executivos estimou que os ativos da BRF na Argentina estão avaliados em cerca de US$ 500 milhões.

Na Tailândia, onde a BRF é dona da Golden Foods Siam – a tailandesa foi comprada por US$ 360 milhões -, o interesse pelo ativo deve ser maior, de acordo com uma fonte que conhece a fundo o mercado asiático. No longo prazo, a saída da Tailândia poderá ser vista como um grave erro, segundo um analista.

A questão é que os tailandeses vêm desafiando o Brasil no mercado global de frango no últimos anos. Para a BRF, estar no país asiático seria uma forma de minimizar o impacto da redução da exportação da carne de frango brasileira.

Durante a teleconferência, o vice-presidente de finanças e relações com investidores da BRF argumentou que a saída da empresa da Tailândia, Europa e Argentina terá uma efeito positivo sobre a rentabilidade. Segundo ele, a margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) dos ativos que serão vendidos é menor que a margem dos ativos que restarão.

Outra justificativa para a escolha dos ativos que serão vendidos é o embargo da União Europeia a todos os frigoríficos da BRF no Brasil. A reversão desse embargo pode levar dois anos. Com isso, as operações da BRF na Europa são bastante prejudicadas, dado que a exportações de frango por meio do Brasil abasteciam centros de distribuição no continente europeu.

Os executivos da BRF não comentaram na teleconferência, mas há um lógica por trás da saída simultânea da Europa e da Tailândia. A operação tailandesa tem seu foco na exportação de frango cozido para o mercado do Reino Unido.

Pelos cálculos dos analistas do BTG Pactual, a venda das operações na Argentina, Tailândia e Europa pode render US$ 1,069 bilhão: o equivalente a R$ 4 bilhões. Quase metade (US$ 472,6 milhões) desse montante estimado deve vir da operação argentina. Para fazer os cálculos, os analistas somaram o montante que foi pago pela empresa quando comprou os ativos.

Os investidores reagiram de forma positiva ao plano de Pedro Parente, que pretende obter R$ 5 bilhões ainda neste para a BRF contornar a crise financeira que enfrenta. Para obter esse montante, a empresa venderá as operações que tem na Argentina, Tailândia e Europa. Ativos não operacionais (florestas, galpões comerciais e participações minoritárias) também devem ajudar a companhia a alcançar os R$ 5 bilhões, assim como a antecipação de recebíveis.

Em relatório, o Credit Suisse revisou a recomendação para as ações da BRF. Os analistas, que antes recomendavam a venda das ações (rating underperform), mudaram sua avaliação para neutra, o equivalente a recomendar a manutenção dos papéis da BRF. O Credit Suisse manteve, no entanto, o preço-alvo das ações em R$ 18.

Na avaliação do Credit Suisse, o plano de venda de ativos agradou aos investidores porque evita o aumento de capital, uma alternativa que vinha sendo aventada no mercado. Isso tinha, como contraindicação, a diluição dos acionistas.

Contudo, a BRF ainda terá de superar muitas dificuldades. Há dúvidas se conseguirá obter o valor justo pelos ativos se quiser mesmo fechar as transações neste ano. Além disso, os analistas do Credit Suisse ponderaram que a BRF precisa resolver uma série de questões, como o impacto do pagamento de impostos na venda dos ativos na Europa.

Outra dúvida diz respeito ao ciclo negativo que a BRF enfrenta, sobretudo no mercado de carne de frango. “As medidas [anunciadas pela BRF] serão suficientes se o ciclo não melhorar?”, indagam os analistas do Credit em relatório.

Embora reconheçam que o plano da BRF é “bem-vindo” por revelar o senso de urgência dos principais executivos para a redução do endividamento da companhia, os analistas do BTG ressaltaram que os ativos que a empresa colocou à venda representam um passo atrás em sua estratégia internacionalização. Aproximadamente dois terços dos ativos no exterior comprados pela BRF após 2013, quando Abilio Diniz assumiu o Conselho de Administração da empresa, serão vendidos.

Os analistas do BTG e do Credit Suisse chamaram ainda atenção para os resultados da BRF em 2018. Poderão ser ainda piores do que o esperado.

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