Por que o País está Atrasado: Falta de Capacidade de Inovação e Autonomia Tecnológica

 

Paulo Gala deu a dica em seu blog: as analises de complexidade também tem boa aderência para explicar diferenças de renda entre regiões dentro dos diversos continentes. Estudo recente do FMI, reproduzido abaixo, destaca esse padrao de complexidade  dos vários sistemas produtivos mundo afora: Crescimento na América Latina e no Caribe – Questão de Complexidade.

“O crescimento na América Latina e no Caribe vem sofrendo uma desaceleração significativa nos últimos anos. Parte dessa desaceleração aparenta ser permanente, como apontam as mais recentes projeções de médio prazo feitas pelo FMI. Infelizmente essa história parece bem familiar, considerando as históricas dificuldades da região para melhorar seu desempenho comparativo em termos de crescimento.

Sem contar a “década de ouro” de 2003–11, período em que a alta dos preços das commodities impulsionou uma forte expansão econômica, por que a região não tem sido capaz de sustentar taxas de crescimento elevadas o suficiente para recuperar o atraso em relação às economias mais avançadas? Parte da resposta está no êxito modesto da América Latina em diversificar sua produção para incluir bens mais intensivos em conhecimento — ou complexos.

Em um estudo recente, Ricardo Hausmann e Cesar Hidalgo introduziram o conceito de complexidade econômica como um fator determinante do crescimento e desenvolvimento a longo prazo. O conceito busca medir o conhecimento produtivo de um país a partir da variedade e sofisticação dos bens exportados. Economias mais complexas tendem a exportar uma variedade maior de produtos, e esses produtos tendem a ser mais intensivos em conhecimento. Dada a dependência considerável da América Latina em relação às exportações de commodities, é tentador concluir que a falta de diversificação e complexidade constitui um importante obstáculo ao crescimento.

O que os dados nos dizem sobre este argumento? A região é mesmo menos complexa do que as outras? Quão grandes são as desvantagens associadas à menor complexidade? E o que se pode fazer a respeito? Analisamos essas questões na mais recente edição de nosso relatório sobre as perspectivas econômicas regionais.

Economias mais complexas têm, em média, níveis mais elevados de renda per capita, o que é consistente com o argumento de Hausmann. Os dados mostram também que a América Latina e o Caribe são muito menos complexos do que as economias avançadas ou as novas economias industrializadas da Ásia, que representam exemplos bem sucedidos de crescimento econômico nas últimas décadas. Nota-se também que os níveis de complexidade têm estagnado ou mesmo recuado na América Latina e no Caribe desde 1970, ainda que a região não pareça estar em pior situação do que o grupo mais amplo de economias emergentes.

Os dados sobre complexidade apenas refletem os níveis atuais de prosperidade ou podem também indicar algo sobre as futuras tendências de crescimento? Um estudo de Hausmann e seus coautores sugere que a complexidade de fato ajuda a prever o crescimento a longo prazo do PIB per capita. Nós retomamos essas questão, considerando diversas extensões econométricas e utilizando dados de um painel de mais de 100 países entre 1970 e 2010. Nossos resultados confirmam a importância da complexidade como preditor do crescimento a longo prazo, juntamente com outras variáveis relevantes, como demografia, exportação de matérias primas e indicadores de estabilidade macroeconômica.

Utilizamos então os resultados dessas estimações para aferir implicações quantitativas para os diferentes países na América Latina e no Caribe. Diferentes níveis de complexidade na região podem explicar divergências de quase um ponto percentual no crescimento anual per capita. Assim, se excluirmos os demais determinantes do crescimento, as economias mais complexas da região (como o México e o Brasil) crescem a cada ano um ponto percentual mais rápido do que as menos complexas.

Contudo, os dividendos da complexidade em termos de crescimento podem ser neutralizados por outras variáveis. Por exemplo, cada ano de instabilidade macroeconômica pode reduzir o crescimento acumulado do PIB per capita em 2 pontos percentuais ao longo de uma década. Maiores taxas de dependência também reduzem o crescimento de forma significativa, o que chama atenção para as tendências demográficas da região nas próximas décadas.

Quais são as implicações de políticas de nossos resultados e de outros estudos sobre o tema para a América Latina e o Caribe?

  • A complexidade é importante para o crescimento a longo prazo, mas aumentá-la não é suficiente. Em especial, as autoridades precisam também manter o foco na estabilidade macroeconômica.
  • Reformas estruturais devem permanecer uma prioridade na região. A América Latina e o Caribe continuam defasados em diversas áreas estreitamente associadas à complexidade econômica (infraestrutura, educação e abertura do mercado). Progressos mais robustos nessas áreas representam a forma mais natural de apoiar o aumento da complexidade e do crescimento.
  • Enquanto isso, deve-se tratar com cautela o novo impulso às políticas ativas de desenvolvimento. O debate sobre novas abordagens estratégicas nessa área é salutar, mas ainda é preciso compreender de forma mais sistemática os custos e riscos associados a tais políticas antes de expandi-las. As experiências anteriores com políticas industriais na região servem de alerta, sobretudo para os países em que a governança e a qualidade institucional permanecem deficientes.
  • Ainda assim, os dados sobre a complexidade econômica podem ajudar os países a compreender melhor suas vantagens comparativas e a avaliar o potencial de expansão do conhecimento produtivo em cada caso. Pode-se, por exemplo, utilizar os dados para fundamentar negociações comerciais e de investimento e, assim, melhor alavancar a base de conhecimentos do país em questão.

    Em suma, a complexidade parece ser um dos principais determinantes do crescimento econômico a longo prazo, bem como uma lente útil para analisar o desenvolvimento da capacidade produtiva dos países.”

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