Economia do Intervencionismo: Falácia do Espantalho

Em seu “pensamento preto ou branco”, Fabio Barbieri no livro “A Economia do Intervencionismo” (São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil; 2013) reduz tudo no âmbito da discussão a duas categorias opostas: ao rejeitar uma das opções, o interlocutor não teria alternativa a não ser aceitar a outra.

Por exemplo, critica “a sugestão de intervenções estatais para corrigir as ‘falhas de mercado’ (a incapacidade de gerar equilíbrios eficientes no sentido de Pareto)”. Mas, critica também os economistas por adotarem dois pesos e duas medidas na hora de comparar mercados com Estado: “embora se suponha que os agentes privados sejam movidos pelo autointeresse, os agentes públicos são altruístas maximizadores do bem-estar coletivo. Na verdade, a ação estatal não é modelada em absoluto – o Estado é tratado como uma entidade benevolente incorpórea. Nessa visão romântica sobre o Estado, os políticos não buscam poder e os funcionários públicos não são tentados por renda extra.”

Essa ironia não consegue esconder sua confusão mental ao reduzir tudo a igual e contrário. Assim, cai em falsa dicotomia com a exclusão apriorística de uma terceira (ou mais) possibilidade(s). Seus leitores não podem cair nesse falso dilema.

Reclama sem razão do debate público por maior espaço ser dedicado às falhas de mercado, “sequer uma linha é escrita sobre falhas de governo”. O que?! Aqui e agora?!

Critica: “na pesquisa teórica, a arte da abordagem do nirvana atinge seu coroamento na obra de Stiglitz [economista keynesiano ganhador de Nobel em Economia]. Para este autor, além de benevolente, o Estado é quase onisciente.” Mas Barbieri critica também os economistas neoclássicos: “se abandonarmos a superstição neoclássica de que estamos sempre em equilíbrio e estes são alcançados magicamente, [seria o caso de] perguntar de onde viriam as inovações se burocratas conduzissem o investimento ou como eles lidariam com as adaptações necessárias diante das mudanças que ocorrem diariamente. Em vez disso, somos informados que o único problema de assimetria informacional se refere ao monitoramento dos burocratas. O principal, o planejador, aparentemente está livre de erros.” Para ele, o tecnoburocrata está condenado a cometer erros!

Curiosamente, os extremos ideológicos se aproximam ao ele adotar a crítica da chamada “financeirização”: “Mas em nenhuma parte o ardor da ideologia estatista se manifesta com mais furor do que na tarefa de chamar de liberal aquilo que é a antítese do liberalismo, como, por exemplo, o sistema monetário-bancário atual, sustentáculo do Estado grande e interventor.”

Mas a objeção ao socialismo, feita com base na tese sobre a impossibilidade do cálculo econômico, ele considera a mais fundamental. Apresenta seu argumento: o socialismo não seria viável, pois os trabalhadores não teriam nenhuma indicação a respeito de como seus esforços deveriam ser empregados. Em outros termos, as decisões produtivas seriam tomadas às cegas, isto é, sem consideração sobre a importância dos usos alternativos dos recursos.

Visto o argumento mais de perto, ele se baseia no custo de oportunidade: “qualquer decisão produtiva deve comparar o valor do bem produzido com o valor daquilo que se deixou de produzir com os mesmos recursos, ou seja, deve-se comparar o valor com o custo de oportunidade dos recursos.”

Volta ao argumento atemporal. “Essa comparação é feita em qualquer sociedade, seja qual for o seu grau de desenvolvimento”. Desde sociedades tribais, cujas decisões produtivas são tomadas centralmente, não importa se por um chefe ou conselho tribal, até sociedades mais ricas, cujo grau de especialização das tarefas é maior, não é possível que uma única mente ou grupo conceba conscientemente os usos alternativos dos recursos. O grau de complexidade dessas economias é apenas possível enfrentar devido ao cálculo econômico– a comparação de valores e custos de oportunidades com o auxílio de valores monetários derivados de um sistema de preços.

Daí defende a tese de “toda sociedade se deparar com o problema alocativo, conhecida como tese da similitude formal entre os diferentes sistemas econômicos”. Afirma: “Se a tese da similitude formalfor entendida, não tem sentido a crença historicista nutrida por Marx e outros de que as categorias como preços, valor, custos, lucros ou juros só teriam sentido naquilo que denominam “capitalismo”.”

Então, ele contrapõe seu guru intelectual ao Marx. “Para Mises, por outro lado, a abolição da propriedade privada levaria não a substituição do ‘caos da produção capitalista’ por um sistema racional, como quer Marx, mas, pelo contrário, levaria ao abandono da racionalidade nas decisões econômicas. Sem propriedade privada, não teríamos mercados desenvolvidos. Sem mercados, não existiriam preços de mercado. Sem estes, não é possível comprar a importância daquilo produzido com o seu custo de oportunidade, ou seja, não é possível realizar cálculo econômico. Sem este, as decisões alocativas seriam arbitrárias, o que resulta em desperdício de recursos e em última análise colapso do complexo sistema produtivo atual, cuja produtividade torna possível sustentar a população presente.”

Curiosamente, ele apela para a Economia como Sistema Complexo. “Essa crescente especialização gera uma complexidade cada vez maior do sistema: a produção de um bem qualquer envolve a cooperação de incontáveis componentes, de crescente número de bens de capital e de inúmeras firmas cujas atividades devem ser coordenadas entre si. Mises percebeu que esse aumento de complexidade é tal que seus detalhes não podem ser percebidos por uma única mente (ou grupo de mentes) de forma consciente.

Se as decisões produtivas tivessem que ser conscientes, “não alienadas”, haveria um limite à expansão da complexidade do sistema econômico. O uso do sistema de preços em uma economia livre, para o autor, permite que ocorra uma espécie de “divisão intelectual do trabalho”: cada firma decide o que produzir levando em conta a lucratividade do empreendimento, conhecendo apenas os fatores que afetam o seu mercado específico, sem saber cada detalhe dos incontáveis fatores que afetam os usos alternativos dos recursos nos outros mercados. Isso permite que a complexidade do sistema seja expandida, contornando assim a limitação do conhecimento dos agentes”.

Este é um bom argumento, porém, logo Barbieri o abandona para voltar ao seu anacrônico anticomunismo visceral. Essa obsessão até hoje com a Guerra Fria embrutece a direita.

“Se o socialismo é de fato impossível, o que dizer sobre a União Soviética e outros experimentos do gênero? Os defensores do socialismo, geralmente depois do fracasso desses experimentos, tendem a renegar o status socialista desses países, apelando para termos como “Capitalismo de Estado” e coisas do gênero.

Se levarmos em conta a tese de Mises, de fato devemos concordar com a tese de que não eram socialistas, mas sim regimes mercantilistas ou economias altamente intervencionistas. A abolição do sistema de preço e dos mercados no início do experimento russo, com efeito teria, segundo a nossa tese, resultado no colapso do sistema econômico e a perda de poder dos bolchevistas. A NEP, ao reintroduzir o sistema de preços, embora de forma bastante imperfeita, permitiu, com o auxílio dos preços internacionais, que o cálculo econômico fosse realizado.”

Superestimando o argumento do cálculo econômicocontra os fatos históricos, para seguidores de Mises, a crise econômica no início do regime soviético não pode ser atribuída à guerra e a ausência de comércio exterior, como reza a interpretação hoje dominante, mas sim à impossibilidade do cálculo econômico.

“Reconhecida importância da complexidade do sistema produtivo e da dificuldade em levar em conta todos os elementos necessários para uma decisão alocativa econômica, a tese de Mises, lança o desafio: como resolver o problema do cálculo no socialismo?

Em vez de responder à pergunta de maneira pertinente, Barbieri volta à Petição de Princípio, ou seja, à conclusão já assumida, implícita ou explicitamente, em uma ou mais das suas premissas.

“Embora não exista resposta adequada ao desafio de Mises, o argumento do autor mudou para sempre os termos do debate em torno do socialismo. Não mais é satisfatória a defesa do mesmo apenas na condenação do “capitalismo”: algo precisa ser dito sobre o que fazer depois assumir o poder. A falta de propostas viáveis, como é bem sabido, sempre assombrou os políticos de esquerda quando ganham eleições em economias “capitalistas”.”

Ora, Fabio Barbieri, no livro “A Economia do Intervencionismo”, confunde eleiçãocom revolução. Má fé ou ignorância? Ambos. Sua crença ultraliberal em um sistema de preços livres acima de tudo o leva à ignorância dos fatos históricos.

Para pensar com sabedoria, deveria afastar a Falácia do Espantalho e não apresentar de forma caricata o argumento da outra ideologia, com o objetivo de atacar essa falsa ideia em vez do argumento em si. A esquerda democrática contemporânea não despreza o sistema de preços relativos como um indicador crucial em economia de mercado. Defende sim conquistas da cidadania em quantidade capaz de provocar mudança na qualidade de vida. Dentro dessas conquistas certamente estará a diminuição da desigualdade social existente na economia de mercado.

Em essência, essa esquerda respeita a crítica feita por Ludwig von Mises ao socialismo idealizado antes da experiência do socialismo realmente existente: “sem propriedade privada não existiriam mercados, necessários para a formação de um sistema de preços. Sem estes preços para guiar as decisões, por sua vez, não seria possível alocar recursos escassos levando em conta seus usos alternativos em uma economia complexa, a menos que tais decisões fossem feitas por agentes oniscientes.”

A esquerda democrática não pretende mais nem a eliminação da propriedade privada, considerada uma conquista social contra a concentração da riqueza, nem um planejamento central totalitário. Mas defende a ideia de uso social da propriedade, ou seja, a responsabilidade social e ambiental dos proprietários. Contra o planejamento totalitário, acena com a regulação do mercado para evitar este sem nenhum limite levar sua exploração ao máximo. Combaterá trustes, carteis, oligopólios e monopólios, afinal, essas estruturas de mercado prejudicam sim o funcionamento adequado do sistema de preços relativos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s