Pensamento Vermelho ou Amarelo

Guerra Fria é a designação de um período histórico de disputas entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a extinção da União Soviética em 1991. Os norte-americanos defendiam o capitalismo, a democracia, princípios como a propriedade privada e a livre iniciativa. Os soviéticos defendiam o socialismo e princípios como o fim da propriedade privada, a igualdade econômica e um Estado forte capaz de garantir as necessidades básicas de todos os cidadãos.

Dado o temor da resolução do confronto pela via da guerra nuclear, as duas nações passaram a disputar poder de influência política, econômica e ideológica em todo o mundo. Em nome do anticomunismo, a casta dos guerreiros-militares se estabeleceu.

Até hoje?! Não se tornou anacrônico o anticomunismo? Quase três décadas após, em época da geração Millenium (nativa digital), contraria a cronologia da história por estar em desacordo com os usos e costumes democráticos de nossa época. Quem o advoga até hoje é contrário ao tempo moderno. É um retrógrado ou reacionário por ser hostil à democracia e se opor a quaisquer ideias voltadas para a transformação da sociedade.

Na realidade, a retórica da intransigência se repete, secularmente, desde o início das lutas por conquistas sociais, com três teses reacionárias:

  1. Tese da Futilidade: todas as tentativas de transformação social serão infrutíferas, porque, simplesmente, não conseguirão 
“deixar uma marca”;
  2. Tese da Ameaça: o custo de oportunidade quanto a qualquer reforma ou mudança proposta é alto demais, porque coloca em perigo outra preciosa realização;
  3. Tese da Perversidade: qualquer ação proposital para melhorar determinado aspecto da ordem econômica, social ou política só serve para exacerbar a situação a se remediar.

Um exemplo dessa retórica reacionária foi a justificativa da reforma trabalhista. Cortou benefícios sociais com base em um falso argumento: “os trabalhadores perderam o emprego por causa da imposição dos direitos trabalhistas”.

O pensamento preto ou branco, desde a volta do golpismo no Brasil, é um lixo reciclado apenas com troca de cores: vermelho ou amarelo, mortadela ou coxinha, petralha ou tucanalha, e adjetivos pejorativos como tais expressos em discursos de ódios mútuos. Expressa um falso dilema ou uma falsa dicotomia com a exclusão de uma terceira ou mais opções. Reduz tudo no âmbito da discussão pública a duas categorias opostas: ao rejeitar uma das opções, o interlocutor não teria alternativa a não ser aceitar a outra.

O maniqueísmo é a doutrina fundada em princípios opostos, bem ou mal, segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo. Porém, entre a escuridão e a luz, existe a penumbra. Entre o preto e o branco, não existe apenas o cinza, mas sim um arco-íris de colorações políticas.

As posições “progressista” e “reacionária” não constituem monopólios permanentes. A reação, defensora de algum sistema político extremamente conservador, contrário às ideias resultantes
em importantes transformações político-sociais, muda de defensores ideológicos. Sem alternância democrática no Poder, o que antes era popular, avançado e democrático pode se tornar populista, corporativista, retrógrado ou totalitário. O que antes era liberalizante com flexibilização e desregulamentação pode se tornar elitista, esnobe, privatizante e desnacionalizante.

Para o neoliberalismo, existe uma ordem natural e de equilíbrio para os fenômenos econômicos, sendo esta ordem alcançável pelo livre jogo da concorrência e através da não intervenção do Estado no mercado. O individualismo explica os fenômenos históricos ou sociais por meio da ação consciente de indivíduos livres. 
A sociedade deve visar, acima de tudo, o bem dos indivíduos em vez da coletividade ou do Estado.

As explanações sobre os fenômenos macrossociais, de acordo com o individualismo metodológico, são dedutíveis de crenças e decisões dos indivíduos. A ele se contrapôs o holismo metodológico: os conjuntos sociais têm comportamentos não redutíveis diretamente às crenças, atitudes e ações dos indivíduos.

O primeiro se ocupa mais da microeconomia: a forma pela qual as unidades individuais componentes da economia agem e reagem umas sobre as outras.
Foca as decisões particulares ex-ante. “Estuda as árvores, não a floresta”. Quem vê esta é a macroeconomia ao focalizar o comportamento do sistema econômico como um todo. Estuda as relações entre os agregados estatísticos. Enfoca a resultante sistêmica ex-post da pluralidade de decisões particulares.

Apreciação ex-ante é a antevisão do esperado em um tempo futuro. Apreciação ex-post é a análise do registrado durante um intervalo de tempo passado.

Os critérios para classificar alguém como de direita ou de esquerda podem ser colocados em pares contrapostos, primeiro à esquerda, depois à direita. São, respectivamente, os seguintes.

Os homens são todos iguais entre si. Cada indivíduo é particular e diferente dos demais.

Quem busca aquilo comum capaz de unir os homens em uma coletividade com boa convivência, está na margem esquerda e pode ser chamado de igualitário. Quem acha relevante, para a melhor convivência, a diversidade e/ou a competitividade, está na 
margem direita e pode ser chamado de individualista.

São de esquerda as pessoas lutadoras pela eliminação das desigualdades sociais. A direita insiste na convicção de desigualdades serem naturais e, enquanto tal, não são elimináveis.

A esquerda prioriza a proteção contra a competição social. Na escolha entre 
a competitividade e a solidariedade, enfatiza esta última. A direita confia que as desigualdades sociais possam ser diminuídas quando se favorece a competitividade geral. Ela minimiza a proteção social e maximiza o esforço individual.

Quem acredita a civilização humana ser fundada pela negação da herança natural, contra as forças instintivas e cegas da natureza, é de esquerda. Quem acredita na essência humana como essencialmente egoísta e imutável é de direita.

Há posicionamentos da esquerda e da direita em temas econômicos. Os pares contrapostos estão a seguir.

O keynesiano defende o governo assumir a responsabilidade por investir para a economia retomar o crescimento. O neoclássico defende empresas privadas serem as únicas responsáveis pelos investimentos, mesmo durante uma crise, pois esta é depuradora da economia de mercado.

Para uns, cabe salvar “empresas grandes demais para falir” por causa do risco de provocar crise sistêmica e desemprego. Para outros, o melhor é deixar quebrar – e sanear. Isto está de acordo com a implacável Lei de Mercado.

De um lado, a regulação da economia de mercado é necessária para evitar a superexploração da força do trabalho e do ambiente natural por parte do capital privado. De outro, quanto menor for o intervencionismo governamental, melhor será para a livre competição entre as empresas privadas.

Leis trabalhistas, para os trabalhadores, protegem contra superexploração. Leis trabalhistas, para os patrões, encarecem o custo de contratação de mão-de-obra, prejudicando o emprego.

Para caridosos, políticas sociais ativas compensam a desigualdade de oportunidades. Para implacáveis, sem proteção social os indivíduos têm iniciativa para empreender.

Para a consciência socialista, paga-se tributos para ter segurança, educação e saúde públicas. Para a consciência privatista, é preferível pagar menos impostos e contratar serviços particulares.

Posicionamentos da esquerda e da direita quanto a comportamentos são ainda mais contrastantes.

O ateísmo é um posicionamento contra o criacionismo na visão dos cientificistas. Acreditar em um deus torna as pessoas melhores na visão dos religiosos.

Paradoxalmente, as ideologias libertárias parecem se inverter quanto às drogas. De um lado, usar drogas leves é decisão individual e a sociedade não deve criminalizar. De outro, todas as drogas devem ser proibidas, senão levarão ao consumo de drogas pesadas.

Para os tolerantes, adolescentes ao cometerem crimes necessitam sim de reeducação. Para os intolerantes, adolescentes criminosos devem ser punidos como adultos.

Desigualdade social causa criminalidade. Maldade pessoal causa criminalidade.

Pena de morte, para a esquerda, tem risco de punir sem reversão muitos erros judiciais e policiais. Pena de morte, para a direita, é a punição definitiva para criminosos recorrentes.

Para os pacifistas, a posse de armas deve ser proibida, porque eleva o risco de usos fortuitos. Para os violentos, a posse legalizada de armas deve ser um direito para o cidadão se defender.

Para os trabalhistas, sindicatos defendem os interesses dos trabalhadores em negociações coletivas. Para os alienados, sindicatos só fazem politicagem – e cobram muito por isso.

Pobreza, para o altruísta, é resultado do “azar de berço” sem a igualdade de oportunidades. Pobreza, para o egoísta, está ligada à preguiça e pobres só criam problemas para a cidade.

Homossexualidade e aborto são liberdades de dispor do próprio corpo na visão tolerante. Devem ser punidos por irem contra os costumes sociais e religiosos na visão intolerante.

Devemos evitar no debate público-eleitoral a generalização precipitada. É uma falácia cometida quando alguém tira uma conclusão a partir de uma amostra pequena ou específica demais para ser representativa do universo. Por exemplo, os candidatos militares são representantes autênticos das Forças Armadas? Da casta dos guerreiros?

Argumento ad hominem (ao homem) é atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente. Seja à direita, seja à esquerda, não cabe a priori a culpa por associação: desacreditar uma ideia ao associá-la a algum indivíduo ou grupo malvisto em determinadas redes sociais. Falácia genética ocorre quando um argumento é desvalorizado (ou defendido) não por seu mérito, mas somente pela natureza ocupacional da pessoa defensora da ideia.

Dito isso, devem estar claros os critérios para classificar alguém como portador da ideologia direitista. A posição de direita tem a ideia de a vida em sociedade reproduzir a vida natural, com sua violência, hierarquia e eficiência. Logo, se os Homens são seres biológicos desiguais, devem se submeter à lei do darwinismo social: “seleção dos vencedores por mérito próprio”. Segundo essa concepção, a sociedade mercantil faz também a seleção, neste caso “social”, entre os indivíduos capazes de evoluir — “os vencedores” — e os mal capazes de sobreviverem — “os perdedores”.

regra de ouro da direita é: quem melhor se adapta ao meio ambiente econômico enriquece, e dá continuidade à sua dinastia. O homem de direita, acima de tudo, preocupa-se com a defesa da tradição, família e propriedade, ou herança e costumes conservadores. Contrapõe sua defesa (positiva) da liberdade individual à sua defesa (negativa) da desigualdade natural. Defende, acima de tudo, seu clã.

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